Chimpanzé Cecilia muda de vida no Brasil para superar feridas do passado

Carlos Meneses Sánchez

São Paulo, 14 abr (EFE).- A chimpanzé Cecilia nunca tinha sentido a sensação de colocar os pés na terra, somente conhecia o cimento do zoológico argentino onde nasceu 20 anos antes. Hoje, respira o ar fresco em um santuário do Brasil, rodeada de outros de sua espécie para superar o "inferno" do qual foi vítima no passado.

Após sua primeira semana no Santuário natural de Sorocaba, interior de São Paulo, Cecilia já se mostra ativa e curiosa em sua nova casa, embora ainda fique distante da equipe de veterinários que analisa seu comportamento de perto enquanto cumpre com o período de quarentena.

"Ela ainda está muito desconfiada", disse à Agência Efe o cubano Pedro Alejandro Ynterian, proprietário deste refúgio que hospeda, entre outros animais, outros 50 chimpanzés, todos resgatados do circo ou de zoológicos insalubres.

Por um instante, Cecilia sai de seu quarto para saber quem chegou. Passeia livremente pelos dois módulos que tem à disposição e olha pelas janelas, como se ainda não acreditasse onde está.

"Sua capacidade de se adaptar é muito grande ou seu desejo de fazer isso, mas ainda está com muito medo de retornar ao inferno no qual vivia. Quando escuta um motor ou algum caminhão, se esconde" porque acredita que vão levá-la de volta, explica Ynterian.

Nos 20 anos de sua vida, Cecilia esteve "exposta" em um cubículo de um zoológico de Mendoza (Argentina), que foi fechado ao público no ano passado após uma série de mortes.

Seu confinamento provocou um "trauma" que piorou quando morreram os companheiros com os quais compartilhava sua vida, aponta à Agência Efe Camila Gentile, médica veterinária do santuário, onde trabalha há 12 anos.

"São como os humanos, têm depressão e esses traumas psicológicos são muito mais difíceis que os físicos, mas o de Cecilia é psicológico: a exposição, a depressão de viver muito tempo só... E isso é mais difícil de recuperar", comenta.

O tratamento? Para alguns casos tiveram até que administrar antidepressivos, mas parece que no caso de Cecilia não será preciso chegar a tal extremo e depois da quarentena o objetivo será "buscar uma companhia".

"Temos experiências com outros chimpanzés que chegaram muito mal, muito tristes e depois de se adaptaram e conseguir um companheiro, agora estão ótimos", expressa Gentile.

A chegada de Cecilia a este santuário não foi um caminho de rosas, se tornando uma odisséia jurídica que durou dois anos e de fato, é o primeiro chimpanzé no mundo que usou um habeas corpus para conseguir sua liberdade.

A juíza encarregada do caso opinou em uma inédita sentença que Cecilia é um "sujeito de direito não-humano", que "não pode ser escravizada pela vida toda" e, além disso, "tem o direito de viver com sua espécie", lembra Ynterian.

"Ela pisou na terra e na grama pela primeira vez aqui. Ela viveu sobre o cimento durante toda vida. Não via o céu porque havia grades. Aqui, ela tem independência, liberdade e não precisa lidar com o assédio do público", disse o também secretário-geral do Projeto de Proteções aos Grandes Primatas (GAP), um movimento internacional que luta pelo conforto destes animais.

Cumprida sua primeira semana em Sorocaba após uma viagem de dois dias, que incluiu mil quilômetros em um furgão, mais um voo interminável, Cecilia já "tem vários candidatos", revela Ynterian, que a ajudarão em sua readaptação quando acabar os 40 dias de isolamento impostos por lei.

O primeiro de todos é Billy, um macho que chegou ao santuário em 2004, procedente de um circo.

Apesar de seu caráter explosivo, ele gosta do contato humano e conseguiu desenvolver um vínculo com os veterinários do santuário, no entanto, por culpa dos traumas circenses, não terminou de consolidar a convivência com seus semelhantes e teve que ser levado para um recinto amplo construído para ele.

Cecilia já o conhece de vista, pois seus "quartos" estão praticamente de frente para o outro, agora só resta torcer para que os dois tenham uma boa química.

"Ela já o viu. Se veem constantemente", disse Ynterian. EFE