Racha republicano impõe Dia da Marmota à Câmara dos EUA, que continua sem presidente

WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - "Bom dia e feliz Dia da Marmota", disse a deputada democrata Katherine Clark na manhã desta quinta-feira (5), terceiro dia seguido de caos na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

Um racha no Partido Republicano, que detém o controle da Casa na legislatura iniciada nesta semana, impede desde terça (3) o líder da legenda, Kevin McCarthy, de conseguir votos suficientes para ser eleito presidente, o que mergulhou o Legislativo em um impasse que não se via desde 1923.

Nos dois primeiros dias, foram seis votações para o cargo, com uma mínima diferença nos resultados finais. McCarthy precisa de 218 apoios para ser eleito, 4 a menos do que as 222 cadeiras do partido, mas tem enfrentado a resistência de 20 deputados em uma guerra aberta da ala ultraconservadora da legenda contra ele. Daí a comparação com o Dia da Marmota do filme "Feitiço do Tempo", em que os dias se repetem, da mesma forma e infinitamente, para o personagem de Bill Murray.

"Já votamos seis vezes para [eleger o] presidente, e os resultados falam por si", disse Clark, número 2 do Partido Democrata na Câmara. A legenda, que se tornou minoria depois do resultado das eleições legislativas de novembro, tem colocado lenha na fogueira dos adversários políticos. "Os republicanos estão em uma turbulência histórica, incapazes de se organizar, governar e liderarem."

Por dois dias, os consensos se deram apenas para adiar a escolha por mais um dia. Nesta quinta (5), a sétima votação terminou de novo com a derrota de McCarthy -20 colegas votaram em Byron Donalds, 1 se absteve.

A falta de consenso trava a pauta na Câmara, com deputados obrigados a votar quantas vezes for preciso até que o novo presidente seja escolhido. A última vez em que não houve uma eleição logo na primeira rodada foi em 1923, quando a seleção de um republicano demandou nove votações.

McCarthy enfrenta oposição principalmente da ala ultraconservadora do partido. Dos 20 colegas que vêm votando contra ele, 19 são ligados ao Freedom Caucus (bancada da liberdade), grupo republicano mais à direita; a maioria ainda repete o discurso mentiroso de que a derrota de Donald Trump no pleito de 2020 para Joe Biden foi fraudada.

O ex-presidente, diga-se, entrou no circuito nesta quarta, fazendo um apelo pelo deputado da Califórnia. Não adiantou, num reflexo do desgaste que ele próprio enfrenta, dentro e fora do partido.

McCarthy, de toda forma, tem acenado à ala radical na esperança de realizar o sonho de ser presidente da Câmara. As negociações não param desde terça, e a imprensa política americana noticia, com base em fontes do Partido Republicano, que ele tem feito mais e mais concessões -que na prática só o enfraquecem.

Uma das demandas seria colocar em pauta um projeto para que deputados tenham um limite de três mandatos, de dois anos cada um. Outra, que qualquer congressista possa propor a votação da destituição do presidente da Câmara --em outra concessão que ele já havia feito, a ideia era que um grupo de cinco nomes pudesse fazê-lo. McCarthy também teria prometido ceder mais espaço ao Freedom Caucus no Comitê de Regras, que administra o regimento interno e a forma como projetos de lei são encaminhados.

Caso tudo for acatado e o líder finalmente seja eleito, a Câmara de 2023 terá um presidente muito mais enfraquecido que a democrata Nancy Pelosi, que deixou o posto em dezembro aos 82 anos e tem entre suas principais marcas o fato de ter unido o Partido Democrata sob sua liderança.

A questão republicana é ainda mais complexa porque, em meio ao impasse envolvendo McCarthy, não há também um nome claro na legenda que possa vencê-lo --os competidores até aqui atendem apenas aos anseios dos radicais.

A falta de consenso, porém, levanta especulações. O mais citado até aqui é Steve Scalise, deputado por Louisiana e número 2 do partido na Câmara. Ao contrário de McCarthy, ele não teve oposição interna na eleição para a liderança, em novembro, e é visto como mais conservador, o que agradaria ao Freedom Caucus.

Nascido na Califórnia, McCarthy foi eleito deputado pela primeira vez em 2006 e rapidamente galgou espaço na política interna republicana. No começo da carreira era tido como representante da ala jovem moderada, os "young guns" (armas jovens), e chegou a lançar um livro com esse título, clamando por mais consenso bipartidário para avançar pautas importantes para o país.

No governo Trump foi se aproximando da agenda conservadora e se transformou em forte aliado do então presidente. Dias após o pleito de 2020, ainda durante a apuração, chegou a dizer à Fox News que o republicano havia vencido, antes de o resultado oficial apontar Biden como eleito.

A maré virou na sequência da invasão do Capitólio, quando uma multidão insuflada por Trump tentou impedir à força a confirmação da vitória do democrata. McCarthy se voltou contra o então presidente e, em conversas privadas que vazaram à imprensa, pediu sua renúncia. No púlpito da Câmara fez um discurso duro, em que afirmou que Trump era "responsável pelo ataque" e "deveria ter denunciado imediatamente a multidão quando viu o que estava acontecendo". Ao longo do governo Biden, porém, se reaproximou do ex-presidente.

Ele promete que sua gestão à frente da câmara abrirá uma série de investigações contra a gestão Biden, mirando do secretário de Segurança Interna pela crise da imigração na fronteira com o México à retirada das tropas do Afeganistão e os negócios de um dos filhos do presidente, Hunter Biden. O deputado também prometeu investigar o que considera limitação à liberdade de expressão por empresas de tecnologia e o que chama de doutrinação nas escolas.