Se rachadinha chegar a Bolsonaro, 3ª via deixa de ser ilusão

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Brazilian President Jair Bolsonaro attends the sanction of the law that authorizes states, municipalities and the private sector to buy vaccines against COVID-19, at the Planalto Palace in Brasilia, on March 10, 2021. - Until now, with more than 260,000 deaths by the coronavirus, only the federal Government was authorized to buy vaccines. (Photo by EVARISTO SA / AFP) (Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro durante solenidade no Planalto. Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images)

Até uma semana atrás, Jair Bolsonaro era um presidente fraco, mas com algum controle da narrativa, e que corria sozinho para uma reeleição relativamente tranquila. A principal razão era a ausência de um adversário de peso.

Isso mudou com a reabilitação, ao menos até aqui, do ex-presidente Lula na disputa. Tendo de volta os direitos políticos, o petista se tornou automaticamente o candidato a candidato ao posto anti-Bolsonaro, vaga antes ocupada por João Doria (PSDB) sem tanto sucesso e com a oposição na lona.

Faltava ao governador paulista o que sobra ao ex-presidente. A começar pelo consenso dentro do próprio partido e a projeção nacional. Outro empecilho é o fato de o tucano estar emparedado entre dois campos políticos bem definidos. Não teria vez com o eleitor identificado à esquerda e já largaria em desvantagem no terreno onde Bolsonaro tem nadado de braçada desde a Lava Jato —um campo à direita que engloba de liberais ainda iludidos com os planos de Paulo Guedes a saudosos da ditadura, passando por lava-jatistas que na hora H apertariam o nariz e sufragariam o capitão para não ver Lula de volta ao poder.

Numa semana de reviravoltas, aliados de Bolsonaro já anteviam uma disputa com o antípoda petista. Avaliavam os pontos fracos e fortes do presidente em um eventual debate nas eleições de 2022.

À coluna Radar, da revista Veja, auxiliares palacianos desenhavam como seria este embate. Bolsonaro, disseram, precisaria mudar a postura. Lula fatalmente forçaria um confronto de gestão. E Bolsonaro, eles admitiram, não governa, passa os dias no palácio contando piada e não se preocupa em vestir o figurino de estadista. Isso tende a mudar, como indica a recente conversão à defesa da vacina e o uso de máscara.

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Em contrapartida, ele teria a seu favor a memória recente da devassa provocada pela Lava Jato sobre os governos petistas. Nesse campo, apostaram os auxiliares, o capitão ganharia de lavada, mesmo sendo o cara que ajudou a desmontar a força-tarefa de Curitiba.

Tudo seria ainda reforçado com as vitórias empilhadas na Justiça pela família para barrar o avanço das apurações sobre as tais rachadinhas supostamente promovidas pelo filho Flávio Bolsonaro, o 01, e o faz-tudo Fabrício Queiroz.

Nesta segunda-feira 15, porém, a publicação de uma extensa reportagem do UOL, iniciada antes da anulação das provas determinadas pelo Superior Tribunal de Justiça, mudou de novo o desenho da sucessão.

A reportagem, com base em dados fornecidos pelo Ministério Público, mostrou que não só o esquema investigado pode ser maior do que se sabia até então, como pode envolver outro filho e bater às portas do gabinete onde Jair Bolsonaro era deputado nas três últimas décadas. Entre as evidências estão o saque em dinheiro da maior parte do salário por parte de assessores, o fato de a ex-mulher do atual presidente ter ficado com R$ 54 mil da conta de uma assessora na Câmara e as pegadas de ex-chefe de gabinete de Flávio Bolsonaro que pagava contas até do primo Léo Índio.

As revelações já movem as placas tectônicas em Brasília, com partidos de oposição pedindo CPI e o Ministério Público ganhando força para seguir com as apurações.

Slogan dos mais fervorosos bolsonaristas, a placa “a boquinha acabou” parece não colar mais.

É fato que os atos investigados envolvem a vida pregressa do clã Bolsonaro. A que os levou para dentro do Planalto —no caso do hoje senador Flávio, pode ter levado também, conforme as suspeitas, a adquirir uma mansão que jamais teria comprado com o salário de parlamentar.

Isso pode ser usado por adversários nos debates antes e durante a campanha presidencial. Como deve ser usada a suspeita de que, sob Bolsonaro, a Polícia Federal foi domesticada por quem avisou na reunião de 22 de abril que iria “interferir e pronto” na corporação. Consumada, a mudança levou à demissão de Sergio Moro —com ele, parte do discurso do combate à corrupção.

Vai ser preciso muito esforço do gabinete do ódio e dos fabricantes de fake news para evitar a corrosão do verniz no barco bolsonarista, vendido como feio e sujo, porém honesto, até lá.

Com o desastre na condução da pandemia, os números pífios na economia e a incompatibilidade com o cargo, já seria difícil, para Bolsonaro, ganhar ou recuperar terreno com quem mantém alguma relação racional entre voto e visão das coisas. Com a pecha de que, em termos de combate à corrupção e fim da mamata, ele não seria assim tão diferente dos que sempre atacou, fica quase impossível.

O vácuo da eventual decepção com quem tanto prometia e atacava pode criar terreno para novos adversários no campo liberal-conservador. Se não for emparedado pelo STF, a possível desmoralização do clã Bolsonaro poderia reabilitar até figuras como Sergio Moro. Ou aguçar as pretensões de Luciano Huck. Talvez façam até João Doria rever a intenção conformada de disputar a reeleição ao Planalto dos Bandeirantes e só.

Da figura que se elegeu em 2018 prometendo mudar tudo isso que está aí só ficou o mito.

E os fieis que ainda creem nele acima de tudo e de todos podem não ser suficientes para garantir um lugar no segundo turno se outra liderança souber gerenciar o espólio da decepção. 

É certo, porém, que há muito o que acontecer até 2022. Inclusive os golpes mais sujos que ainda devem estar no forno. Ou alguém pode esperar honestidade de quem já mentiu e jogou baixo antes para chegar onde chegou?

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