PSG x Istanbul: o jogo era histórico, mas Jorge Jesus viu apenas 'moda'

Matheus Pichonelli
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PARIS, FRANCE - DECEMBER 08: Neymar Jr of Paris Saint-Germain talks with 4th referee Sebastian Coltescu during the confusion following an alleged incident between Istanbul Basaksehir assistant manager Pierre Achille Webo and the 4th official Sebastian Coltescu during the UEFA Champions League Group H stage match between Paris Saint-Germain and Istanbul Basaksehir at Parc des Princes on December 8, 2020 in Paris, France. (Photo by Xavier Laine/Getty Images)
Confusão no jogo entre Paris Saint-Germain e Istanbul Basaksehir. Foto: Xavier Laine/Getty Images

Jorge Jesus se tornou um dos técnicos mais vitoriosos da história do Flamengo, o time mais popular do país do futebol, em tempo recorde.

Com poucos meses de trabalho, transformou uma equipe desencaixada em uma máquina de empilhar vitórias e adversários. Levantou as taças da Libertadores e do Campeonato Brasileiro num intervalo de 24 horas.

Entre comandados e aficionados, o treinador português se tornou comandante e referência de uma multidão --muitos deles negros, parte deles consagrada pela bola e nem por isso imune a 300 anos de escravidão.

Na terça-feira 9, jogadores do Paris Saint-Germain e do Istanbul Basaksehir fizeram história ao se negarem a voltar a campo, em uma partida da Liga dos Campeões da Europa, após uma ofensa racista do quarto árbitro, o romeno Sebastian Coltescu, contra o membro da comissão técnica da equipe turca, o ex-atacante camaronês Pierres Webó.

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“Aquele preto ali. Vá lá e verifique quem. Aquele preto ali. Não dá para agir assim”, disse o quarto árbitro ao juiz da partida depois de uma reclamação da comissão técnica do Instanbul em um lance do jogo.

“Por que você falou aquele preto?”, questionou Webó.

Liderados por Neymar e Mbappe, os atletas da equipe francesa fecharam com os rivais e decidiram: com o quarto árbitro em campo, não haveria mais jogo. Azar de quem lucra com o esporte, entre emissoras e patrocinadores. Eles que lutem para entender que com com racismo não tem jogo. Nem lucro.

Quem sabe assim, doendo no bolso, revejam as vistas grossas?

O que poderia ser um dia histórico --e talvez seja, observado com o devido distanciamento temporal --passou a ser relativizado como sempre no dia seguinte. Desta vez, coube ao ídolo flamenguista, o técnico Jorge Jesus, hoje no Benfica, oferecer o maior pano para encobrir a história.

Para ele, “está muito na moda hoje falar sobre racismo”. “Hoje, qualquer coisa que se diga contra um negro é sempre sinal de racismo, mas o mesmo a um branco já não é sinal de racismo. Está a implementar-se essa onda no mundo”, disse o português, que provavelmente não lia, não se lembra ou não lê mais o noticiário do país que o acolheu durante um ano.

Se tivesse, talvez revisasse a ideia de que falar em racismo seja moda em lugares onde bala perdida encontra na maioria das vezes o corpo negro. Na semana passada, em um município da Baixada Fluminense, no território onde se consagrou, duas crianças foram mortas enquanto brincavam no quintal de casa.

Falar sobre racismo não é falar sobre moda. É falar sobre esses crimes.

Jorge Jesus prefere deixar entrever que é do time dos daltônicos, como se apresenta Jair Bolsonaro, hoje carne-e-unha com os dirigentes flamenguistas que comemoram vitória na Justiça para não pagar um valor irrisório, perto de seu orçamento milionário, às vítimas do incêndio no Ninho do Urubu --todos eles jovens e negros.

“Não adianta dividir o sofrimento do povo brasileiro em grupos”, pede o presidente, a quem o jurista e professor de direito constitucional Conrado Hübner Mendes responde em artigo na Folha de S.Paulo: “os fatos insistem em dividir o sofrimento brasileiro em grupos”.

Hübner cita os dados do Anuário de Segurança Pública de 2020 para lembrar que pessoas negras são 75% das vítimas de violência letal no Brasil; 79% das vítimas de intervenção policial; 65% dos policiais assassinados e 67% da população carcerária.

Se não tivesse tão enamorado com as suas taças, talvez Jorge Jesus aprendesse um pouco olhando para cima do próprio umbigo em sua estadia em terras brasileiras.

Aparentemente ele não levou mais nada na bagagem de volta à Europa, onde a moda, puxada pelo populismo de direita radical e a ascensão de grupos neonazistas, é bem outra.

No Livro “Infiltrado na Klan”, que Spike Lee adaptou recentemente para o cinema, o ex-policial negro Ron Stallworth narra como conseguiu enganar um grupo de supremacistas americanos e levar seus líderes à prisão.

Já no primeiro capítulo o autor responde o que o quarto árbitro romeno não teve coragem de responder quando confrontado por Webó: “Por ter sido chamado de criolo muitas vezes na minha vida, desde pequenos confrontos do cotidiano que acabavam se transformando em feias discussões, até ocasiões em que, estando eu a serviço, multava alguém ou realizava uma prisão, eu sabia que, quando uma pessoa branca dizia isso para mim, toda a dinâmica mudava. Ao dizer ‘crioulo’, ele me informava que achava que era intrinsecamente melhor que eu. Essa palavra era uma forma de reivindicar uma espécie de falso poder. Esse é o linguajar do ódio”.

Para se fingir de supremacista branco, Stallworth sobe usar esse linguajar em seu sentido inverso e criar uma radiografia de como opera o racismo mas indisfarçado.

Fica a dica de leitura para Jorge Jesus e outros daltônicos se tornarem vitoriosos para além das quatro linhas --as únicas que de fato importam.