Racionais vão à Unicamp para aula sobre eles mesmos: 'O rap dá voz a quem nunca teve voz'

A voz do pai que eles não conheceram. Os conselhos que os mantiveram longe da “vida errada”, impedindo-os de virar “estatística”. Força para suportar ambientes onde eram os únicos negros. O som que os ensinou a valorizar a cultura da periferia. Foi assim que alguns estudantes da disciplina “Tópicos Especiais em Antropologia IV: Racionais MC’s no Pensamento Brasileiro”, oferecida pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, descreveram a música dos Racionais MC’s. Na noite desta quarta-feira (30), Mano Brown, Ice Blue e KL Jay (Edi Rock não estava) participaram de uma aula aberta no Centro de Convenções do Ginásio Multidisciplinar da Unicamp.

— Se tivesse mais dois alunos para falar, a gente ia desabar, mano — disse KL Jay, antes de elogiar a decisão da Unicamp ao abrir espaço para a cultura hip-hop (“Sobrevivendo no inferno”, álbum dos Racionais que virou livro, é cobrado no vestibular). — O rap dá voz a quem nunca teve voz. A gente agradece a iniciativa dos mestres. Precisou uma universidade de Campinas para fazer isso, porque a Universidade de São Paulo não teve coragem para quebrar essa barreira.

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As 700 vagas disponíveis para assistir à aula, anunciadas na última sexta-feira (25), esgotaram-se em menos de duas horas. Até quase as 22h, Mano Brown, Ice Blue e KL Jay responderam às perguntas dos alunos sobre assuntos diversos, como o lugar do rap na tradição crítica brasileira, a representação da mulher nas letras, as tensões raciais e a figura paterna que os Racionais MC’s representam para muitos ouvintes:

— Falar de pai é foda. Não tive esse exemplo. Tive que aprender a ser pai na raça. Tento ser amigo do meu filho, mas é difícil ser meu amigo, porque eu sou chato para caralho — confessou Brown. — Os mais novos sempre procuram os Racionais. Tem essa coisa de paternidade. Os Racionais são legais, mas eu acho legais os caras que têm o próprio estilo. Fico orgulhoso. Não vou dizer que não ostento, porque eu ostento o nosso legado, sim.

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Falando em ostentação, num dos melhores momentos da noite, Brown respondeu à pergunta de uma aluna sobre o álbum “Cores & Valores”, de 2014, que apresentou uma visão mais positiva do consumo dos que os primeiros trabalhos do grupo. A estudante lembrou também que, na época do lançamento do disco, o chamado funk ostentação bombava. Em sua resposta, Brown afirmou que os Racionais sempre tentaram ser fiéis a seu tempo: no caso, o tempo dos governos petistas, marcados pela ascensão da classe C e pela explosão de consumo popular. Segundo ele, naquela época, não havia melhor lugar para passar o Natal do que a favela, porque lá as expectativas haviam mudado. Os Racionais se esforçaram para captar esse movimento.

— A malandragem descobriu que a felicidade não está no céu. O povo tem sede de viver hoje, não depois da morte. Isso fez o nosso rap ir do coletivo para o individual. Nesse disco, as pessoas falam que perfume querem, que roupa querem, que bebida querem. Esse disco é complexo, fala que os pretos não são todos iguais — afirmou Brown. — Não considero um disco de ostentação, não. O rap estava defasado. A juventude estava querendo mais coisas. Como dizem os Titãs, a gente não quer só comida. Fiquei muito magoado com os pretos que disseram que era um disco consumista, “não me representa”. Pô, está pensando igual ao branco? Para nós, um tênis significa muito mais do que um tênis.

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Ice Blue foi na mesma linha ao responder a uma pergunta sobre a relação entre o rap e o funk. Teria o funk tomado o lugar no rap na politização da juventude das periferias?

— O funk é um movimento da favela, como o samba e o rap. Eles estão fazendo o que a gente fez. Os carrões e os cordões de ouros são merecidos. Nossos ancestrais foram ricos para caralho. Por que vamos ter vergonha disso? Sonhos têm que ser respeitados antes de ser criticados — afirmou KL.

Racismo na Universidade

A disciplina “Tópicos Especiais em Antropologia IV: Racionais MC’s no Pensamento Social Brasileiro” foi oferecida pela primeira vez este semestre, pela professora Jaqueline Santos, do Departamento de Antropologia. Em sala de aula, os estudantes analisam a estética dos Racionais (como o uso dos samples), os temas das canções e as convergências entre as letras e o contexto histórico em que foram produzidas (como a tragédia social dos anos 1990, que inspirou “Sobrevivendo no inferno”). Além dos 45 alunos matriculados regularmente na disciplina, outros 18 assistem às aulas como ouvintes. Segundo Santos, boa parte deles são das Ciências Sociais, mas também há estudantes de Filosofia, História, Biologia e até Engenharia Civil. A maioria é negra e ingressou na Universidade pela política de cotas.

Ainda em agosto, um incidente marcou a disciplina. Devido ao grande número de alunos, o curso foi transferido do IFCH para o chamado Ciclo Básico, prédio onde são ministradas disciplinas de várias áreas. Santos conta que, um dia, testava o som antes da aula, quando um professor de engenharia que entrou na sala aos gritos para reclamar do barulho. Ali não era lugar para escutar música, dizia ele, enquanto Santos tentava explicar que se tratava de uma aula. O caso foi tratado como um episódio de racismo — Santos é negra — e denunciado pelo Núcleo de Consciência Negra da Unicamp. Posteriormente, o professor foi à sala da colega se desculpar. De acordo com Santos, ele disse que não tinha como saber que ela era professora.

Durante a aula aberta, alunos relataram aos músicos casos recentes de racismo na Universidade, os quais, segundo eles, vêm aumentando nos últimos tempos.

— Vocês, pretos, conquistaram esse espaço, mas a luta é constante. Vocês já conseguiram entrar, agora têm que lutar para se manter e conquistar a boa convivência com todos — disse KL Jay.

Ice Blue também deu seu recado:

— Aqui tem muita gente que se sente sozinha, mas lá fora vai ter o mesmo sentimento. Aproveitem essa oportunidade aqui, mesmo com os olhares de quem não gosta da gente. Nada vai ser fácil para a gente em nenhum lugar do mundo. Tentem sempre o melhor. E respeitem sempre o professor, porque isso se perdeu. Querem se inspirar nos Racionais? O que a gente aprendeu foi respeitar o mais velho, o professor, o maluco da esquina, o próximo.

Já Brown tentou contemporizar, fez várias perguntas sobre os episódios de racismo e deu conselhos aos mais jovens, fazendo jus à imagem de pai pintada nos depoimentos que deram início à aula:

— A gente sempre vai encontrar obstáculos, seja na relação com a outra raça, seja dentro da nossa raça. Leva tempo para a gente se sentir acolhido e respeitado. Às vezes, nossa indignação, nossa ansiedade e nossa sede de justiça atuam contra a gente. Quando a gente não consegue controlar nosso ímpeto. Mas temos que nos organizar sempre.

Os casos de racismo, como a invasão da aula sobre os Racionais, mobilizaram os alunos, que enviaram uma carta à reitoria da Unicamp com reivindicações diversas, como a criação de um protocolo para denúncias de crimes raciais e a concessão de doutorados honoris causa para Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock.

— Campinas foi a última cidade do Brasil, talvez do mundo, a abolir escravidão. Aqui era o castigo de todo escravizado. Os senhores diziam: “Vou te mandar para Campinas” — lembrou Brown. — Por isso, esse ato aqui é muito mais do que heroico. É isso aí!