Duas semanas após assassinato no Carrefour, racismo está longe de sair das manchetes

Matheus Pichonelli
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Workers clean up red paint thrown at the entrance of supermarket Carrefour by demonstrators during a protest against the death of a black man inside the supermarket Carrefour, in Rio de Janeiro, on November 22, 2020. - The death of Joao Alberto Silveira Freitas on the night of November 19 after being beaten by white security agents in a supermarket belonging to the Carrefour group in Porto Alegre unleashed a wave of indignation in Brazil. (Photo by CARL DE SOUZA / AFP) (Photo by CARL DE SOUZA/AFP via Getty Images)
Protesto numa unidade do Carrefour do Rio após a morte de João Alberto Silveira Freitas em Porto Alegre. Foto: Carls de Sousa / AFP (via Getty Images)

Na quinta-feira 3 completaram-se duas semanas da morte de Carlos Alberto Freitas, homem negro de 40 anos espancado por seguranças em uma unidade do Carrefour em Porto Alegre.

Na cidade, venceu a eleição o candidato a prefeito que disse não querer politizar o caso.

Em São Paulo, o artista plástico NegoVila foi assassinado, após uma discussão com um PM à paisana, na Vila Madalena. O Beco do Batman, reduto cultural da região, foi pintado de luto em homenagem ao artista de 40 anos.

Uma mulher negra foi eleita prefeita de Bauru e precisou acionar a polícia diante de tantas ofensas racistas escritas sobre ela nas redes.

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Em Campinas, maior cidade do interior do país, um manobrista, também negro, foi humilhado por um empresário no bar frequentado pela classe média e classe média alta da cidade “O que você ganha em um mês eu gasto em um dia”, disse o empreendedor, que ainda ameaçou dar um tiro no profissional. Um boletim de ocorrência citando injúria e ameaça foi registrado na delegacia.

(O episódio aconteceu a poucos quilômetros de Valinhos, onde um entregador negro foi também humilhado e ouviu do morador de um condomínio de luxo que ele tinha inveja da sua cor da pele).

No Rio, um morador de rua, também negro, morreu sem poder ser socorrido em uma padaria da zona sul e por lá ficou, com o corpo coberto por um saco plástico, para não incomodar os fregueses.

Após alguns dias de comoção com o crime ocorrido na capital gaúcha, o Brasil ainda não tem o seu George Floyd. Feitas as homenagens, a maioria pelas redes, a barbárie fundadora do nosso modelo escravocrata seguiu firme e forte, desatualizando um a um os casos que provocam choque no primeiro momento e são esquecidos nos minutos seguintes, substituídos por outros atos de barbárie, e outros, e outros --quase todos renomeados por bons advogados e pela compreensão alargada de quem se conforma com explicações que atribuem o crime a um ato impensado relacionado a remédios, transtornos e uso de álcool.

De ato isolado em ato isolado, todos com atenuantes que ninguém ousa chamar de branquitude, o Brasil saiu das urnas, no último domingo, com 5.568 prefeitos eleitos ou reeleitos. Segundo a plataforma 72horas, metade dos vitoriosos são brancos (48%) e apenas 10,53%, negros.

A disparidade na distribuição de recursos, que contemplam os fundos partidário e eleitoral, é evidente: mesmo representando menos de 50% das candidaturas, os autodeclarados brancos receberam 63% dos recursos públicos --enquanto candidatos e candidatas negras receberam 7,6% e pardas, 28,4%.

Na quinta-feira 3, o presidente da Caixa declarou ter visitado alguns lixões em alguns dias e que testemunhou algo que nunca pensou existir: pessoas morando nos lixões.

Tem um país que ainda não se conhece e outro que não quer reconhecer. Nesta semana, o presidente da Fundação Palmares mandou para o paredão 27 pessoas excluídas da lista de personalidades negras da instituição, entre elas Elza Soares, Gilberto Gil e Martinho da Vila. O chefe sorriu satisfeito com a obediência.

Em sua participação na cúpula do G20, Jair Bolsonaro disse que tensões raciais são alheias à história do Brasil e atribuiu a um movimento político a tentativa de “destruir” a diversidade e dividir os brasileiros.

Neste país a taxa de homicídios de pessoas negras saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018, segundo o Atlas da Violência 2020. Os assassinatos de pessoas brancas teve queda de 12,9% e chegou a 13,9 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes.

Se calarem a voz dos denunciantes, as pedras falarão.