Racismo na Espanha: suspensão de jogo é decisão exclusiva do árbitro e prevista em casos envolvendo torcida

Tatiana Furtado
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No domingo, todo o time do Valencia deixou o campo após o zagueiro do time Diakhaby relatar ter sido chamado de “negro de merda” pelo defensor Juan Cala, do Cádiz. Mas voltaram algum tempo depois, pois a retirada do jogo se configuraria em W.O. e o clube, automaticamente, perderia os três pontos.

O caso será investigado internamente pela La Liga. Cala poderá responder dentro de artigos do código disciplinar do futebol espanhol, como ofensa grave ou xenofobia, cuja punição varia de multa a suspensão por cinco anos.

—Como temos feito outras vezes com incidentes envolvendo racismo, nós abrimos um procedimento interno de investigação e temos que fazê-lo com vídeos e imagens da partida para verificar e esclarecer o que aconteceu naquele instante — disse o presidente da La Liga, Javier Tebas, via assessoria de imprensa.

De acordo com o Código Disciplinar da Fifa, que é replicado nos regulamentos das confederações, os árbitros detêm o poder de paralisar uma partida, definitivamente, em caso de racismo e outros atos discriminatórios vindos da torcida.

Desde 2019, está em vigor o protocolo de três etapas, que consiste em: solicitar um anúncio público para exigir que o comportamento pare (em caso de ofensas da torcida), suspender o jogo até que as atitudes cessem e, finalmente, abandonar a partida definitivamente. Além disso, há as sanções aos clubes como multa ; partidas sem torcida; proibição em jogar em certo estádio; perda da partida; eliminação de competições; e rebaixamento a divisões inferiores.

A aplicação do código, no entanto, não tem sido tão comum. Em quase dois anos, nenhuma partida chegou a ser totalmente suspensa por causa de atitudes racistas ou afins vindas da torcida.

Dentro de campo, o caso mais próximo foi o jogo entre PSG x Istanbul Basaksehir, pela Liga dos Campeões. Um membro da comissão técnica do time turco acusou o quarto árbitro de ter cometido racismo. O jogo foi paralisado e retomado no dia seguinte.

No domingo, o Valencia deixou o campo, mas não houve ordem de paralisação da arbitragem. Por isso, caso não retornasse, o time seria declarado perdedor. O árbitro, que não presenciou o ocorrido, relatou o episódio na súmula.

— A Fifa prevê até 10 jogos de suspensão em casos de racismo praticado por jogador/técnico. Mas não há uma espeficidade no código sobre a paralisação do jogo caso a atitude racista ocorra de jogador para jogador. Se ele presenciar a ação, ele expulsa o jogador e continua a partida. A regra não prevê o acolhimento do atleta que sofreu racismo. O intuito é sempre que o espetáculo não pare. Mas a Fifa vem sendo pressionada pelos movimentos raciais e dos próprios jogadores — diz Marcelo Carvalho, diretor do Observatório do Racismo no Futebol.

O advogado de direito desportivo Felipe Moccia explica que a decisão do árbitro é soberana. Os clubes podem se manifestar como forma de repúdio ao ato, mas não cabe a eles a paralisação ou não do jogo.

– Dificilmente o árbitro vai tomar decisão de paralisar o jogo nesses casos. Se ele vê o ato racista, ele vai expulsar o jogador e dar seguimento à partida. Há o entendimento ali de que jogador e time já foram punidos. E o caso vai ser reportado na súmula. As apurações são posteriores ao ocorrido e o jogador poderá ser punido além da suspensão automática pela expulsão. Nunca ocorreu nada parecido. É muito difícil pelo prejuízo técnico ao suspender um jogo - afirma Moccia, do escritório Trengrouse & Gonçalves Advogados.