Racismo na primeira infância: o que você tem com isso?

Por Janaina Bernardino

Semanas atrás, as redes sociais foram bombardeadas com mais um caso de racismo. A história é a mesma, mas com personagens diferentes. Desta vez, com Titi e Bless, filhos da atriz Giovanna Ewbank com o também ator Bruno Gagliasso. O episódio, que ocorreu em Portugal, não só ganhou proporções pelo ataque racista, mas também pela reação da atriz.

Um vídeo mostra Giovanna xingando a mulher e depois, em entrevista ao Fantástico, ela confirmou que bateu na agressora. A mulher saiu do restaurante onde cometeu os insultos racistas escoltada pela polícia e deve responder a um processo. Mas a história não terminou por aí.

A problemática reacendeu uma pauta que para muitos estava adormecida: o lugar de fala. Giovana abraçou a causa e lembrou que todos, especialmente brancos, têm um papel catalisador na luta antirracista. Eis que então se destaca a questão: qual o papel da sociedade diante do racismo, sobretudo, na primeira infância?

Como combater o racismo na educação infantil?

A artista e educadora Lorena Barbosa Ramos conta que já presenciou casos de racismo das próprias crianças com outras, com insultos sobre o cabelo e exclusão, por exemplo. Por conta disso, ela passou a introduzir, de forma lúdica, conteúdos raciais e educativos, mas destaca que o corpo de professores ainda não abraçou completamente as diferenças. “Já presenciei professoras dizendo que não sabiam lidar com o cabelo de uma criança negra", lamenta Lorena.

Lorena Ramos no palco (Foto: Vinícius Barros)
Lorena Ramos no palco (Foto: Vinícius Barros)

É o que também compartilha Rafaela Rodrigues Martins, estudante de Pedagogia e mãe da pequena Isabela, que começou a perceber que as professoras não davam a sua filha o mesmo tratamento dedicado às outras crianças. "São vivências recorrentes com as crianças negras”, pontua ao analisar que a comunidade escolar não evidencia o racismo presente nas instituições e, portanto, tais casos são silenciados e invisibilizados.

No entanto, apesar da resistência em introduzir tal temática e de aplicar um modelo educacional que abrace a diversidade e suas especificidades, a escola enquanto o primeiro contato social das crianças tem um papel fundamental no desenvolvimento pleno do sujeito e tem potencial para ser protagonista no combate às estruturas racistas.

“Ninguém nasce racista, isso é algo que se aprende pela simples e também cruel ausência de pessoas negras nos espaços, nas narrativas e tudo o que uma criança já acessa”, pontua a educadora, que destaca ainda a necessidade de letramento racial. “É preciso investimento em formação inicial e continuada de qualidade para os professores, para que realmente possamos criar estratégias conscientes para acabar com tal problemática”, acrescenta. Um caminho para isso é a implementação plena da Lei 10.639/03, que prevê o ensino da História e Cultura africana e afro-brasileira em toda educação básica, como uma abertura para a real descolonização do currículo.

Como despertar a consciência racial ainda na primeira infância?

A bancária Juliana Concenza, relata que até ser mãe do seu primogênito, Davi, racismo não era um tema presente no seu dia a dia. Em um relacionamento interracial há mais de dez anos, Juliana tem um filho negro e outro branco e conta que apenas recentemente tomou consciência que seus meninos, apesar de serem criados juntos, passam e irão passar por situações distintas.

“Eles não entendiam porque um era mais claro que o outro e as pessoas também não conseguiam associá-los como irmãos, mesmo sendo semelhantes", afirma. Foi nesse contexto que começou a trabalhar a consciência racial dos meninos e até a sua própria.

Juliana avalia que o processo de letramento racial é muito sensível e não poderia ser reduzido apenas ao Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, quando todos estão se mobilizando. “Afinal, o meu filho é negro o ano inteiro”, ressalta. Com o auxílio de muitas trocas, a bancária encontrou nos livros infantis um suporte de qualidade para tratar a negritude, não só com Davi, mas também com o caçula, Arthur.

“Gosto de destacar que o Davi pode tanto quanto o Arthur. Que ele é lindo, inteligente e que ele não é um garoto moreno, como as pessoas gostam de ressaltar, mas sim um menino negro e ele deve se orgulhar disso. Assim como os seus ancestrais, ele é um rei, o meu rei Davi”, conta Juliana aos risos.

A educadora Lorena Barbosa, que também é contadora de histórias e se dedica à luta antirracista com o projeto, ‘Lô, conta uma estória?', também enfatiza a literatura como excelente recurso para alimentar a consciência racial, com escritos de autores negros como Kiusam de Oliveira, Madu Costa, Joel Rufino dos Santos, Rodrigo França e Carmém Lúcia Campos.

Já a estudante Rafaela, que entende não ser possível evitar que sua filha sofra racismo, busca construir ferramentas que mostrem que pessoas negras são capazes de ser o que quiserem. “Tento mostrar que ela é uma criança bonita, gentil e inteligente, ela merece ser amada e respeitada”, relata. “Com ela, busco introduzir na nossa rotina mecanismos, de modo que ela possa compreender a importância da nossa existência e resistência”.

Rafaela e a pequena Isa (Foto: Arquivo pessoal)
Rafaela e a pequena Isa (Foto: Arquivo pessoal)

Apesar da rotina corrida, a construção da autoestima não fica em segundo plano. Rafaela também costuma destacar a beleza de sua pele, de seus cabelos crespos e de seus traços. “Assim, acredito que valorizar a boniteza das características negróides também é importante para a construção da identidade da Isabela”, pontua.

O que você, branco, tem com isso?

É comum ouvirmos que o que dói no outro, não é um problema nosso. E isso é real, mas até a página dois. Quando essa dor desumaniza, mata, invisibiliza e aprisiona, enquanto o outro lado se beneficia e faz a manutenção dessa relação de violência, a pergunta que não quer calar é: Qual o seu papel na mudança desse cenário?

“Mas, afinal, racismo é uma problemática que diz respeito apenas a pessoas negras? A questão toda é estrutural, o que perpassa por todos nós, mulheres, homens, crianças. Direta ou indiretamente, nós, pessoas brancas, temos uma dívida imensa. O racismo sempre foi um problema nosso, que possamos então, construir linhas de fuga”, indica Juliana. Isso significa não silenciar e reagir, contra o racismo e os racistas identificados nos episódios de violência.