Racista? Anti-escravocrata? Queer? Entenda como 'Moby Dick' divide estudiosos

Um clássico americano de 1851 aparece desde segunda-feira entre um dos tópicos mais discutidos dos brasileiros. "Moby Dick", de Herman Melville, virou assunto depois que o influencer Felipe Neto chamou a atenção para trechos racistas da obra escrita há 171 anos.

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"Vi parágrafos profundamente racistas em 'Moby Dick', continuei a leitura do livro de nariz torcido, estou realmente incomodado. O livro é de 1851. O que é recomendado em casos assim? Como vcs avaliam?", perguntou Neto, gerando uma chuva de respostas.

Racista ou antirracista?

É fato que "Moby Dick" já gerou muitas reclamações pela maneira como se refere a negros e indígenas. Só que o romance também já foi celebrado por seu suposto antirracismo. Há estudos, inclusive, que apontam metáforas anti-escravidão em seu texto. Ou seja, como todo grande clássico, "Moby Dick" é muitas coisas e não pode ser resumido a um só rótulo.

O narrador do livro, Ishmael, descreve a obsessão de Ahab, capitão do navio Pequod, por uma baleia branca chamada Moby Dick. Em outra viagem, o cachalote arrancara parte da perna do capitão.

Cores da discórdia

Um dos aspectos mais discutidos de "Moby Dick" é o tratamento da cor branca. Em uma primeira leitura, o branco é descrito como a cor da beleza e da pureza. A cor faz da baleia uma figura fantasmagórica, que pode ser tanto uma ilusão quanto uma página em branco na qual os personagens projetam suas obsessões. Ishmael também associa a cor à realeza e à sabedoria, o que é visto por muitos leitores como uma defesa da superioridade racial.

Mas, em outra passagem, o narrador lembra dos predadores que se escondem atrás de sua brancura, como o urso polar. Neste sentido, a brancura potencializa o terror. O tubarão branco, por exemplo, é mais assustador que outros tubarões, justamente por ser branco.

Por outro lado, ao descrever personagens não-brancos da tripulação, o narrador cai em arquétipos. Os negros, por exemplo, são destacados por seu vigor físico (como o africano Dagoo, que tem quase 2 metros). Felipe Neto citou uma passagem que o incomodou. É o capítulo 93: “Não sorrias se afirmo que esse negrinho era brilhante, pois até o negro tem brilho. Lembrai-vos do lustroso ébano que reveste os gabinetes dos reis.”

É importante notar que os EUA ainda viviam a escravidão na época em que "Moby Dick" foi lançado. Inclusive, um ano antes, o país passou a aplicar a Lei do Escravo Fugitivo, que estabelecia que escravos que fugissem deveriam ser entregues às autoridades. O livro não toma partido contra ou a favor da escravidão, mas as questões raciais estão presentes na narrativa, especialmente pelo personagem Pip, um pequeno grumete negro. Ele cai na água e quase é abandonado por seus companheiros.

Protagonista negro?

Ishmael era um nome comum entre escravos. E a icônica frase de abertura do livro, “Pode me chamar de Ishmael”, fez muita gente interpretar que o narrador seria negro. Mesmo que não seja, o romance é repleto de protagonistas não-brancos, sendo uma das obras mais diversas do seu tempo. Na época, a caça às baleias atraía pessoas do mundo inteiro (o ambiente do baleeiro é visto por alguns estudiosos como um prenúncio da globalização).

As dinâmicas raciais e sociais dentro do navio e a maneira ambígua como o narrador vê Ahab, que começa o livro sendo comparado a um deus e termina mentalmente e fisicamente consumido por seu desejo de vingança, já fez muita gente se perguntar se o livro exalta oprimidos ou se exalta opressores, se é uma exaltação ou uma crítica ao imperialismo. "A trupe toda do navio Pequod é feita de excluídos", escreveu no Twitter Ligia G. Diniz, tradutora da nova edição de "Moby Dick" que sairá este ano pela Zahar. "É esquisito o jeito que ele escreve sobre indígenas e negros? É, mas não seria diferente em 1850".

Vale lembrar que outros livros de Melville também foram acusados de racismo. Por causa de sua ambiguidade em relação à escravidão, sua novela "Benito Cereno" é disputada como racista e antirracista. Outros estudiosos acreditam que a obra, um relato ficcional sobre a revolta em um navio negreiro espanhol, não foca na questão da raça. O chefe da rebelião, Babo, é descrito como um personagem fraco fisicamente, porém muito inteligente - invertendo os estereótipos da época, que costumava representar os negros como pessoas vigorosas mas limitadas intelectualmente.

Ícone do homoerotismo

Voltando a "Moby Dick". O livro de Melville é repleto de passagens homoeróticas e se tornou um ícone da literatura queer. Marinheiros massageiam uns aos outros em uma banheira de óleo. Ishamel divide o mesmo quarto - e a mesma cama - com Queequeg, um canibal tatuado nascido em uma Ilha do Pacífico Sul. Os dois juram uma "amizade para a vida" que, na língua do povo Queequeg, é chamada de "casamento". Este é considerado por muitos como o primeiro "casamento gay" - e interracial - da literatura americana.

"Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para confidências entre amigos do que uma cama", escreve o narrador. "Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o amanhecer. E assim, na lua-de-mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal aconchegante e amoroso".

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