Rafa Kalimann sobre trauma de fita métrica: 'Um namorado já disse que eu estava engordando'

A casinha azul fica quase na esquina de um condomínio de luxo da Barra, Zona Oeste do Rio. Com 600 metros quadrados, quatro suítes, três salas, garagem para quatro carros, piscina e espaço gourmet, o imóvel parece ser grande demais para alguém que mora só. Mas para a apresentadora Rafa Kalimann, de 29 anos, a propriedade chega a ser pequena. “Fui criada com a casa cheia. Foi a maneira que os meus pais encontraram de manter os filhos longe das baladas e saber com quem eles andavam. Em São Paulo, morava em apartamento e sofria por não poder fazer minhas festinhas”, conta.

Bastam cinco minutos de conversa para entender o tamanho da turma que a cerca. Rafa fala manso, é bem-humorada e cria rápido intimidade com o interlocutor. Seus seguidores sacaram isso logo. Hoje, sua rotina é acompanhada por mais de 23 milhões de pessoas no Instagram. Muita gente chegou depois que ela conquistou o segundo lugar no “Big Brother Brasil” 20. Mas Rafa já tinha 3 milhões de fãs antes de entrar no reality. A sua edição fez história por discutir temas importantes, como feminismo, e por ter três mulheres na final: a médica e grande vencedora Thelma Assis, Rafa e a cantora Manu Gavassi.

Rafa não ganhou o prêmio de R$ 1,5 milhão, mas saiu com uma recompensa mais valiosa: um contrato com a TV Globo. Em abril de 2021, estreou o “Casa Kalimann”, no Globoplay. A atração sofreu uma enxurrada de críticas e acabou cancelada dois meses depois. Ela jura que não ficou abalada. “Os comentários atiçaram a curiosidade das pessoas e a audiência até aumentou. Foi um primeiro passo. Tenho outros projetos”, conta ela, contando o dia para a estreia como atriz em “Rensga Hits”, série com temática sertaneja do Globoplay, a partir de julho. A seguir, os melhores trechos da conversa, em que não se esquivou de assunto algum e falou de traumas, paranoias com o corpo, síndrome do pânico e muito mais.

Casa da Kalimann

“Eu não sou de sair muito. Curto mais receber em casa. Uma vez, fiz um pagodinho e vieram uns amigos. O Giovanni Bianco (diretor criativo) me ligou, e eu o chamei. Ele disse que estava com uns amigos e falei que não tinha problema. Ele chegou aqui com uma van! Teve uma hora na festa que a minha mãe me perguntou se não ia apresentar para ela os meus amigos. Respondi que só conhecia bem umas cinco pessoas, que o resto estava conhecendo naquele dia. Eu amo isso, tá?”

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Networking

“A Simaria (irmã de Simone) é minha amiga há 10 anos. Outro dia, me ligou perguntando se podia ficar na minha casa. Quando chegou, quase teve um treco. O Jayme Monjardim (diretor) já morou no imóvel, e elas há haviam gravado um clipe aqui. Olha que loucura? Resolvemos fazer um jantar. E vieram Juliana Paes, Flávia Alessandra, Otaviano Costa, Deborah Secco. Acabei ficando amiga de todo mundo! Graças a esse jantar, fui convidada para ‘Rensga Hits’. Deborah pediu minha ajuda porque a personagem dela tem um sotaque goiano. Ela falou que eu tinha tudo a ver com a série. No dia seguinte, conheci o Alejandro (Claveaux, ator) na casa da Bruna Marquezine. Ele me disse que era de Goiânia e que estava fazendo uma série. Eu disse que sabia qual era. Na hora, também disse que eu tinha que fazer parte. E foi assim a minha estreia como atriz. Começou num rolê aleatório (risos).”

Religião

“O bordão que eu criei, o ‘Aleluia, Arrepiei’, veio de uma sensação que interpreto como a presença de Deus (no BBB, um participante disse que tinha sonhado que o filho nascera e Rafa confirmou, falando a frase). Na verdade, não prego religião alguma. Falo sobre amor, gratidão, esperança que, aliás, é um sentimento que a gente não pode deixar de falar e de desejar. É a base de todas as religiões. E cabe a mim, como influenciadora, falar disso. E não de levantar uma bandeira. Não sou evangélica, as pessoas acham isso porque escuto música gospel. Mas já fui à Igreja Católica e à umbanda. Todo mundo está falando de ayahuasca. Tenho muita curiosidade”.

Quero ser famosa

“O nome Kalimann veio num sonho. Tinha 12 anos e já queria estampar capas de revista, ser reconhecida nos lugares, dar entrevista para o Faustão… Então, não sei se sonhei mesmo ou se inventei acordada (risos). O fato é que eu tinha a língua presa e não conseguia falar a letra “R”. E meu nome é Rafaela Freitas Ferreira de Castro. O booker da agência de modelo não gostou do nome e perguntou se tinha outro sobrenome. Respondi que tinha Carneiro. Ele também não curtiu, claro. E eu disse que tinha um sobrenome do coração, o Kalimann, com dois enes. Ele adorou!”

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Profissão influencer

“Estudo muito o mercado. São nove anos na área. É uma profissão como outra qualquer. Fico atenta ao que o outro posta, se está engajando… Agora mesmo, estamos na onda do metaverso. Nos últimos seis meses, mudei muito o meu perfil. Antes, olhava para o engajamento. Agora, estou preocupada com a minha imagem, em comunicar o que sou hoje, de fato. E, para fazer isso, tenho que esquecer do engajamento. As duas coisas não andam juntas. O começo da transição é difícil. Perde-se muito seguidor.”

Feminismo

“Não tinha virado a chavinha e trazido essa palavra para a minha vida até o ‘BBB’. Lá dentro foi muito natural. Depois, fui estudando. Ser feminista é uma construção, ou melhor, desconstrução diária. A gente se pega tendo comportamento machista. Tipo julgar outra mulher. Até o meu interesse por homens mudou. Um namorado já disse que eu estava engordando e que ele não se relacionava com mulheres gordas. Outro me perguntou qual era problema em ficar com outra mulher, já que eu não estava com ele sempre por causa do trabalho. Como se a traição fosse minha culpa! Ficou mais difícil arrumar namorado. Estou curtindo porque pela primeira vez estou sozinha. Faz um ano que terminei meu último namoro.”

Corpo

“Os comentários sobre o meu corpo foram uma porrada muito grande (os olhos se enchem de lágrimas). Estava em Londres, com os meus irmãos, primeira viagem internacional deles. Postei uma foto no estádio do Chelsea. De repente, um monte de comentário. Escreveram que estava usando drogas, que estava doente, que tinha anorexia… Poxa, estou na fase em que estou mais amando o meu corpo na vida! Acabou com o meu dia. Fui para o hotel chorar. Acho que o corpo não deve ser questionado. E se eu tivesse doente e não quisesse compartilhar?”

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‘Noias com o corpo’

“Com 13 anos, fui para São Paulo trabalhar como modelo. Na agência, tem uma fita métrica para checarem suas medidas todos os dias. Na época, não tinha consciência do trauma que aquilo me causaria, das noias que eu teria com o meu corpo. Nunca cheguei aos 90 centímetros de quadril. Fiz todas as dietas malucas. Tudo para chegar aos 90 de quadril. Então, cresci com a ideia de que não tinha chegado lá, que sempre tivesse algo errado com o meu corpo. A minha mãe também me cobrava muito. Hoje, sei que ela só reproduzia o que a agência falava. Na cabeça dela, estava me ajudando a chegar a esse padrão. Eu não usava calça jeans porque achava que marcava muito meu bumbum e evidenciava o meu quadril. Criei um bloqueio mesmo.”

Terapia

“Fazia dieta por uma semana, não conseguia continuar e parava. Até que fui a uma médica e disse que não aguentava mais. Ela me perguntou por que queria perder peso. Eu não sabia responder. Falei que era porque o meu marido gostava, minha mãe achava que estava acima do peso. Nunca porque eu queria. Ela falou que ia me passar um telefone, era o da psicóloga. Estou com ela há seis anos. Descobri que queria me encaixar dentro de um padrão para agradar os outros. Cortei glúten, carne vermelha, lactose… Não por estética. Para ter mais disposição. Acabei perdendo 10 quilos. Essa sensação de bem-estar vicia muito mais do que chocolate.”

Síndrome do Pânico

“Sou muito controladora. Preciso aprender a delegar as funções. Até por isso resolvi chamar o Canivello (Mario, empresário de artistas como Marieta Severo e Marjorie Estiano) para cuidar da minha carreira. Antes, eu que fazia tudo. E desenvolvi síndrome do pânico. A minha primeira crise foi num voo, há quatro anos. Na hora, não saquei o que era. Na terapia, fui alertada. Quando estou muito controladora, ela fala para dar atenção à minha criança interior. Ter descoberto a doença foi fundamental, acende um alerta. O último foi há um ano, pós ‘Casa Kalimann’. Não foi por causa das críticas. Foi um conjunto: exaustão, medo da pandemia… Guardo as emoções. Uma hora, transborda.”

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