Rafael Alves, apontado como operador financeiro de Crivella, é visto como perigoso e com contatos para 'encomendar mortes de inimigos', diz MP

Felipe Grinberg
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RIO — Figura central na investigação do Ministério Público sobre o suposto "QG da Propina" dentro da prefeitura do Rio, o empresário Rafael Alves é apontado pelos investigadores como uma pessoa "como uma pessoa extremamente perigosa e violenta, além de possuidora de contatos e recursos financeiros suficientes para “encomendar” a morte de qualquer um que enxergue como inimigo".

Os promotores apontam na denúncia que todos os colaboradores ouvidos pelo õrgão disseram ter "profundo temor contra possíveis replesálias que possam ser orquestradas pela organização, em especial por Rafael Alves".

O empresário é ex-marido de Shanna Garcia, filha do bicheiro Maninho, morto em 2004. Em 2019, Shanna sofreu um atentado e após isso, os dois se reaproximaram. A relação de Alves com a empresária ficou evidente quando, em março, durante a operação de busca e apreensão em seu apartamento, Agentes da Polícia Civil e do Ministério Público Estadual (MP-RJ) apreenderam nesta terça-feira joias de Shanna Garcia na casa de Rafael Alves.

A ligação de Rafael Alves com a contravenção e o jogo do bicho é um dos principais temores dos colaboradores ouvidos pelo Ministério Público.

"Seguindo nessa trilha, não se pode olvidar que Rafael Alves é uma figura bastante temida, não apenas pelos colaboradores que firmaram acordos de delação premiada com o Ministério Público, mas até mesmo por alguns de seus comparsas que, ouvidos em sede policial, externaram grande temor e preocupação com a possível prática de atos violentos caso Rafael Alves se sentisse contrariado", diz trecho da deúncia.

É justamente sua ligação com o jogo do bicho do Rio que levou Rafael Alves a pedir para não ser transferido para uma prisão comum ou para o Batalhão Prisional da Policia Militar, conforme revelou o colunista Ancelmo Gois. Durante sua audiência de custódia nesta terça-feira, o empresário disse que “seria assassinado em pouco tempo, por ter sido casado com Shanna Harrouche Garcia”.

Em sua delação premiada, o também empresário Ricardo Rodrigues contou aos investigadores que foi apresentado a Rafael Alves por Arthur Soares, o Rei Arthur. Segundo o depoimento, Soares apresentou Rafael Alves como um homem de enorme proximidade e intimidade de Crivella e que era uma "pessoa de palavra".

A relação de Rafael Alves com a contravenção foi motivo de elogios pelo Rei Arthur:

"(Arthur Soares) Destacou ainda que o denunciado Rafael Alves era pessoa “de palavra”, e que era firme no cumprimento dos compromissos assumidos, pois tinha grande reconhecimento dentro e fora do meio político como genro e sócio do falecido contraventor Waldomiro Garcia, o Maninho. Dito isso, garantiu que ninguém se arriscaria a tê-lo cobrando acordos com seu histórico violento", diz trecho do documento.

Em trecho da denúncia enviada pelo Ministério Público do Rio (MPRJ) à Justiça, os promotores fizeram questão de destacar mais de 20 tópicos que, segundo a investigação, justificam a participação do prefeito do Rio — agora afastado e preso — no esquema do "QG da Propina". Crivella responderá em prisão domiciliar, com tornozeleira, por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva. Os pontos destacados falam, principalmente, da "intimidade" entre ele e o empresário Rafael Alves, também preso, e a grande influência dele no município do Rio, que começou com a nomeação de seu irmão, Marcelo Alves, à presidência da Riotur. Em diálogos interceptados, o MP destaca a "complacência" de Crivella mesmo com mensagens enérgicas enviadas por Alves.

Rafael Alves: "Bom dia, prefeito. Sei que está em momentos de decisões importantes, mas eu preciso ser ouvido de hoje pelo senhor de forma clara e objetiva. Estou preocupado demais com algumas coisas. Então peço que o senhor esqueça o amigo Rafael nesse momento e escute com o (...)" (o diálogo é cortado)

Crivella: "Claro que escuto meu amigo. Lembra que lá atrás vc me disse que queria que seu irmão fosse presidente da Riotur. Foi a primeira indicação que fiz. Antes de qualquer secretário. Na ocasião foi tudo que vc me pediu. E atendi. Mas vou lhe ouvir com maior carinho".