Rainha de bateria da Viradouro, Erika Januza compara a trajetória da escola a sua: 'Tenho uma história de renascimento forte'

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Nascida e criada em Contagem, em Minas Gerais, Erika Januza deu seus primeiros passos no samba imitando Valéria Valenssa, a eterna Globeleza, toda vez que a ex-modelo surgia na TV. A família da atriz, de 36 anos, nunca foi da dança ou das artes, mas na pequena Erika surgiu um amor pelo carnaval que nem ela mesmo sabe explicar. Antes de virar artista, a mineira passava a data sempre da mesma forma: acordada de madrugada para assistir aos desfiles das escolas de samba do Rio. Anos depois, ela, enfim, vai realizar um grande sonho nesta sexta-feira. Após ser coroada no Dia da Consciência Negra, a musa estreia para valer como rainha de bateria da Viradouro, escola de samba campeã do último carnaval.

— Era algo que realmente estava além dos meus sonhos. Sempre tive um amor muito grande pelo carnaval, sei lá de onde vem. Quem é de fora do Rio não sabe muito como tudo acontece e, para mim, era muito mágico. Eu achava que rainha de bateria era coisa de gente muito importante! Em Minas, não temos essa tradição, nunca tive a experiencia de curtir o carnaval com minha família. Meu evento era assistir ao desfile pela TV. Eu acompanhava a apuração, olhando as notas como se tivesse envolvimento total com alguma escola (risos).

A mineira aceitou uma missão difícil: substituir Raissa Machado, que reinou por sete anos na escola de Niterói. Ela confessa que teve medo, mas que chegou de mansinho para também conquistar um lugar no coração dos integrantes da Viradouro.

— Desde o início, eu tinha muito receio porque a Viradouro tinha a mesma rainha há muitos anos, tão querida e amada. Eu não a conheci. Sou artista, não sou da comunidade, sambo do meu jeito, me entrego com o que tenho. Não adianta eu tentar fazer igual a alguém porque nunca vou conseguir. Minha vivência é diferente, meu corpo é diferente. Não é que eu ache que estou pronta. Recebi um presente e precisei me preparar. Sou magrinha, pequenininha, mas cheguei e me dediquei ao máximo porque realmente amo carnaval. É um sonho para mim, meu respeito é muito grande e acho que isso transpareceu — diz ela, que completa: — Não estou ali querendo aparecer, só esperando o dia do desfile para sair com minha fantasia. Se tem ensaio e eu não estou trabalhando, eu vou. Realmente quis conhecer as pessoas, que viraram minhas amigas. Fui muito bem recebida, não tenho palavras. Isso me dá ainda mais vontade de me entregar. Não estou no projeto Erika. Estou no projeto Viradouro.

Empolgada com a missão, Januza já vem mostrando a que veio. Figurinha frequente nos encontros da escola, ela vem arrebentando e arrebatando elogios de especialistas em carnaval, como Milton Cunha, dos integrantes da escola e de quem presenciou os shows que ela tem dado à frente dos ritmistas. A atriz afirma que a afinidade com o time da agremiação tem sido o pilar para não se render à ansiedade antes do desfile.

— Na hora, sei que vai ser uma choradeira danada! Mas agora o que tem me ajudado é o fato de ter ensaiado muito, ido tantas vezes à escola. Estar com aquelas pessoas por tanto tempo faz toda a diferença. Jamais iria simplesmente chegar um pouco antes e querer me envolver de repente. Se eu deixasse para ir só agora, ia estar achando tudo muito estranho, talvez estaria ansiosa e nervosa. Mas estou sentindo que treinamos, ensaiamos, sabemos o que vamos fazer. Estou com uma sensação de time muito forte. Eu só sou uma gota naquele oceano.

O que é muito ressaltado também é a representatividade que Erika carrega no posto. A atriz sabe bem o quanto muitas meninas a veem como exemplo, e muitas a têm abordado.

— Não sei qual é exatamente o estereótipo de rainha de bateria, mas eu penso logo numa mulher maravilhosa, exuberante, com corpão. Não sei se me encaixo nisso. Quando eu cheguei à comunidade, não sabia como iria ser, muitas garotas chegaram perto de mim para dizer que estavam felizes de me ter lá porque me olhavam e sentiam que era possível. Fui coroada rainha de bateria no Dia da Consciência Negra. Isso marcou que, sim, as mulheres negras podem ser rainhas de suas vidas e de bateria também. Somos descendentes de reis e rainhas. Vim de Minas sem nada e ainda não tenho muita coisa, mas quero mostrar que é possível. Esse discurso é muito forte. Podemos tudo se corrermos atrás. E eu corro muito! Durmo bem pouco (risos).

Carisma, simpatia, paixão pelo carnaval, integração com a comunidade e muito samba no pé Erika já tem. Ela conta o que mais tem feito para fazer bonito na Marquês de Sapucaí.

— Minha preparação física está sendo os ensaios. Também vou à academia, mas acho que o principal é conseguir atravessar a Avenida com fôlego e me sentindo bem. Chegar no meio do desfile exausta, é horrível e já passei por isso. Em relação ao corpo, não vou conseguir fazer nenhum milagre. Perdi dez quilos para fazer “Verdades secretas”. Depois, comecei a gravar “Arcanjo renegado”, com cenas pesadíssimas, e só emagreci mais. Mas corpo bom é o corpo que tenho! Não serei a rainha gostosona. Vou ser a empolgada, que samba, se entrega e está junto.

Assim como muitas pessoas, Erika não dispensa rituais para levar boas energias para o Sambódromo. E entrega qual é o seu:

— Sou muito da oração. Rezo antes, durante e depois do desfile. Deus sempre esteve à frente das minhas coisas e neste momento não vai ser diferente. Vou pedir para dar tudo certo e depois agradecer, porque vai dar! — diz ela, que dá dois pequenos spoilers sobre sua fantasia: — Por que isso é uma coisa tão forte no imaginário das pessoas? Todo mundo me pergunta o mesmo (risos)! Minha roupa é uma joia. É pesada e não vou vir muito pelada. Estarei comportada!

Este ano, a atual escola campeã vem com o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, sobre o sentimento dos cariocas na folia de 1919, que marcou o fim da pandemia da gripe espanhola. O samba tem uma proposta diferente: é uma carta de um pierrô para uma colombina. Além de combinar com o momento pandêmico atual, a mensagem que a escola traz dá um “match” perfeito com o ensaio de fotos destas páginas, que fará parte da exposição “Avant Garde Saravá 1922-2022 — O erudito, o popular e a arte do encontro” da fotógrafa Renata Xavier, que acontecerá no segundo semestre de 2022 no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, no Campo de São Bento. Afinal aí está o registro do encontro de uma rainha de bateria (nada mais popular) com o Teatro Municipal de Niterói (nada mais erudito). Deslumbrante nas imagens, Erika afirma que os foliões se identificarão com a história que a Viradouro vai contar na Avenida após dois anos sem carnaval.

— Esse retorno vai muito além da celebração. Quando eu estava no ensaio técnico, lembrei o quanto eu tinha medo de não conseguir mais ver aquilo porque estava tudo tao incerto... Vai ser mesmo um momento de botar para fora a alegria, a satisfação de voltar. Todo aquele trabalho de dois anos guardado dentro do barracão. Vai ser o carnaval dos carnavais como foi em 1919, depois da gripe espanhola. Está todo mundo cansado, com saudade e querendo ser feliz de novo. Acertamos muito nesse enredo.

No ensaio técnico na Sapucaí, Erika foi com uma fantasia de fênix, simbolizando tanto a trajetória da escola — que já passou por altos e baixos, caindo e depois reconquistando seu lugar no Grupo Especial — quanto a sua própria.

— Tenho uma história de renascimento forte. Há seis anos, quando fiz “Sol nascente”, estava indo embora do Rio porque não tinha mais como me manter. Eu já tinha sido protagonista, feito novela das nove. Isso não quer dizer nada. A falta de oportunidade, às vezes, não te permite seguir do jeito que você gostaria. Vai dando tudo tão errado que você deixa de acreditar em si. Se isso acontece, acabou... Não tinha dinheiro, mas pedi ajuda para fazer o teste. Foi um movimento para eu renascer, sair do negativismo, um fundo do poço em que estava entrando, para voltar a acreditar em mim por dois dias e conseguir passar — relembra ela, que afirma: — Quem vê close não vê corre. Só eu sei as noites que já passei chorando. Por isso que quando alguém fala para mim “Vamos gravar meia-noite, 5h da manhã”, eu topo. Sem tempo ruim.

Forte e persistente, Erika continuou lutando por seus sonhos e chegou até aqui. Agora, o que não falta para ela é trabalho. Depois da Sapucaí, não vai ter descanso. Na verdade, ela só conseguiu uma folga na agenda corrida para desfilar. No momento, a mineira está gravando “A magia de Aruna”, série brasileira da Disney+, que ainda conta com Gio Ewbank, Cleo e Suzana Pires.

— Agora vou ser uma bruxa da Disney, fiquei muito feliz. Quem não ama esse universo, inclusive suas bruxas? É uma série incrível, lúdica, realmente encantadora. Vai trazer uma mensagem forte de aceitação, vamos discutir muitas questões importantes. Este ano tem sido de trabalho árduo. Logo que acabarem as gravações desta série, vem outro projeto, mas ainda não posso falar. E tem a segunda temporada de “Arcanjo renegado”, que está incrível, ainda mais quente e com mais ação do que a primeira. Acho que todo mundo vai gostar e ficar louco. Sem falar na terceira temporada. A vida profissional está do jeito que eu gosto: movimentada!

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