Rainha de bateria oito vezes campeã, Raissa de Oliveira comemora 20 anos na Beija-Flor: 'Vou atrás do Guinness Book'

·5 min de leitura

O morro foi feito de samba. Desde muito pequena, Raissa de Oliveira tem essa certeza. Ali pelos 4 anos, a garotinha franzina tinha um passatempo todo carnaval. Acordava a hora que fosse para assistir pela televisão ao desfile da Beija-Flor de Nilópolis, escola da Baixada Fuminense, onde nasceu e foi criada. Pegava um salto da mãe e empreendia uma desajeitada coreografia, tentando imitar as passistas que passavam em segundos na tela da TV, no meio daquele povo. Dormia feliz e sonhava com o dia em que ela própria poderia estar naquela Avenida.

Quando a primeira escola iniciar seu desfile na próxima sexta-feira, 22, Raissa vai sair de casa, em Nilópolis, e se dirigir à Marquês de Sapucaí, com muitas horas de antecedência de sua entrada na concentração. Completando um ciclo de 20 anos em que pratica o mesmo ritual, que nada tem de supersticioso.

"Eu tenho pavor de pensar que eu posso atrasar. Pavor! Não tenho medo de cair, inclusive já aconteceu algumas vezes e fui até aplaudida, não tenho medo de roupa rasgar, salto quebrar. Agora de atrasar... Meu Deus. Então, prefiro chegar cedinho, ficar lá até a hora de me arrumar e não prejudicar minha escola. Está dando certo até hoje", justifica ela.

Contra fatos não há argumentos. Raissa está à frente da bateria da Beija-Flor há duas décadas. Desde os 12 anos, em seu primeiro desfile em 2003, já saindo dali campeã. Uma espécie de talismã para a Azul e Branco, que nunca a destronou. O que rendeu a Raissa oito títulos de campeã do carnaval carioca e 20 anos ostentando a coroa mais cobiçada dentro de uma escola de samba: "Acho que vou atrás do Guinness Book ( o Livro dos Recordes)!".

Polida, criada num meio onde uma palavra mal-colocada compromete a harmonia e incentiva o descompasso, Raissa não se mete em polêmica. Sabe que muitas beldades dariam até o que não têm para ocupar o seu lugar. Por enquanto, no entanto, ela é "imexível".

"Tudo na vida tem um ciclo e respeito muito isso. Não penso em aposentadoria, em parar. Mas estou a serviço da Família Beija-Flor e fico no posto até o dia que quiserem que eu fique. E mesmo não estando mais rainha, eu estarei na escola. Porque estamos falando de amor. Não de cargo", observa.

Mesmo não atravessando o samba, ela comemora o fato de outras passistas de comunidades cariocas estarem tomando (ou retomando) seus lugares de direito.

"A internet tem algo que é muito cruel quando a usam só pra te criticar ou jogar hate. Mas isso aqui (mostra o celular) virou uma arma poderosa pra gente mostrar os talentos que existem e estavam escondidos. Um vídeo que viraliza e exibe uma passista brilhando junto à sua comunidade, é a nosa forma de dizer que esse lugar é nosso", analisa ela, ao lembrar de nomes como Mayara Lima, da Tuiuti, e Belinha, da Viradouro, que às portas do carnaval se tornaram conhecidas de um grande público após viralizarem nas redes sociais:

"Eu não estou dizendo que não exista espaço para quem não nasceu numa comunidade. Sabrina Sato, por exemplo, senta no chão pra comer sanduíche com o ritmista da bateria que ela representa. O componente precisa se sentir representado. Ele precisa olhar para uma rainha ou musa e pensar: 'essa mulher me representa. A admiro por isso, por aquilo, por estar com a gente'".

Ela mesmo conta que, quando foi parar na frente da bateria, não fazia ideia da importância daquele posto.

"Só mais tarde vim a entender como aquilo era grandão. Pensei, 'então, isso é bem sério!'. Na minha época, quando comecei, nem existia essa palavra representatividade. Ninguém falava sobre isso. Mas o quanto já não era importante para outras meninas como eu, que também sambavam em frente a TV de madrugada, acreditarem que o sonho era possível? Então, meu máximo respeito por esse lugar. que me foi dado em confiança pelo Tio Laila e Tio Anísio", avalia Raissa, ao se referir ao falecido diretor de carnaval da escola e também ao patrono, Anísio Abraão David.

A Beija-Flor não deu a Raissa apenas projeção, fama e a realização de um sonho de menina. A agremiação cuidou do futuro da moça enquanto ela sambava. "Dizem que samba não dá em nada? Olha aí. Eu estudei, me graduei em Jornalismo, pude dar uma vida melhor para a minha família, e tudo graças ao samba. Na Beija-Flor sempre quiseram saber dos meus estudos, me cobravam. Sorte que sempre fui boa aluna", garante ela, que agora quer fazer pós-graduação após terminar um casamento de nove anos.

Mãe de uma menina de pouco mais de 2, Raissa ainda não identificou nela o ziriguidum que tinha quando decidiu ser passista. Mas já abre um sorriso para contar as peripécias de Rhayalla ao ver a mãe, ao vivo, em frente à bateria.

"Nunca tinha levado, porque os ensaios começam muito tarde. Mas no último, na rua, ela foi pela primeira vez. Já tinha me visto em vídeo, mas não ligava tanto. Quando me viu ali na frente daquela gente toda, com roupa brilhosa, ela ficou com os olhos vidrados. Parecia que eu era uma princesa da Disney", diverte-se a rainha, que não planeja manter seu cetro na mesma linhagem:

"Não posso planejar a vida da minha filha. Claro que se ela quiser e se interessar pelo samba, vai buscar o caminho dela e estarei aqui para ajudar. Jamais impor. Vai que ela gosta de rock?! Se optar por seguir meus passos, sei que será muito feliz como sou e fui nestes 20 anos. Não trocaria nenhum destes carnavais por nada. Não consigo apontar um preferido. Quando me despedir, todos estarão na minha memória". À passista mais nova, apenas um pedido: não deixe o samba morrer. Não deixe o samba acabar.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos