De Ramon a Diniz, Brasileirão testemunha oscilação de técnicos e favoritismos passageiros

Bruno Marinho
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Arte

Quando viralizou o vídeo do vascaíno festejando aos prantos a liderança do Campeonato Brasileiro nas primeiras rodadas, houve quem fizesse chacota. Mas talvez o torcedor tenha comemorado tão cedo por ter tido a premonição de que aquilo seria passageiro. E que também se tornaria uma marca da competição: a fugacidade dos favoritismos, dos trabalhos elogiáveis.

O ramonismo foi o primeiro a frustrar torcida e analistas, mas não o único: Fernando Diniz, demitido pelo São Paulo segunda-feira, não apenas liderou o Brasileiro, como criou a forte sensação de que acabaria com o jejum de títulos nacionais do São Paulo — o último foi em 2008. Mas a queda de aproveitamento nos últimos jogos foi tão brusca que ele não conseguiu se manter no cargo.

Oscilações são normais, mas a distância entre o pico e o pior momento está mais evidente do que em outras edições do Brasileiro. Para o técnico Cristóvão Borges, isso é efeito da pandemia da Covid-19 na competição.

— As oscilações são compatíveis com esse ano que estamos tendo. A pandemia quebra a rotina, o ritmo, os treinamentos. Eu costumo dizer que esse é um campeonato de adaptações. Quem conseguiu se cuidar melhor, no sentido de ter menos casos da doença, e se adaptar às condições, foi melhor.

Antes de Fernando Diniz ser “o melhor treinador de todos os tempos da última semana”, o Atlético-MG de Jorge Sampaoli era o time a ser batido, com grande desempenho durante o primeiro turno. As contratações continuaram chegando, o elenco do Galo foi encorpado ao longo do Brasileiro, mas os resultados não foram os mesmos.

Ainda que continue na briga pelo título, falta ao time de Belo Horizonte a arrancada no momento certo. Quem parece que conseguiu engrenar na hora exata foi o Internacional. A equipe mantinha regularidade com Eduardo Coudet e viu o pelotão da frente se afastar no começo do trabalho de Abel Braga. Depois, vieram nove vitórias seguidas, o recorde da história do Brasileirão, e a condição de favorito ao título.

— Não tem explicação para o que aconteceu com o São Paulo. O que eu sei é que o time para ser campeão tem de arrancar bem e no momento certo. O Flamengo vem crescendo também, mas a regularidade maior é do Internacional. Ela é fundamental. Entre os favoritos, ninguém foi regular como o Internacional — disse o ex-zagueiro e agora comentarista Ricardo Rocha.

‘Sem regra mágica’

O caso do time rubro-negro é outro exemplo deste Brasileiro peculiar, em que uma equipe, mesmo vivendo o céu e o inferno, ainda pode se manter na briga pela primeira colocação. O Flamengo — mesmo que o aproveitamento com Domènec Torrent o deixasse entre os primeiros colocados —, decidiu demitir o treinador depois de duas goleadas e atuações inconstantes. Veio o técnico Rogério Ceni, que conseguiu, num espaço de um turno, começar bem, balançar no cargo e agora ser o principal adversário do Colorado pela taça.

A ciranda pegou até quem nunca chegou a ocupar as primeiras colocações no Campeonato Brasileiro, caso do Corinthians. Vagner Mancini assumiu o time e, entre a 25ª e a 28ª rodada, conseguiu 12 pontos dos 12 possíveis, dando pistas de que entraria de vez na briga por uma vaga na Libertadores. Os resultados seguintes jogaram um balde de água fria nas expectativas. Nesta montanha russa emocional, a competição chega cada vez mais perto do fim.

— Em um campeonato de 38 rodadas e quase oito meses de duração, naturalmente, já é difícil a manutenção de um ritmo durante toda a sua realização — ressaltou o técnico Zé Ricardo: — É de se esperar que aconteçam oscilações, e o maior desafio de um treinador e de um clube é fazer com que a equipe oscile menos e por um menor tempo possível. Logicamente que um bom planejamento, estrutura, logística e condições de trabalho ajudam a manter essa performance, sem que isso seja uma regra mágica.

Com praticamente todos os times a cinco jogos do fim, resta saber se ainda há tempo para alguma arrancada nova neste Brasileiro. Do ramonismo ao dinizismo e suas respectivas quedas, no fim das contas, o que importa mesmo é ser “o melhor técnico de todos os tempos” ao fim de 38 rodadas.