"Ranço" contra Luciano explicita porque precisamos discutir racismo e privilégio no BBB

·5 min de leitura
Luciano, do BBB22, no
Luciano, do BBB22, no "Mais Você" (Reprodução Globoplay)

Luciano do "BBB22", primeiro eliminado do reality, conversou com Ana Maria Braga no tradicional Café com o Eliminado e deu mais nuances às suas declarações sobre fama e sucesso. O brother causou ranço entre os colegas de confinamento e o público ao falar que sempre desejou ser extremamente famoso e rico, e que seu sonho era ser "nível Beyoncé".

Calmo e bem humorado, Luciano passou segurança ao explicar que nunca viu a fama como algo problemático, e que sempre quis chegar ao topo por meio de seu trabalho. "Nunca vi de uma forma pejorativa, pretensiosa. Minha mãe falava isso, que pra ela eu já era o famosinho dela, então eu segui isso. Quando eu pergunto pras pessoas o que elas querem da vida, elas dificilmente sabem. Mas desde os 9 anos eu sabia que queria ser muito rico e muito famoso. Daí fui expôr isso e virei meme lá dentro e aqui fora. Estou me divertindo horrores com isso, mas realmente não vejo problema", explicou o brother.

Questionado por Ana Maria sobre os motivos que levaram os colegas a se irritarem com suas declarações, Luciano levantou a questão do preconceito dentro da casa. "Acho que incomodou não pela questão da fama, e sim pelo fato de eu ter certeza do que eu quero. Quando eu disse isso, eu falava olhando no fundo do olho das pessoas. Eu vou ser muito, muito famoso, e daí eu dizia isso e assustava. Eu sou uma pessoa muito bem resolvida com isso, e daí assusta. Eu afastei gente com isso, mas também aproximei. Nas minhas redes sociais eu já inspirei muita gente", completou.

Luciano, do
Luciano, do "BBB22", toma café com Ana Maria Braga (Reprodução Globoplay)

Vale lembrar que Luciano não é rico, e que o sonho de conseguir estabilidade financeira e reconhecimento em um Brasil de profunda desigualdade social e racial faz parte do objetivo de grande parte dos brasileiros. Em papo com a repórter Barbara Saryne, Fabíola, namorada de Luciano, contou que o dançarino sempre teve muita garra e passou por muitos problemas financeiros enquanto tentava realizar seus sonhos. "Em torno de 4/5 anos, ele falou para a mãe que queria muito fazer balé clássico. Sua mãe não sabe até hoje de onde ele tirou essa referência, mas apesar de todas as dificuldades, como não ter dinheiro e o preconceito por ser menino, ele conseguiu aulas de balé em uma escola pública. A mãe não tinha dinheiro para a passagem e o Luciano começou a lavar as roupas do projeto de dança em troca disso".

O "ranço" tão rápido e violento contra Luciano também passa pela questão do racismo: sisters brancas como Naiara Azevedo e Eslovênia, por exemplo, já tiveram falas problemáticas e até transfóbicas dentro da casa, e não foram canceladas com a mesma virulência de Luciano, que não ofendeu ou prejudicou ninguém no confinamento. Fora do reality, Luciano trabalha também como influenciador digital, e em seu canal no TikTok já viralizou com mais de 15 vídeos nos quais fala sobre expressões racistas que devemos evitar e outros conteúdos importantes.

Também vale lembrar que viver de cultura no Brasil é uma guerra contra as probabilidades: com o início do governo de Jair Messias Bolsonaro, o MinC (Ministério da Cultura) foi extinto em 2019 e seus órgãos foram distribuídos para outros ministérios. Os gastos com a cultura diminuíram consideravelmente, com lentidão em mecanismos essenciais de fomento como a Lei Rouanet e editais da Ancine, por exemplo. Nesse cenário, é totalmente compreensível que Luciano, artista, esteja desesperado em busca de melhores condições de trabalho.

O sonho de Luciano de conseguir sucesso financeiro para si e sua família reflete a profunda desigualdade racial que perpassa todas as questões estruturais no Brasil, especialmente quando o assunto é emprego e mercado de trabalho. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pessoas pretas são a maioria entre os desempregados no país no quarto trimestre de 2020, período que compreende os meses de outubro a dezembro. Com o avanço da pandemia e da crise econômica no Brasil, o abismo racial no país só aumentou.

Sobre racismo, também vale lembrar a polêmica que acompanhou a campanha de Beyoncé e Jay-Z para a marca Tiffany, na qual a artista usou uma pedra preciosa notoriamente ligada à escravidão e explorações de terras africanas por colonizadores ocidentais. Embora a discussão sobre a origem da pedra e do desconhecimento de Beyoncé sobre o assunto seja válida, os ataques de ódio recebidos pela cantora resumem outra questão: o incômodo que a branquitude sente diante de uma mulher preta poderosa ostentando jóias.

No fim da entrevista no "Mais Você", Ana Maria Braga mostrou alguns trechos dos vídeos gravados por Luciano em seu canal, e elogiou: "Acho absolutamente justo você focar no seu sucesso. Óbvio que ele não vai vir do nada e não adianta desejar só ele, mas com certeza o sucesso vai te encontrar no seu trabalho. Você merece".

Para quem assiste ao reality e acredita na capacidade do formato de problematizar questões da sociedade na qual está inserido, vale o questionamento: por quê o sonho de Luciano de melhorar de vida incomoda tanto, independentemente da linguagem usada pelo brother na hora de expressá-lo? E de que forma reproduzimos questões de racismo estrutural ao repercutir mais a fala de Luciano do que falas de fato problemáticas dentro do BBB22?

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos