Ranço de Jove mostra masculinidade tóxica e preconceitos enraizados no Brasil

Jove é muito criticado nas redes sociais (Foto: Reprodução/Globo)
Jove é muito criticado nas redes sociais (Foto: Reprodução/Globo)

Joventino, personagem de Jesuíta Barbosa em "Pantanal", tem recebido muitas críticas desde o início da novela. A maioria das observações são válidas, algumas até já foram apontadas pelo Yahoo, mas se colocarmos a mão na consciência perceberemos que nem tudo que Jove faz é errado e merece ser questionado. O filho de Zé Leôncio (Marcos Palmeira) sofre preconceitos e a repercussão na internet só escancara o quanto a masculinidade tóxica afeta homens e mulheres.

Criado longe do pai, Jove chegou no Pantanal sem conhecer nada da rotina de um peão. Ainda assim, ele foi o único homem capaz de estabelecer um diálogo de respeito com Juma (Alanis Guillen) e conquistar sua confiança. Visto como "frouxo", ele também foi o único homem que insistiu para Muda (Bella Campos) denunciar Levi (Leandro Lima) após a tentativa de estupro. Pensando bem, Joventino não merece todo o hate que recebe nas redes sociais.

É só voltar no tempo...

No início da segunda fase da novela, Jove virou piada para os outros peões da trama por não ser o "machão" que seu pai esperava. Tenório, interpretado por Murilo Benício, chegou a dizer que o jovem "podia não ser gay, mas levava jeito de mulher". O que para muitos soou como brincadeira tem nome: homofobia. E vale lembrar que é crime no Brasil desde 2019.

O perfil conciliador, o desejo de resolver os problemas por meio do diálogo, o "respeito pelas mulheres" e a facilidade para expor sentimentos (chorando ou verbalizando) são algumas das características presentes no personagem de Jesuíta Barbosa, porém citadas de forma negativa tanto na ficção quanto nos comentários do público que repercute os episódios de "Pantanal" na internet.

Em defesa de Jove, Jesuíta Barbosa afirmou ao Yahoo que o personagem ainda vai amadurecer com o desenvolvimento da história. "Fui ver o Twitter e saí, fui apedrejado", disse ele, que acredita que o público não está com paciência para acompanhar a evolução do rapaz. "Tem uma coisa muito reativa. As pessoas assistem e já dizem o que é. Essa obra é tipo uma saga. Precisa de um tempo para entender o que acontece. O personagem vai se desenvolvendo", justificou. 

O que explica essa reação do público?

Crescemos acreditando que chorar, além de "não ser coisa de homem", é demonstrar fraqueza e fragilidade. Esse tipo de pensamento já não fazia sentido no passado e não deve seguir guiando as discussões em pleno 2022, com tantas informações disponíveis. Para especialistas, inclusive, chorar pode ser uma questão de comunicação e até mesmo de sobrevivência.

No "BBB 22", por exemplo, a amizade de Paulo André, Douglas Silva e Pedro Scooby serviu para provar que homem também é e pode ser sensível. Os longos desabafos, com direito a choro e declarações, deixaram os participantes mais amáveis e queridos. Ter liberdade para demonstrar o que sente sem ser julgado é saudável e faz com que todo mundo saia ganhando.

O machismo estrutural é o responsável por nos deixar surpresos e com "ranço" ao ouvir homens falando sobre suas emoções ainda que não entendamos a razão. Independentemente do gênero, todos temos sentimentos, carências, dores, fragilidades. Nada disso define sexualidade.

No caso de Joventino, especificamente, a novela deixa claro os motivos pelos quais o personagem é tão complexo e sofrido. Ele cresceu com uma mãe descompensada, que o fez acreditar que o pai estava morto. Avós que só pensavam em dinheiro. Uma tia "fora da casinha", que o fez imaginar o pai como um verdadeiro herói. Esse combo fez com que ele, ao descobrir toda a verdade e encontrar Zé Leôncio, ficasse frustrado e entrasse em parafuso.

Novelas sempre valorizaram os "machões"

Talvez, o comportamento de Jove cause ainda mais estranhamento para o público por não ser muito comum na teledramaturgia. A maioria das novelas apresenta protagonistas machistas, frios, padrões, sem o famoso "mimimi" (expressão muito utilizada na web).

Se pesquisarmos novelas que fizeram muito sucesso concluiremos que homens como Joventino dificilmente são os galãs das tramas. Em "Avenida Brasil", um dos maiores sucessos da Globo, o personagem de Cauã Reymond era extremamente machista. Ele chegou a admitir isso em uma cena com atriz Débora Falabella.

Cauã Reymond em
Cauã Reymond em "Avenida Brasil" (Foto: João Miguel Júnior/Globo)

"Laços de Família" é outra trama que fez história e marcou bons índices de audiência, mas normalizou assédio e machismo. O público chegou a se incomodar quando o folhetim foi reprisado em 2020.

Na trama em questão, Danilo (Alexandre Borges) dava em cima da empregada descaradamente. O personagem de José Mayer repetia várias vezes que as mulheres precisavam ser "domadas".

José Mayer é um dos maiores galãs da Globo (Foto: Divulgação/Globo)
José Mayer é um dos maiores galãs da Globo (Foto: Divulgação/Globo)

Por falar em José Mayer, a carreira do ator foi toda construída em cima de personagens problemáticos e, adivinha só, machistas! Considerado um dos maiores galãs da Globo, o ator saiu de cena após ser acusado de assédio por uma figurinista da emissora em 2017.

"Por Amor", um clássico da TV brasileira, é mais um exemplo de novela com altas doses de machismo praticadas pelo galã . Marcelo (Fábio Assunção) era autoritário, mandava na esposa e vivia em pé de guerra com Eduarda (Gabriela Duarte), uma das mocinhas mais detestadas de todos os tempos.

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