Rapaz que morreu após esperar 11 dias por transferência perdeu a visão de um olho aguardando tratamento

Gabriel Morais
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Valdeci foi enterrado nesta quarta-feira no Memorial do Carmo, no Caju

RIO — Maria Vitória, de dois anos, não pôde ficar esta quarta-feira em sua casa. A menina teve que passar o dia na casa da avó materna, em Madureira, enquanto seu pai, o mototaxista Valdeci Pinheiro Neto, de 21 anos, era enterrado no Memorial do Carmo, no bairro Caju, na Zona Central do Rio de Janeiro. Valdeci deu entrada no Hospital Salgado Filho, no Méier, no dia 1º de novembro. Ele tinha tumores de face, reto (intestino) e rim, só que a unidade não oferece tratamento contra a doença. A família conseguiu uma liminar na justiça obrigando sua transferência no dia 6, que só foi cumprida no último domingo. Mas era tarde. Ele morreu na manhã desta terça-feira.

— Todo dia era uma agonia. Cada dia tinha uma nova debilidade, e a gente sem poder fazer nada. Fomos na secretaria de Saúde e todo mundo dizia que tinha que aguardar. Ele começou a ter água no pulmão, ficamos desesperados — contou Danuza Alves, prima de Valdeci. — Ele era uma pessoa brincalhona, sempre divertida. Zoava todo mundo, brincava bastante. Era um menino grande.

Familiares, amigos e colegas de trabalho se reuniram nesta quarta-feira para o enterro do mototaxista. Muitos estavam emocionados, e alguns, revoltados. Valdeci perdeu a visão de um dos olhos na primeira semana que passou na unidade, enquanto aguardava o tratamento. E, apesar da decisão judicial, que demandava a transferência para um hospital público ou um particular — com os custos pagos pela prefeitura ou pelo governo estadual —, Valdeci só foi transferido para o Graffée e Guinle quatro dias depois. No dia anterior à transferência, parentes e colegas fizeram uma manifestação pacífica em frente ao Hospital Salgado Filho.

— O pessoal do hospital dizia que ele não necessitava de acompanhantes, só que os próprios pacientes do lado diziam que ele não podia ficar sozinho. Eles que ajudaram o Valdeci a comer. O câncer se espalhou e ele não conseguia comer sozinho — disse Aparecida Mello, amiga do mototaxista. — Os médicos só botavam a comida do lado dele e saíam. Quem dava banho era a família quando chegava.

Parentes também criticaram o fato do hospital não ter feito drenagem em Valdeci no Hospital Salgado Filho. Segundo a família, o mototaxista tinha dificuldade de respirar, que aumentava a cada dia.

— Tanto é que, quando ele foi transferido para o outro hospital, já na ambulância botaram a máquina de oxigêncio — contou Danuza. — Também drenaram ele, tiraram dois litros de água do corpo dele.

Valdeci morava com a filha Maria Vitória, com uma sobrinha — filha de seu irmão mais velho que morreu há alguns anos — e com a esposa, Leticia Kelly Queiroz da Costa, de 18. Ele trabalhava como mototaxista há três anos e, recentemente, fez um curso técnico de técnico de refrigeração, segundo parentes. Valdeci passou grande parte da vida sem os pais, os dois morreram quando ele tinha três anos. Caçula, ele cresceu sob os cuidados de dois irmãos e uma irmã.

Depois do câncer ser diagnosticado, o Hospital Salgado Filho inseriu o nome do paciente no Sistema Estadual de Regulação (SER) para ele ser transferido para uma unidade com atendimento oncológico, já que a unidade não faz esse tratamento. Essa não foi a primeira vez que o mototaxista teve câncer. Há seis anos, ele já tinha tido um câncer no intestino, mas foi identificado no ínicio e conseguiu ser tratado. Dessa vez, a história terminou diferente.

— Essa fila do SER e do SISREG é um crime. É a fila da morte — criticou Ricardo Silva, amigo de Valdeci.

Diante de todas essas críticas, a família informou que pretende levar o caso à Justiça.

— Com certeza vamos entrar com uma ação contra a prefeitura — afirmou Danuza.

Primo de Valdeci, Michel do Espírito Santo também criticou o tratamento ao mototaxista e aos outros pacientes:

— A gente sabe que a saúde está complicada no estado. Só que é muito ruim você ver isso. Não é só porque é meu primo, você vê muitas pessoas lá morrendo aos poucos — disse Michel. — Meu primo ficava à base de dipirona e soro. É uma falta de comprometimento com o paciente, com a vida.

— Demorou, mas a gente conseguiu dar essa oportunidade de ele passar para um hospital oncológico. Porque, caso contrário, ele ia morrer lá e a gente ia ficar mal de não ter conseguido nem tirá-lo de lá. Se a gente não tivesse feito a manifestação, se não tivesse movido as pessoas, ele teria morrido lá e essa seria nossa maior indignação — relatou Danuza.

Em 9 de novembro, antes da transferência, a direção do Hospital Municipal Salgado Filho, via Assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal de Saúde, disse que "o tratamento de oncologia não está inserido na cartela de serviços que devem ser ofertados pelos municípios, de acordo com as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS)", mas que o paciente foi atendido e acolhido pelo hospital, e que, enquanto aguardava a transferência "segue sendo assistido pela equipe médica da unidade".

Procurada para comentar as críticas dos familiares, a Secretaria Municipal de Saúde ainda não se manifestou.

Rio tem 1.700 pessoas com câncer aguardando tratamento

Levantamento da Defensoria Pública da União aponta que 1.734 pessoas com câncer aguardam vaga para iniciar o tratamento no Rio. Uma espera que tem levado, em média, nove meses, apesar da Lei dos 60 dias, que determina que o tempo máximo entre o diagnóstico e o início do tratamento não demore mais do que dois meses. No estado, apenas 6,4% dos casos de câncer de mama começam a ser tratados dentro desse prazo. É o pior resultado do país.

De acordo com o defensor público Daniel Macedo, um mapeamento feito nos hospitais oncológicos no município do Rio, em especial, da rede federal, revelou mais de 200 pacientes com tratamento interrompido. São pessoas que aguardaram por até nove meses para conseguir chegar è rede federal e, diante da paralisação do tratamento, em função da falta de médicos ou medicamentos, são encaminhados de volta à clínica da família.

A Secretaria municipal de Saúde (SMS) afirmou que a regulação de vagas para tratamento do câncer são feitas pelo Sistema Estadual de Regulação (SER) e ofertadas no Hospital Universitário Pedro Ernesto, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho e no Instituto Nacional de Câncer. Informou também que a busca por vagas em unidades privadas cabe à Justiça. E que, mesmo que o tratamento de casos oncológicos não sejam atribuição de unidades da rede municipal, o paciente Valdeci Pinheiro Neto foi acolhido, medicado e assistido pela equipe médica do Salgado Filho. Segundo a SMS, o pedido de transferência do paciente foi inserido no dia 2 de novembro, no Sistema Estadual de Regulação (SER).