Rapidez e atenção: pais dizem o que políticos precisam melhorar no processo de adoção no Brasil

Pixabay

Por Giorgia Cavicchioli

Segundo o Cadastro Nacional de Adoção, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), existem mais de 9 mil crianças aguardando na fila da adoção no Brasil atualmente. Porém, ainda existe uma grande dificuldade de elas serem adotadas por conta da exigência dos pretendentes em relação ao tipo da criança que querem (o perfil mais requisitado pede uma menina, branca e bebê) e em relação à negativa para a adoção de irmãos.

Mesmo quando os pais deixam as exigências mais abertas, ainda esbarram na burocracia e na morosidade para se unirem aos seus filhos. Pensando nisso, depois das eleições, os novos gestores terão que priorizar a qualidade de vida das famílias que passaram pela adoção.

O microempresário Fernando Luiz, 39 anos, tem quatro filhos com seu cônjuge Marcelo Pereira. Um deles foi adotado primeiro e depois o casal decidiu adotar outros três irmãos. Hoje, eles vivem felizes e são uma grande família. Fernando conta, no entanto, que ainda existe muita burocracia para conseguir formalizar a adoção nos documentos das crianças. Além disso, ele diz que o novo presidente precisará se preocupar com um maior acompanhamento da situação das famílias depois da adoção. Em sua visão, é necessário que a família seja acolhida e que os pais e as crianças tenham uma atenção de assistente social e de psicólogos depois do processo na Justiça.

“A criança precisa de amor e orientação. Se você tem um apoio de uma equipe técnica para te ajudar é mais fácil você passar por esse processo de transição”, afirma o empresário dizendo que nunca desistiu dos filhos, mesmo durante o difícil processo de adaptação.

Ele afirma que o mais recente problema que está enfrentando é em relação ao nome das três crianças mais novas. Fernando conta que todos já moram juntos, mas que ainda existe um problema na Justiça. “Precisa da certidão no nosso nome. Eles morrem de medo, porque eles já vêm de um trauma de abandono”, explica.

Como família, explica que os desafios são como o de qualquer outra criação. “A gente ri, a gente chora, a gente brinca, a gente briga… temos nossos momentos de cobrança em relação a regras e temos nossos momentos de lazer”, conta.

Para Fernando, as crianças que estão para a adoção precisam ser vistas com um olhar mais humano. O empresário afirma que percebeu que, em muitos lugares, as crianças são vistas apenas como um número de processo, mas que é preciso saber mais sobre a história delas e pelo o que elas passaram.

Isso é o que também pensa o cabeleireiro Omar Silva Estevam, 46 anos, que é pai de duas meninas. Para ele, as crianças não podem aguardar tantos anos por uma adoção. As filhas dele, por exemplo, ficaram três anos abrigadas. “É muito tempo perdido”, avalia, dizendo que a adoção vai se tornando mais difícil para a criança conforme vão se passando os anos.

Omar conta que sempre teve o sonho de adotar, mas que o tempo foi passando e que ele achava que era preciso muito dinheiro para conseguir ter filhos. Porém, a solução veio quando ele menos esperava: uma de suas clientes no salão de cabeleireiro era assistente social. “Iniciamos a conversa e ela me orientou em ir até o Fórum”, explica. Depois de quatro anos na fila de adoção, conseguiu conhecer suas filhas no meio do ano de 2017. Em abril de 2018, elas já estavam registradas com seu sobrenome. Aí, então, a espera que as meninas tiveram dentro do abrigo foi cessada. Elas tinham um pai. “Eu fui feito para elas e elas foram feitas para mim”, afirma.

Já o professor Edio Gomes da Silva, 56 anos, adotou dois meninos e diz que o processo, como tudo na vida, apresenta desafios. Mas afirma categoricamente: “Se fosse para repetir tudo de novo, com certeza eu ia repetir. Eles nasceram para mim.”

Segundo Edio, a decisão de começar o processo de adoção veio em uma conversa com sua sobrinha. Depois disso, ele providenciou os documentos e iniciou a espera para encontrar seus filhos. “O meu processo de adoção foi tranquilo”, afirma.

Mesmo assim, o professor diz conhecer histórias em que as famílias não tiveram a mesma rapidez. Por isso, ele acredita ser necessário que as crianças fiquem menos tempo nos abrigos e que os adotantes fiquem menos tempo na fila de adoção.

Há quatro anos, ele e os filhos vivem juntos. Agora eles têm um novo desafio: o começo da adolescência. Um deles tem 12 anos e o outro 10. “Nessa fase é outra etapa do aprendizado. Eu vou aprendendo com eles e eles vão aprendendo comigo”, diz.