Rappers do Rio crescem durante a pandemia na onda do trap trajadão

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Perfume, joias, maquiagem, roupas de grife, uísque, porcelanato, carro importado... a imagem do “favelado chique” (expressão presente em muitas de suas músicas) ancora a filosofia de uma vitoriosa nova geração do trap-funk fluminense. Lifestyle – termo que substitui o desgastado “ostentação” do funk paulistano de mais de uma década atrás – é o grito de guerra de um grupo de MCs que viram seus números se multiplicarem exponencialmente ao longo pandemia.

MD Chefe, DomLaike, Tz da Coronel (citado por Caetano Veloso na música “Sem samba não dá”), Borges (que na semana passada teve seu rosto estampado no telão da Times Square, em Nova York, em ação do Spotify Radar), Maneirinho, NGC Daddy (da “Bag de grife”) e BIN (do “Rolex”) hoje dão as cartas.

Mas grito de guerra talvez não seja a ideia que melhor caiba no universo de MD Chefe – rapper de 21 anos, que foi da comunidade do Fallet-Fogueteiro para o estrelato, com 1,4 milhão de seguidores no Instagram e 2,5 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Sua marca é a voz grave e sensual com que narra, no seu “estilo tchutchuco”, os muitos lados de um lifestyle incomum nas músicas do EP “Atg Tape”.

“Artigo de grife”, “Rei Lacoste”, “Montblanc” e “Fragrância” (“pelo cheiro do homem tu sabe o quanto ele é qualificado”) são os hits desse disco, que o fizeram ser convidado, ao lado do parceiro DomLaike, para um jingle das Casas Bahia com Marília Mendonça, Péricles e o DJ Papatinho.

Ao telefone, a surpresa: MD Chefe fala exatamente como nas suas músicas.

— A verdade é essa, acredito que foi o Eterno que me deu essa voz — diz ele, que não gosta de revelar muito sobre si (“já sabe meu vulgo, pra quê saber meu nome?”), mas garante que nunca foi um personagem. — A nossa música engloba o nosso estilo de vida, o que ainda está aflorando devido ao crescimento da nossa condição financeira. É a vaidade, todo mundo quer andar chique.

Também do Fallet-Fogueteiro, sócio de MD Chefe na produtora OffLei Sounds, Jefferson Mateus, de 26 anos, o DomLaike, estourou com “Rei Lacoste” (que divide com o amigo) e “Trajadão”, do verso “dá licença, autoridade, favelado também pode”:

— A gente já tinha o lifestyle antes de ter o sucesso, e agora com o dinheiro ele consequentemente vai mudar. Mas mudar com consciência, a gente é bem pé no chão.

Além das favelas

O novo trap-funk do Rio foi para além das favelas e chegou a muitos adolescentes da classe média, como o estudante Nuno Coutinho, 13 anos, da Barra da Tijuca, que acompanhou em primeira mão a sensação provocada por “Rei Lacoste”, de MD Chefe e DomLaike, no TikTok.

— Todo mundo começou a brincar com a voz do MD, chamando todo mundo de tchuthuco, falando que estava se sentindo confortável... e a coisa pegou — conta.

Foi, aliás, pela indicação do filho, Zeca, que Caetano Veloso chegou a Tz da Coronel – MC de 20 anos, com 873 mil seguidores no Instagram e quase 2 milhões de ouvintes mensais no Spotify. Das batalhas de rima do Morro do Limão, em Cabo Frio, Mateus de Araujo Santos (“Tz” é a abreviação de Matheuzinho e “Coronel” veio da rua onde morava) chegou ao sucesso quando “Anota a placa” começou a tocar no game GTA RP – logo, ele estava nas cabeças também com “Trajado de Glock”, “Corte do Jaca”, “Gelo de coco” e “Abusadão”.

— Não é [que eu tenha] uma fascinação braba, mas gosto de tênis exclusivo, tênis que ninguém tem. Geral gosta de ver alguém vencendo — diz Tz, que hoje faz shows pelo país inteiro e ainda conta com a fama adicional da música de Caetano. — Nem acreditei, minha mãe ficou felizona. As pessoas da família, que são mais velhas, gostam dele pra caramba. Gostaria de conhecer o Caetano, parece que ele é gente boa.

MC que teve a primeira oportunidade no Estúdio Laranja, de MD Chefe e DomLaike, Borges, de 21 anos, surgiu nas batalhas de rima da Pavuna, sua área, e foi revelado em 2019 com a música “Ak do Flamengo”. Hoje, Luís Felipe Borges Campos é artista radar do Spotify e acaba de lançar o seu primeiro álbum, “Intocável”. Aguerrido e com muitas músicas que criticam a violência policial e o racismo (como “Preto de gueto” e “Lei Áurea”), o rapper não deixa de falar do luxo em hits como “Contando dinheiro” (“aonde eu passo, gritam ‘favelado chique’”).

— A gente vem do pouco, né? Por mais que não cresça o olho com muito, a gente gosta de ter o nosso luxo, nosso dinheiro, nossas joias, nossas roupas caras. Para ser bem sincero, eu não gosto de ostentar para os outros verem, mas para eu poder sentir que venci — explica ele, na fé de que “quando a educação trabalha na cabeça do favelado, ele não procura o crime”. — Todo mundo tem que estudar, porque não são todos que têm a benção que eu e outros amigos tiveram, que foi de estourar com a música.

MC que veio do funk de Niterói, Diogo Rafael Siqueira, o MC Maneirinho, de 26 anos, vê de uma perspectiva privilegiada o fenômeno do trap-tchutchuco – do qual se aproveita em hits como “Debochando da mídia”.

— É pra mostrar para a molecada que eles podem correr atrás, tentar um caminho honesto — alega ele, que já teve problemas por cantar funk proibidão. — A mesma liberdade do Wagner Moura e do José Padilha de fazer filmes é a que a gente tem na música, de falar de joias, de guerra, de sexo... mas com a responsabilidade de não exagerar.

Com MCs que surgem a cada dia, a cena cresce. E no próximo dia 12 de fevereiro, ela estará representada no Rep Festival, que acontece no gramado do Riocentro com MD Chefe, Dom Laike, TZ da Coronel, Borges e Maneirinho, ao lado de rappers consagrados há mais tempo, como Matuê e Djonga.

— Quanto mais gente boa fazendo música, eu vou estar feliz, porque amo a música — celebra Borges. — A gente tenta criar no nosso próprio ritmo, falar das nossas próprias coisas, sem copiar outros artistas.

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