Rastreamento de contatos próximos a infectados reduz disseminação por coronavírus, diz estudo

Um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos e da China se debruçou sobre dados de 391 casos de Covid-19 confirmados na cidade de Shenzhen, em Guangdong, na China. Com base nesse material, os cientistas elaboraram um estudo que comprova a eficácia da estratégia de rastreamento dos contatos na redução do avanço do novo coronavírus.

Publicado na revista "Lancet", o artigo "Epidemiologia e transmissão do COVID-19 em 391 casos e 1286 de seus contatos próximos em Shenzhen, China: Um estudo de corte retrospectivo que mostra a eficiência das políticas de rastreamento de contatos na redução dos impactos do novo coronavírus" foi feito com dados obtidos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Shenzhen, que identificou 391 casos de Sars-CoV-2 entre os dias 14 de janeiro e 12 de fevereiro com base não só na testagem de quem apresentou sintomas como também na vigilância de seus contatos mais próximos. Um universo que englobou 1286 pessoas.

Os pesquisadores envolvidos são da Escola de Saúde Pública do Johns Hopkins, do Centro de Controle de Doenças de Shenzhen, do Instituo Harbin de Tecnologia, em Shenzhen, e do laboratório Peng Cheng.

Ao comparar os resultados apresentados pelo grupo detectado por uma vigilância baseada em sintomas e o de infectados pela proximidade com quem já havia testado positivo, os pesquisadores se depararam com prazos menores no segundo caso. Uma constatação que explica o sucesso de países que adotaram o rastreamento de contatos, como a própria China e a Coreia do Sul.

"Essa análise mostra que o isolamento e o rastreamento de contatos reduzem o tempo de infecção dos casos numa comunidade", afirma o estudo.

Dos 391 casos, 379 tiveram o modo de contaminação rastreado. Destes, 292 foram descobertos pela vigilância dos sintomas. Os outros 87 que testaram positivo são do grupo de pessoas que tiveram algum tipo de contato mais próximo com um infectado. Para chegar a essas pessoas, as autoridades rastrearam todos aqueles que viviam no mesmo apartamento, compartilharam uma refeição, viajaram ou interagiram socialmente com um caso confirmado até dois dias antes do surgimento dos sintomas.

As diferenças entre cada grupo chamaram a atenção dos pesquisadores. Aqueles detectados pela vigilância baseada em sintomas foram isolados fora de casa, em média, em 4,6 dias após o início dos sintomas. Já com os identificados por meio de rastreamento, o isolamento ou a quarentena fora de casa foi possível numa média tempo bem menor: 2,7 dias.

Isso só foi possível porque o tempo de diagnóstico da doença é menor entre os casos detectados por rastreamento de contato: 3,2 dias em média contra 5,5 dos contaminados identificados através da vigilância baseada nos sintomas.

A principal consequência foi a redução dos níveis de disseminação da doença. Em Shenzen, a taxa de reprodução da doença (que mede o potencial de infecção entre pessoas) foi reduzida para 0.4, bem abaixo do previsto em cenários onde não há a implementação de políticas de isolamento (entre 2.0 e 4.0).

Outro dado ajuda a entender a importância de rastreamento dos contatos mais próximos de um infectado. Estudos sugerem que cerca de 40% das contaminações entre indivíduos que habitam a mesma casa ocorrem antes da manifestação dos sintomas do primeiro contaminado.

O trabalho ainda chama a atenção para outros dados. Entre os contaminados detectados após a manifestação dos primeiros sintomas, a diferença entre homens e mulheres praticamente não existe: 55% x 45%, respectivamente. Já no grupo dos identificados após o rastreamento de contatos havia predomínio do sexo feminino: 72% contra 28%.

Já o perfil etário das contaminações em Shenzen mostra que as crianças são tão propensas a serem infectadas quanto os adultos. A diferença está no menor potencial delas para manifestação dos sintomas graves.