Rastreamento genético: nova técnica em embriões levanta debate ético entre médicos

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SÃO PAULO — Um novo tipo de rastreamento genético de embriões que serão usados no processo de fertilização in vitro tem provocado debates técnicos e éticos na comunidade médica. A novidade, chamada de “pesquisa poligênica de embrião”, promete que os pais descubram, por exemplo, se aquele futuro bebê terá risco agravado para doenças como diabetes, câncer de mama ou próstata, esquizofrenia e hipertensão.

Para chegar a esse painel de probabilidades — não se trata de um diagnóstico — os médicos analisam o material genético do embrião e utilizam bancos de dados que reúnem informações de DNA, aspectos de saúde de pessoas já nascidas e um algoritmo que ajuda a determinar quais especificidades genéticas, em conjunto, estariam relacionadas às doenças em potencial.

O novo exame difere de métodos de rastreio usados atualmente e que avaliam, por exemplo, alterações nos cromossomos — causa da Síndrome de Down — ou a presença de doenças como a fibrose cística, que são fruto de variações em um único gene. Por outro lado, esses exames já existentes oferecem diagnósticos, pois é possível apontar a presença da alteração específica no gene ou cromossomo que causa certa doença. No caso dos estudos poligênicos, avalia-se o risco geral, observando uma série de áreas do DNA de maneira combinada.

Ainda não há bebês brasileiros que tenham nascido após um rastreio “poligênico”. O teste é oferecido no Brasil pelo laboratório GeneOne, mas também em partes dos Estados Unidos e da Europa.

— Não adianta rastrear e achar que o embrião não terá chances de desenvolver doenças, pois essas complicações também são impactadas por fatores ambientais e de hábitos de vida. Por isso falamos que há identificação de risco aumentado ou risco dentro da normalidade — afirma Bruno Copreski, gerente de genética reprodutiva da GeneOne.

O custo do serviço, que inclui a coleta de amostras do pai e da mãe, tem uma taxa inicial de cerca de R$ 7 mil, somada à análise de cada embrião, em torno de R$ 2,5 mil. A indicação de utilização é para os pais que tenham histórico de alguma das doenças “rastreáveis” na família.

‘Seleção complicada’

Embora pareça um avanço, o procedimento levanta uma discussão ética. Qual seria o limite de análise para um embrião? E, além disso, somente a probabilidade de que o embrião, no futuro, se transformaria em uma pessoa com complicações de saúde seria o suficiente para não utilizar aquele óvulo fecundado — que poderia ter perfeitas condições de desenvolvimento?

— O problema é que estamos falando do risco de desenvolvimento de problemas, não da doença real. É uma seleção muito complicada. Todos temos uma série de propensões genéticas e talvez, se tivéssemos sido analisados como embriões, nem estaríamos aqui — opina Carlos Alberto Petta, do Laboratório de Reprodução Humana do Hospital Sírio-Libanês.

Pedro Monteleone, diretor do Centro de Reprodução Humana Monteleone e coordenador técnico do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas diz que há “dilemas significativos” envolvidos na prática:

— Se fosse assim, a Angelina Jolie não teria nascido, nem o Steve Jobs. Isso, claro, é um exemplo grosseiro de uma coisa que será refinada. Mas temos indivíduos com patologias graves que prestam grandes serviços à sociedade. As perdas e ganhos ainda estão em debate.

Em junho, pesquisadores dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália publicaram um artigo no “New England Journal of Medicine” em que destrincham a técnica e enumeram seus riscos: acesso desigual para população mais vulnerável e até a real aplicabilidade do teste, que pode apresentar variações muito pequenas quando compara-se um embrião em relação a outro.

Além disso, os pesquisadores alertam para a necessidade de uma robusta regulação sobre o estudo. No Brasil ainda não há determinação específica sobre o tema. A presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), Hitomi Nakagawa, explica que, no mundo inteiro, os especialistas estão “tateando” a validade dos aspectos técnicos — por serem envolvidos muitos genes na análise — e éticos da prática.

Joris Vermeersch, da Universidade KU Leuven, na Bélgica, pioneiro no diagnóstico pré-implantacional, que identifica alterações cromossômicas durante a fertilização, faz coro aos que não indicam a análise e diz que neste momento não é “muito fã” do rastreio das doenças poligênicas.

— Pensando em doenças psiquiátricas, por exemplo, você pode rastrear o embrião e ainda assim a criança ter a doença. Neste momento, não temos bons exemplos de como essa técnica poderia trazer benefícios — afirmou Vermeersch.

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