'Açougueiro dos Bálcãs' é condenado à prisão perpétua por genocídio

Por Sophie MIGNON y Charlotte VAN OUWERKERK
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(Arquivo) Ratko Mladic

O ex-chefe militar dos sérvios na Bósnia Ratko Mladic, conhecido como o "Açougueiro dos Bálcãs", foi condenado nesta quarta-feira (22) à prisão perpétua por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra cometidos há mais de duas décadas na ex-Iugoslávia.

"Por ter cometido estes crimes, o tribunal condena Ratko Mladic à prisão perpétua", disse o juiz Alphons Orie, do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia (TPII) em Haia.

O "Açougueiro dos Bálcãs", de 74 anos, apelará da sentença da Justiça internacional porque a considera "falsa e contrária aos fatos", anunciou seu filho, Darko.

"Os crimes cometidos fazem parte dos mais odiosos do gênero humano", acrescentou o juiz, que estima que as circunstâncias atenuantes invocadas pela defesa, como sua capacidade mental debilitada, "tiveram pouco peso" no julgamento.

A guerra na ex-Iugoslávia deixou cerca de 100.000 mortos e 2,2 milhões de deslocados entre 1992 e 1995.

Pouco antes de conhecer sua condenação, Mladic começou a gritar e acusar os juízes de mentirosos, e foi retirado da sala.

O juiz Orie também negou o pedido da defesa de interromper o processo pela pressão arterial muito alta do acusado.

"Mentem, vocês mentem. Não me sinto bem", gritou Mladic. Após sua expulsão da sala, foi levado a um espaço ao lado para ouvir o veredito.

O acusado decidiu se apresentar à leitura da decisão após dar a entender que não iria por razões de saúde.

Em sua chegada, usando um terno escuro e uma gravata vermelha, fez um sinal de positivo e sorriu aos fotógrafos que esperavam por ele. Também cumprimentou a sua família que estava na sala.

- O 'cérebro' do assassinato de milhares de pessoas -

O alto comissário de Direitos Humanos da ONU, Zeid Ra'ad al Hussein, qualificou Mladic como "personificação do Mal" e assegurou que o veredito é uma advertência aos autores de crimes contra a humanidade.

A presidente da Associação de Mães dos Enclaves Muçulmanos de Srebrenica e Zepa, Munira Subasic, disse estar "parcialmente satisfeita" e lamentou que não tenha sido reconhecido como culpado de genocídio em vários povoados.

O presidente sérvio, Aleksandar Vucic, convocou seus compatriotas a "olhar para o futuro", em um discurso pronunciado após a condenação.

O chamado "Açougueiro dos Bálcãs", acusado pelo TPII de ser o "cérebro por trás do assassinato de milhares de pessoas" e acusado de genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, continua sendo um "ídolo" para muitos na Republika Srpska (República Sérvia), a entidade sérvia na Bósnia.

Junto com seu alter ego político Radovan Karadzic, é considerado o "arquiteto de uma política de limpeza étnica" de parte da Bósnia para criar um Estado sérvio etnicamente puro, de acordo com o promotor Serge Brammertz.

O TPII foi criado em 1993 em Haia para julgar os supostos responsáveis por crimes de guerra durante os conflitos nos Bálcãs e fechará definitivamente as suas portas em 31 de dezembro.

A acusação pedia prisão perpétua para Mladic, e a defesa sua absolvição. O ex-chefe militar nunca reconheceu sua culpa, embora tenha dito lamentar "cada inocente morto em todos os grupos, em todas as comunidades étnicas da ex-Iugoslávia".

O TPII indiciou Mladic em 25 de julho de 1995, dias depois do massacre de cerca de 8.000 homens e crianças muçulmanos em Srebrenica, pelo qual foi acusado de genocídio.

Também lhe atribuem o sequestro de funcionários da ONU e o cerco de Sarajevo, que durou 44 meses e deixou 10.000 mortos, em sua maioria civis.

Após uma longa fuga, a Polícia o prendeu em 2011 na casa de um primo e foi transferido para Haia. Seu julgamento durou mais de cinco anos.

Mesmo tantos anos após o fim da guerra, a sentença desta quarta-feira divide a população da Bósnia, entre sede de justiça e surtos nacionalistas.

"Aceitar a verdade é o único caminho, a única forma de que o futuro desse país se torne melhor que o passado", reagiu o líder bósnio muçulmano, Bakir Izetbegovic.

"Urgimos aos países e povos da região a evitar toda retórica divisiva e que trabalhem juntos para construir um futuro melhor para toda a região", reagiu os Estados Unidos.