Razões da ascensão meteórica do mercado da carne no Brasil

Por Morgann JEZEQUEL
(Arquivo) Foto tirada em 24 de março de 2017 mostra funcionário vendendo carne durante inspeção do Procon em um supermercado do Rio de Janeiro

O Brasil se tornou em duas décadas o maior exportador mundial de carne de boi e de frango, graças a um forte apoio do Estado, à expansão de sua fronteira agrícola sobre a Floresta Amazônica e a controles sanitários flexíveis, segundo importadores.

A crise iniciada em 17 de março, quando foi revelado que diversos frigoríficos subornavam inspetores de saúde para vender produtos vencidos ou em mau estado, colocou na defensiva um setor que conta com gigantes do agronegócio como JBS e BRF.

Rapidamente o governo agiu para resgatar este setor-chave, mas que agora está sob suspeita, de uma economia em recessão. Os mercados que inicialmente se fecharam, voltaram a autorizar a entrada de carnes brasileiras, embora os pedidos demorem a recuperar o nível anterior ao escândalo, admitem as autoridades.

O governo e os produtores alegam que há apenas 21 frigoríficos investigados dentre os mais de 4.800 que existem no país. Mas há quem acredite que a aceleração do crescimento reduziu o nível de exigência para certos mercados.

"Nós temos certeza da qualidade dos nossos produtos", afirma Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), que maneja 91% das exportações de carne bovina.

"Demoramos 15 anos para reforçar nosso sistema sanitário e ganhar reconhecimento, legitimidade e ter a confiança dos nossos clientes. As regras são estabelecidas por eles e podem vir controlar as instalações quando quiserem", acrescenta.

Uma visão manchada por um relatório diplomático europeu publicado em 2013.

"A existência de vários circuitos, com normas sanitárias diferentes, permite aos brasileiros respeitar as demandas dos importadores mais exigentes, como a União Europeia [...], mas também limitar custos em mercados menos vigilantes, como as faixas menos abastadas da população brasileira, o Oriente Médio, Hong Kong, Angola e Venezuela", destaca o informe.

"Condenar todo o setor é exagerado, mas, de fato, a produção aumentou sem que os investimentos no sistema sanitário da carne seguissem a evolução do setor", reconhece Sérgio de Zen, especialista em agronegócio do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo.

- Desenvolvimento potencializado por Lula -

A grande expansão do negócio se deve, em grande parte, à política de "campeões nacionais" impulsionada durante os governos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo os pesquisadores.

"O governo queria apoiar as empresas nacionais nos setores dos alimentos e das minas, que tinham a maior capacidade de competição no exterior, com um potencial muito grande", explica à AFP Sérgio de Zen.

Nessa época, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desbloqueou consideráveis quantias para empresas como Marfrig e JBS, por meio de créditos ou compra de obrigações.

A JBS é atualmente o primeiro exportador mundial de carne bovina. Juntas, a BRF e a Marfrig controlam entre 40% a 55% da produção nacional de carne e mais de 70% das exportações, "porcentagens que não param de crescer", segundo o relatório europeu.

Este processo de concentração da indústria da carne também se deu pelo desenvolvimento considerável do sistema produtivo no país desde meados dos anos 1990.

Entre 1997 e 2016, o país triplicou sua produção avícola, passando de 4,5 milhões para 13,5 milhões de toneladas, se tornando o primeiro exportador mundial com 40% do mercado, segundo o Cepea.

Nesse mesmo período, a produção de carne bovina cresceu mais de 100%, de 3,3 milhões de toneladas para 7,3 milhões, e o valor das exportações saltou de 469 milhões para 5,5 bilhões de dólares.

Em 2016, o setor da carne reportou mais de 13 bilhões de dólares em exportações, sendo 7% das vendas para o exterior.

- Meio ambiente e controle sanitário -

A criação de gado, especialmente o bovino, se desenvolveu de maneira extensiva, estimulada pela ampliação da superfície agrícola, em detrimento da floresta tropical.

O "lobby do agronegócio" é um dos mais poderosos do Congresso. O atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi, é um grande produtor de soja e ex-governador do Mato Grosso, estado que conta com o maior número de cabeças de gado do país - 30,2 milhões.

A melhora da produtividade mediante a exploração intensiva dos pastos, como alternativa à expansão espacial, é um objetivo do governo de Michel Temer, dos grandes produtores e dos pecuaristas. Mas exige mais investimentos.

Os pastos de gado de engorda e gado confinado não representavam mais do que 13% da produção em 2015, segundo a Abiec.