Reação dos participantes do 'BBB' a beijo entre Lucas e Gil toca em feridas de bissexuais

Eduardo Vanini
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“Eu não quero ser palco para a sua performance.” A frase dita em tom acusatório pela psicóloga Lumena Aleluia ao ator Lucas Koka, numa noite de festa no Big Brother Brasil, tocou numa ferida que aflige bissexuais em todas as suas existências. A reação dela, endossada por outros participantes do programa que não conseguiram encarar com naturalidade o beijo na boca trocado entre o ator bissexual e o economista Gilberto Nogueira, teletransportou muita gente do lado de fora da casa para uma espécie de replay de situações cotidianas de bifobia. Algo frequentemente traduzido por comentários que classificam o grupo representado pelo “B” , da sigla LGBTQ, como indeciso, oportunista e até promíscuo.

No rastro do debate, as redes sociais logo ganharam reflexões como a da fotógrafa Thaís Nozue, que usou o Twitter para desabafar. “O que mais tem é lésbica e gay deslegitimando a bissexualidade. Além de enfrentar os héteros e seus fetiches, ‘L’ e ‘G’ também nos invisibiliza, nos chama de delivery de doenças. Não sejam hipócritas”, escreveu. Em entrevista por telefone, ela frisou o quanto a situação é corriqueira: “Se me relaciono com homens, não sou bissexual o suficiente. Se me relaciono com mulher, sou acusada de querer me aparecer”. Toda essa pressão, afirma, fez minar dentro dela a coragem de falar abertamente sobre a sua sexualidade com a sua família, por exemplo.

O sofrimento, muitas vezes, é extensivo aos parceiros, que sofrem o mesmo tipo de pressão, ainda que não se identifiquem como bissexuais. Atualmente namorando com uma mulher, o publicitário João Gabriel Moares viu a companheira ser pressionada por amigas no começo da relação. “Duvidavam da nossa relação, e eu tinha que provar o tempo todo que estava com ela porque gostava.

Pensamentos do tipo ecoam com mesma intensidade na mente da atriz Ana Flavia Cavalcanti, que também é bissexual e dividiu o elenco de “Malhação — Viva a diferença” com o próprio Lucas. Ela viu no episódio a urgência do debate. “Levantou essa espécie de pano que tem por cima da bissexualidade, alvo de uma fala, muitas vezes dita em tom de brincadeira, de que precisamos decidir o nosso lado”, afirma. “Precisamos ultrapassar essa barreira de que os bissexuais estão só para a putaria, precisamos ser respeitados. Estou namorando um homem há mais de um ano, numa relação superfeliz e cheia de prazer. Do mesmo jeito, já tive relacionamentos duradouros com mulheres, em que vivemos momentos inesquecíveis e de muita conectividade. Esse lugar da normatividade de ‘nasci de um jeito, vou morrer assim’ é muito chato. As pessoas deixam de se dar oportunidades.”

Mas, afinal, porque a bissexulidade causa tanto incômodo? Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Sexualidade, Educação e Diversidade da Universidade Feral de Juiz de Fora, Anderson Ferrari relaciona isso à maneira binária como as pessoas são tratadas ao nascer. “Há uma ansiedade para saber se é menino ou menina. Ou seja, não trabalhamos com a lógica do ‘e’, mas do ‘ou’. A pessoa tem que ser uma coisa ou outra. Esse binarismo marca o nosso olhar para o mundo”, resume.

Anderson segue o raciocínio lembrando que, muitas vezes, as pessoas não têm a oportunidade de pensar sobre seus próprios desejos, porque isso é previamente imposto pela sociedade, o que restringe ainda mais a compreensão acerca da diversidade. “O modelo de relacionamento valorizado é o heteronormativo monogâmico. As pessoas ainda vivem com a ideia de que um dia vão se casar e ser eternamente fiel a alguém. Nesse sentido, a bissexualidade é interpretada no campo oposto, que é o da liberdade de viver o desejo. Logo, é associada à promiscuidade, por ser encarda como um forma de desvalorização da sexualidade valorizada, que é a heterossexual.”

Com tantas bocas falantes dentro do Big Brother, uma delas, emitiu, de modo mais discreto, um pensamento que certamente tem muito mais a acrescentar ao debate do que opiniões inquisitórias. “Não cabe à gente discutir a sexualidade do Lucas”, disse o professor João Luiz. Nem dele, nem de ninguém.