Reabertura da fronteira México-Estados Unidos: a amargura dos deportados

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Martin Figueroa mostra uma foto de sua família do quarto onde mora em Tijuana, México, em 4 de novembro de 2021 (AFP/Guillermo Arias)

A reabertura da fronteira mexicano-americana nesta segunda-feira(8) marcará o reencontro de famílias separadas pela pandemia, mas para Martín e um grupo de veteranos de guerra deportados pelos Estados Unidos é apenas mais uma bebida amarga.

De origem mexicana, essas pessoas vivem uma espécie de exílio. Eles residiam legalmente nos Estados Unidos, mas devido a crimes passados, foram expulsos para um país que não consideram mais seu.

“Não é inveja, mas tristeza saber que muitos vão conseguir passar e eu não”, diz Martín Figueroa, 52, no humilde quarto que aluga em Tijuana (fronteira noroeste), após ser deportado em 2018.

Para trás ficaram famílias, amigos e - no caso de veteranos - benefícios financeiros e companheiros de guerra do Vietnã e do Iraque, onde defenderam a bandeira americana.

“Pode-se dizer que minha alma e minha mente ficaram desse lado. Aqui está só meu corpo”, reflete Martín, separado de seus sete filhos.

“Nada mais que um muro nos separa”, acrescenta ele sobre a barreira que se eleva a nove metros em vários trechos dos 3.100 quilômetros de fronteira.

Martín foi devolvido ao México quando trabalhava com construções em Bakersfield, Califórnia e, segundo ele, esteve afastado das gangues por vários anos. Chegou aos Estados Unidos com dois anos de idade, após ser adotado por imigrantes mexicanos.

Um drama semelhante vive José Francisco López, de 76 anos, expulso em 2003 depois de cumprir uma pena por tentar comprar drogas.

Há quatro anos, ele fundou a Casa de Apoio aos Veteranos Deportados de Ciudad Juárez (Chihuahua, nordeste). "Perdi minha esposa, meus filhos. Não os vejo há muitos anos", disse este homem que lutou no Vietnã entre 1968 e 1969 e não conseguiu conhecer seus netos.

- Que Biden "cumpra" -

José Francisco representa esperança para cerca de trinta ex-combatentes deportados, que lutam legalmente para reconquistar a sua residência. Alguns morreram no processo.

Em 2 de julho, a administração do presidente Joe Biden anunciou um plano para "trazer de volta membros do serviço, veteranos e seus familiares imediatos que foram dispensados injustamente" para "receber os benefícios a que possam ter direito".

“Esperamos que ele cumpra”, diz José Francisco, que junto com seus companheiros desenrola faixas na fronteira para exigir o fim do “exílio”.

O Instituto Nacional de Migração (INM) do México garante que este ano atendeu 181.064 pessoas "de origem mexicana repatriadas dos Estados Unidos", sem detalhar o número de deportados.

Martín relaciona seu caso às políticas duras do ex-presidente Donald Trump (2017-2021) contra os migrantes, pois afirma que quando foi deportado as autoridades trouxeram à tona fatos ocorridos em 1994.

Washington vai reabrir suas fronteiras com o México e Canadá para pessoas vacinadas contra a covid-19, após quase 20 meses de fechamento devido à pandemia.

Várias exceções permitiram a passagem por terra para viagens essenciais e a entrada aérea com testes negativos.

Estima-se que dos 11 milhões de imigrantes sem documentos nos Estados Unidos, cerca da metade vem do México.

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