‘Reabriremos quando conseguirmos voltar ao Brasil’: pandemia mantém donos de restaurante 'presos' por 8 meses no Vietnã

Camilla Veras Mota - @cavmota - Da BBC News Brasil em São Paulo
·6 minuto de leitura
O vietnamita Yann Dupierre e o argentino Adrian Polimeni
Yann Dupierre e Adrian Polimeni embarcaram em março para o que deveria ser um mês de férias na Ásia - mas aí veio a crise de covid-19

"Olá, amigos queridos do Brasil. A gente está bem aqui no Vietnã, o governo soube lidar muito bem com a situação, tomou várias medidas preventivas, mas as fronteiras foram fechadas por causa da pandemia. A gente ia voltar em abril, reabrir o restaurante no dia 8. Mas agora teremos que voltar no dia 3 de maio."

Em 1º de abril, quando postaram o vídeo avisando aos clientes em São Paulo que não reabririam como previsto, o vietnamita Yann Dupierre e o argentino Adrián Polimeni achavam que teriam de esticar as férias de um mês por mais um.

Os dois meses, entretanto, acabaram virando oito: com as fronteiras fechadas para a entrada de estrangeiros, os voos do Vietnã para outros países foram cancelados pelas companhias aéreas e retomados apenas no fim de outubro, quando conseguiram finalmente embarcar de volta.

Perfil do Banh Mi no Instagram
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Na quarentena "forçada", os sócios puderam assistir de perto à estratégia agressiva do país asiático contra a covid-19.

O Vietnã, país pobre com quase 100 milhões de habitantes (pouco menos da metade da população brasileira), cidades adensadas, 1,4 mil km de fronteira com a China, onde o surto começou, e um sistema de saúde tão precário quanto o do Brasil, é um dos menos atingidos pela doença causada pelo novo coronavírus.

Até domingo (08/11), registrava apenas 1.213 casos e 35 mortes, de acordo com os registros da Universidade Johns Hopkins.

Rastreamento de todos os casos registrados

"Foi duro nos primeiros meses", conta Adrián à BBC News Brasil. "Os vietnamitas são radicais com a questão da saúde, eles sabem se cuidar."

Diante da escassez de recursos e da fragilidade do sistema de saúde, a estratégia do país se concentrou na prevenção, com testagem em massa, quarentena rigorosa e rastreamento de contatos de doentes.

Os sócios relatam que as páginas oficiais do governo traziam detalhamento sobre todos os casos registrados, com uma descrição exaustiva da rotina de cada pessoa nos dias anteriores ao início do isolamento.

"Você conseguia saber, por exemplo, que a pessoa tinha viajado para tal cidade no ônibus X, sentado na cadeira Y; que a outra entrou no banco tal dia e em tal hora. Eles realmente acompanhavam cada caso, pra você saber se eventualmente cruzou com alguém que pudesse estar doente", conta Adrián.

Yann Dupierre e Adrián Polimeni
Vietnã tornou uso de máscara obrigatório antes de recomendação da OMS

A abordagem, apesar de eficiente, talvez não seja facilmente replicada em outros locais, já que pode esbarrar com o direito a privacidade.

O Vietnã não vive em um regime democrático. É há décadas comandado por um partido único, o Partido Comunista do Vietnã.

Parte da população admira e confia no governo, diz Yann, mas também o teme. Isso se soma a uma característica comum ao país e a outros vizinhos, que geralmente colocam o bem coletivo acima do individual.

Fato é que os vietnamitas acataram imediatamente as recomendações - muitas delas tomadas em direção contrária às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) na época, como o uso obrigatório de máscaras faciais, determinado ainda em fevereiro.

Quando os dois chegaram ao país, o "clima" era completamente diferente daquele no Brasil, que tinha acabado de celebrar seu Carnaval.

As pessoas mais desconfiadas com os estrangeiros mudavam de calçada quando viam o argentino, ele conta. Algumas chegaram a mandá-lo "voltar para casa".

A família da Yann, que vive em Ho Chi Minh, solicitou que os dois se isolassem fora da cidade, para não colocar ninguém em risco.

Passada a surpresa inicial do pedido, o destino da quarentena de 14 dias foi escolhido a dedo: a ilha de Phú Quốc, um desses paraísos do sudeste asiático com mar cristalino e areia branca.

Yann Dupierre e Adrián Polimeni
Com a reabertura gradual a partir do fim de abril, os dois puderam experimentar a 'vida normal' no Vietnã

Kung Fu, ioga e aulas de vietnamita

Depois que o voo de volta foi remarcado algumas vezes pela companhia aérea - e sem sinal concreto de que de fato conseguiriam embarcar -, os dois decidiram não se entregar à inquietação.

O isolamento começou a ser flexibilizado no fim de abril, quando o país deixou de registrar por duas semanas consecutivas transmissão comunitária do vírus. Eles puderam então encontrar amigos e frequentar bares e restaurantes.

Adrián começou a praticar kung fu e a tomar aulas de vietnamita, aproveitou para viajar e conhecer outras cidades, e Yann passou a fazer ioga e capoeira.

O país tomou um susto no fim de julho, quando parecia se desenhar uma segunda onda da doença, que foi rapidamente controlada.

"A reação foi instantânea, todos os espaços públicos foram fechados, as pessoas não saíam mais na rua", diz Adrián.

"Lembro que os gringos todos ficaram impressionados com a disciplina cívica muito forte."

Pôster sobre coronavírus
Estratégia do governo também envolveu grande campanha de conscientização

Enquanto isso, muita gente no Brasil perguntava como eles estavam conseguindo se sustentar durante todo esse tempo.

Vivendo na casa da família de Yann em Ho Cho Minh, os dois não precisavam gastar com moradia no Vietnã. O dono do imóvel onde funciona o restaurante (e a casa) deles no Brasil, por sua vez, havia concordado em dar um desconto no aluguel. Além disso, o Vietnã é um país barato, o que ajudou a fazer render as economias dos sócios.

"A vida lá estava muito legal. A gente não tinha ansiedade de voltar porque tinha muita coisa resolvida, a vida tinha voltado ao normal", afirma o argentino.

A 'família' no Brasil

Não se estressar, na verdade, foi uma opção que os dois fizeram cinco anos atrás, quando decidiram deixar a Argentina e se mudar para o Brasil.

Yann trabalhava com informações financeiras em uma multinacional e estava cansado de "ficar no escritório na frente do computador".

"Eu queria fazer algo concreto. Chega de vida corporativa", conta.

Adrián era artista, trabalhava como dançarino, ator e dava aulas de pilates e de teatro.

Yann e Adrián
Yann e Adrián desembarcaram de volta no Brasil no último dia 31 de outubro

O primeiro destino dos dois foi o Rio de Janeiro. Depois de um certo tempo, entretanto, ficou difícil arcar com o custo de vida alto na capital fluminense vendendo empanadas argentinas.

"A gente ouviu falar que São Paulo tinha mais oportunidades, que era uma cidade mais aberta para culturas estrangeiras", relata Yann. "Decidimos tentar a sorte e abrir um restaurante vietnamita porque vimos que muita gente não conhece a culinária aqui."

Isso foi em 2017. De lá para cá, a dupla criou "uma rede muito grande de pessoas queridíssimas no Brasil". Vizinhos que se tornaram amigos e clientes e que, durante esses últimos 8 meses, zelaram pelo espaço dos dois, foram checar se estava tudo em ordem, regar as plantas.

Adrián e Yann planejam reabrir finalmente o restaurante em poucas semanas - não sem antes distribuir os presentes trazidos para a "família" do Brasil.

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