Reage, Rio!: Para ajudar na crise da pandemia, grupos mantêm cursos de qualificação profissional e vagas de emprego

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Num único dia, na última quarta-feira, 1.352 candidatos se inscreveram para disputar uma das duas vagas de faxineiro num edifício da Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Desse total, segundo a Associação Gerando Vidas, que oferece um banco de empregos, 913 tinham ensino médio completo e experiência anterior em outras áreas. Na semana em que foi anunciada pelo IBGE a taxa recorde de desemprego de 14,7% da população, no primeiro trimestre deste ano, fica mais evidente a importância de se oferecer, gratuitamente, vagas ou cursos de capacitação para inserir as pessoas no mercado de trabalho.

E os movimentos sociais vêm cumprindo um papel fundamental. Em tempos de pandemia, a comunidade católica Gerando Vidas tem sido uma das mais atuantes no Rio. Há 24 anos a associação surgiu a partir do pedido de uma pessoa em situação de rua, no Largo do Machado, que ao receber um prato de comida disse que precisava de um emprego. Os voluntários conseguiram uma vaga para ele em um restaurante do bairro. A partir dali, nasceu o banco de empregos. Atualmente, o Gerando Vidas disponibilizou o cadastro pela internet para que candidatos possam inserir os currículos. O gerenciamento e os encaminhamentos às empresas são feitos por voluntários.

— O banco de empregos era apenas um braço do Gerando Vidas. Hoje ele é o corpo todo — diz Paulo Vasconcelos, coordenador do Gerando Vidas. — Não paramos a distribuição de cestas, mas a pessoa chega para buscar os alimentos e pede emprego — explica.

Paulo Vasconcelos conta ainda que é bem comum pessoas com qualificação e ensino superior completo buscarem vagas. Até a última quarta-feira, havia 46.842 inscritos no banco de empregos.

Estudante de Administração, Daniela Barbosa dos Santos, de 42 anos, precisou trancar o curso no penúltimo período, porque a “situação apertou”. Só com o marido trabalhando como motorista de aplicativo, o casal viu a renda cair com a pandemia, porque as viagens reduziram. A despesa com os dois filhos também cresceu. O jeito foi retornar ao mercado de trabalho.

— Fiquei mais de um ano sem trabalho. Consegui só agora num banco. Estou feliz, mas sei que não está fácil. Tenho gratidão pelo Gerando Vidas — relata Daniela.

Mas além de vagas, há busca também por qualificação. As dificuldades ainda são maiores para pessoas LGBTQIA+ e negros. Breno Cruz e Renato Monteiro, professores de Gastronomia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), criaram o Trans:Garçonne, para incluir pessoas trans no mercado de trabalho em bares e restaurantes. No primeiro curso, no fim de 2019, 200 se inscreveram, mas só 24 participaram. Desse total, 17 concluíram. Apenas uma delas, Rochelly Rangel, de 34 anos, conseguiu uma vaga de garçonete.

— Agora estamos fazendo um curso para donos e empreendedores de bares e restaurantes para mostrar a importância de gerar empregos para pessoas trans — explica Breno, que tem uma parceria do Ministério Público do Trabalho (MPT) nesse curso.

Como única aluna a conseguir o emprego, Rochelly se sente orgulhosa e triste ao mesmo tempo porque as colegas não tiveram a mesma oportunidade.

— Sou muito valorizada no Bar Boleia. Aqui só trabalham mulheres e foi o único local que tive com carteira assinada — conta ela.

O Ministério Público do Trabalho do Rio promove o curso e-Conexão para ajudar na formação profissional de jovens universitários negros no setor de publicidade e propaganda. Segundo a procuradora do Trabalho do Rio Fernanda Diniz a instituição constatou que os negros chegam à universidade, mas depois não conseguem uma vaga no mercado de trabalho.

— A ideia é trazer empresas para o diálogo, buscando um pacto de inclusão social. Há várias pesquisas internacionais que mostram que quanto mais diverso o quadro de empregados de uma empresa, maior o lucro. Isso porque ela passa a conhecer melhor a sociedade — ressalta a procuradora do Trabalho.

A ONG Recomeçar começa a atuar amanhã ajudando candidatos a preencherem currículos e pretende ainda dar início a um banco de empregos. A instituição depende de doações para ajudar nas despesas com uso da internet e energia elétrica. Contato pelo e-mail: contato.ongrecomecar@gmail.com.

Para saber sobre o Trans:Gar- çonne, a busca é pelo Instagram:@transgarconne. Já o Gerando Vidas, o contato é pelo Facebook.

As reportagens sob o selo “Reage,Rio!” têm apoio institucional de Rio de Mãos Dadas, uma iniciativa da Fecomércio RJ.

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