Reajuste de 33% na molécula do gás pode refletir no preço do botijão

Letycia Cardoso
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Foto: André Valentim

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Foto: André Valentim

Com a disparada do dólar ao longo do ano e a valorização do preço do petróleo no mercado internacional, o mercado espera fortes aumentos no preço do gás no país para os próximos meses. O movimento começou nessa última quarta-feira, quando a Petrobras anunciou reajuste médio de 33% no preço da molécula, afetando diretamente o valor do gás canalizado e do GNV, para carros. O preço do gás de botijão também deve ser afetado.

Desde o início do ano, entre altas e baixas do preço praticado pela Petrobras, o GLP subiu 16,6% em 2020, segundo o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás Liquefeito de Petróleo (Sindigás). Para o consumidor final, a variação entre janeiro e agosto, conforme dados da ANP, foi de 0,4%.

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O Sindigás afirma que o impacto dos reajustes é diluído ao longo da cadeia de distribuição e revenda: "Como ocorre em mercados onde vigora a livre concorrência, a diluição ocorre a partir da redução de margens das empresas, com a disputa pela preferência dos clientes. Distribuidores e Revendedores fazem promoções variadas, desde prêmios, sistemas de milhagem, brindes, no intuito de fidelizar a clientela. As empresas distribuidoras também oferecem opções de embalagens menores que 13 quilos. Isso dá ao consumidor novas alternativas de escolha, de acordo com os recursos de que dispõe na hora da compra. Note-se que essas embalagens são intercambiáveis: é permitido entregar um botijão de 13 quilos vazio e comprar outro menor e vice-versa. As múltiplas formas de pagamento, como a compra com cartão crédito ou em parcelas, e ainda a possibilidade de negociar descontos são outros fatores que facilitam o acesso ao produto".

No entanto, isso não é o que os consumidores observam no dia a dia. A cozinheira Luciene Almeira, de 56 anos, proprietária de uma pensão no Centro de Mesquita onde vende quentinhas a R$ 10, diz que com o aumento nos preços do gás, do óleo de cozinha e do arroz, tem sido difícil continuar com o trabalho:

— Faço marmitas há 20 anos, mas 2020 foi especificamente difícil para o comércio. Se eu subir o preço para R$ 12, ninguém compra porque todo mundo está sem dinheiro — reclama Luciene: — No início do ano, eu comprava o botijão a R$ 55 e, agora, estou comprando a R$ 65. Por isso mesmo, ao invés de cozinhar com dois fogões, passei a cozinhar com um só. Meu faturamento caiu mais da metade!

Renata Almeida de Souza, de 46 anos, sócia-proprietária da Pensão da Renata, no Centro de Nilópolis, também teve que diminuir sua margem de lucros para não reduzir o salário dos seis funcionários, nem aumentar de forma abrupta o preço das refeições.

— No início do ano, eu comprava o botijão a R$ 50. Hoje, o preço está R$ 72. Como compramos três botijões por semana, conseguimos um desconto e pagamos R$ 65 por cada um. Para tentar amenizar um pouco a elevação dos custos de produção, aumentei R$ 1 no valor de cada prato — conta a empreendedora.

De acordo com Gian Guedes, de 25 anos, gerente nacional do aplicativo de venda de botijões "Preço do Gás" — criado no Rio de Janeiro em 2016 e que hoje atende 582 cidades em todo o país —, desde o início do ano, foram 11 aumentos consecutivos: o botijão que saía por R$ 60, já é vendido a R$ 75, e o cliente não gosta de ter que desembolsar a cada mês mais dinheiro:

— Tem muita gente que não sabe dos aumentos e, quando chega para comprar, percebe que o gás aumentou R$ 5. Os clientes reclamam, mas acabam levando porque é um item necessário. A gente tenta sempre negociar com donos de galpões para oferecer preços mais em conta, fazer promoções de acordo com a demanda das regiões. Se pagar em dinheiro, damos desconto de R$ 5.

O gerente ainda conta que a procura pelo produto aumentou durante a pandemia. Em janeiro, o aplicativo comercializou cerca de 9 mil botijões por dia no país. Atualmente, a média tem sido de 15 mil diariamente. O Sindigás confirma o aumento na demanda: no acumulado entre março e setembro de 2020, comparado ao mesmo período de 2019, o consumo de botijões de gás até 13 quilos cresceu 7,79%.

— A gente fez um cálculo para uma família de quatro pessoas. Antes, o botijão durava 30 dias e, agora, com todos em casa, dura cerca de 20 dias porque as pessoas cozinham mais... com isso, chegam a comprar 2 botijões por mês! — explica Guedes.