Reajuste de Zema abala discurso do Novo e incentiva greves de PMs em outros estados

Miguel Caballero

O aumento salarial de 41% proposto pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema, aos servidores da área de Segurança embute dois riscos importantes, além de ceder à pressão da categoria. Politicamente, é um tiro no pé da identidade de seu partido, o Novo, cuja principal bandeira é a redução do Estado e o máximo controle fiscal. Ao assumir um estado em crise financeira, o Novo abandona o próprio programa. Zema candidata-se ainda a ilustrar a melhor definição da máxima política de que "fazer oposição é uma coisa, governar é outra".

O segundo risco é mais abrangente, e o alarme soa em todos os outros estados. Greves ilegais de agentes de segurança não são novidade num país que em geral remunera mal servidores que arriscam a vida no trabalho. Embora proibidas, elas historicamente recebem a anistia do Poder Legislativo e da Justiça. Com a eleição de Jair Bolsonaro, mais neopolíticos egressos das fardas chegaram às casas legislativas. A luta corporativista de policiais e militares encontra hoje um ambiente ineditamente favorável.

A expressiva vitória das categorias militares na aprovação de um regime especial da Previdência foi um sinal de empoderamento dessas causas. Quando o governador de um estado em crise cede um reajuste tão desproporcional aos benefícios dos outros servidores, esse sinal se fortalece.

Policiais capazes de sair pelas ruas encapuzados, armas em punho, obrigando o comércio a fechar as portas, como ocorreu em Sobral, onde o senador Cid Gomes foi baleado, não precisam de estímulos para pôr as autoridades estaduais contra a parede. Mas a capitulação de Zema deixa seus colegas governadores mais fragilizados. Ela aumenta o perigoso espaço para o discurso oportunista da categoria que tem a prerrogativa de uso exclusivo das armas de fogo. Se Minas, à beira da falência, quer dar 41% de reajuste, por que se contentariam com menos na Paraíba, em São Paulo ou no Mato Grosso?