Rebeldes huthis do Iêmen recusam cessar-fogo proposto pela Arábia Saudita

Anuj CHOPRA, com Dana MOUKHALLATI em Dubai
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Combatente das forças leais no Iêmen, na província de Marib, em 4 de março de 2021

Os rebeldes huthis do Iêmen recusaram nesta segunda-feira (22) uma proposta de cessar-fogo da Arábia Saudita no catastrófico conflito de seis anos que vive o país na Península Arábica, insistindo que primeiramente o bloqueio aéreo e marítimo contra eles seja suspenso.

"A Arábia Saudita deve declarar o fim da agressão e suspender o bloqueio completamente, já que apresentar ideias que foram discutidas por mais de um ano não é nenhuma novidade", afirmou o porta-voz dos huthis, Mohamed Abdelsalam, de acordo com a televisão rebelde Al Masirah.

Esta resposta surgiu logo após uma proposta da Arábia Saudita de "um cessar-fogo abrangente em todo o país sob a supervisão das Nações Unidas", de acordo com um comunicado de Riade, que apoia forças leais ao governo iemenita no conflito.

Riade também propôs a reabertura do aeroporto de Sanaã, capital do Iêmen, que encontra-se nas mãos dos rebeldes, e a retomada das negociações políticas entre o governo iemenita e os huthis, segundo o comunicado.

Recentemente, os rebeldes estabeleceram como condição para qualquer processo de diálogo a reabertura total do espaço aéreo e marítimo do Iêmen, controlado pela Arábia Saudita.

O governo iemenita aplaudiu a iniciativa de Riade em um comunicado do Ministério das Relações Exteriores.

- "Queremos que as armas sejam silenciadas" -

"Queremos que as armas sejam completamente silenciadas", disse à imprensa o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, o príncipe Faisal bin Farhan.

"A iniciativa entrará em vigor quando os huthis a aceitarem", acrescentou.

Em abril de 2020, a coalizão militar liderada pela Arábia Saudita iniciou um cessar-fogo no Iêmen para evitar a disseminação do coronavírus, mas os huthis consideraram a medida uma manobra política.

Esta proposta surgiu no contexto de vários ataques de drones e mísseis no reino, alguns deles contra instalações de energia, reivindicados pelos insurgentes.

Os huthis estão envolvidos em uma ofensiva para conquistar Marib, uma cidade estratégica no norte do Iêmen, que é o último reduto do governo naquela parte do país.

A perda de Marib representaria um duro golpe para o governo e para Riade, mas também para os civis, já que os campos da região abrigam ao menos um milhão de deslocados. Além disso, os combates deixaram dezenas de mortos nos dois lados.

Se os insurgentes tomarem a cidade, poderão contar com uma nova fonte de renda e com uma posição de força em eventuais negociações.

Nos últimos dias, os combates se intensificaram e os rebeldes se apoderaram de uma posição estratégica. Um responsável militar pró-governo disse à AFP que Marib estava "em risco", embora os bombardeios da coalizão possam dificultar uma conquista rápida da cidade.

A força aérea da coalizão promoveu dezenas de bombardeios contra posições dos rebeldes, que responderam atacando Riade com drones e provocando um incêndio em uma refinaria de petróleo.

"Esta proposta pública de cessar-fogo [por parte de Riade] busca forçar os huthis a dizer 'sim' ou 'não' publicamente", declarou à AFP Elana DeLozier, analista do Washington Institute for Near East Policy.

"O repúdio à proposta permite à coalizão chefiada pela Arábia Saudita dizer que o problema são os huthis", especialmente aos Estados Unidos, acrescentou DeLozier.

A ONU qualifica a guerra no Iêmen como sendo a pior crise humanitária atual do mundo e alertou no mês passado que a batalha de Marib poderia ter consequências terríveis para os civis.

O conflito deixou dezenas de milhares de mortos e milhões de deslocados, segundo as organizações internacionais.

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