Rebeldes do Tigré descartam 'banho de sangue' na capital etíope

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Banda militar marcha em Adis Abeba em 7 de novembro de 2021 em apoio às forças etíopes (AFP/Eduardo Soteras)

Os rebeldes do Tigré descartaram a possibilidade de um "banho de sangue" em Adis Abeba, caso decidam entrar na capital etíope para derrubar o governo de Abiy Ahmed, estimando que a população da capital etíope "não se opõe ferozmente" a eles.

Dezenas de milhares de etíopes, porém, juraram neste domingo (7), durante um comício pró-governo na Praça Meskel, que defenderão a capital Adis Abeba dos rebeldes e denunciaram os esforços diplomáticos internacionais para encerrar o conflito no norte do país.

Mas, para o porta-voz da TPLF, Getachew Reda, "dizer que o povo de Adis se opõe ferozmente a nós é totalmente exagerado", disse em entrevista à AFP.

"Adis Abeba é um caldeirão de raças. Ali vivem pessoas com todos os tipos de interesses. Dizer que haverá um banho de sangue se entrarmos é absolutamente ridículo. Não acredito nessa hipótese", declarou.

Já o governo etíope negou que os rebeldes tenham feitos grandes avanços ou que ameacem a capital. No entanto, na terça-feira, decretou estado de emergência em todo o país, para proteger a população da TPLF e seus aliados do Exército de Libertação Oromo (OLA). Também convocou seus habitantes a defender a cidade.

A tensão atual fez com que os Estados Unidos ordenassem no sábado a partida do pessoal não essencial de sua embaixada na Etiópia.

A decisão foi tomada, "devido ao conflito armado, aos distúrbios civis e à possível escassez", justificou o Departamento de Estado americano em um comunicado.

Arábia Saudita, Noruega, Suécia e Dinamarca também pediram aos seus nacionais que deixassem o país.

E o papa Francisco pediu neste domingo um grande esforço diplomático para encerrar o conflito. "Renovo o meu apelo ao caminho da paz e da harmonia fraterna para que o diálogo prevaleça", afirmou os fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano.

Na sexta-feira (5), o Conselho de Segurança da ONU pediu "o fim das hostilidades e a negociação de um cessar-fogo duradouro", em uma rara declaração conjunta desde o início dos combates, há um ano.

No último final de semana, a Frente de Libertação Popular do Tigré (TPLF) reivindicou a captura de duas cidades estratégicas, a 400 quilômetros da capital.

Na entrevista à AFP, o porta-voz da TPLF enfatizou que tomar a capital não é "um objetivo": "Não estamos particularmente interessados em Adis Abeba, queremos ter certeza de que Abiy não representa uma ameaça para o nosso povo".

Mas se o primeiro-ministro não deixar o poder, "é claro" que os rebeldes tomarão a cidade, acrescentou.

Segundo ele, os rebeldes avançam para o sul e "aproximam-se de Ataye", 270 quilômetros ao norte da capital, e também para o leste em direção a Mile, município situado na estrada que leva ao Djibuti e que é fundamental para o abastecimento de Adis Ababa.

A TPLF não quer tomar o controle do país, que dirigiu com mão de ferro entre 1991 e 2018, garantiu. "Queremos apenas que a voz de nosso povo seja ouvida, que exerça seu direito à autodeterminação".

A TPLF dominou as estruturas políticas e de segurança da Etiópia por 27 anos, depois de tomar Adis Abeba e derrubar o regime militar-marxista de Derg em 1991.

Após meses de tensão, Abiy Ahmed, Prêmio Nobel da Paz de 2019, enviou o exército ao Tigré em novembro de 2020 para expulsar as autoridades regionais da TPLF, a quem acusou de atacar bases militares.

O conflito já deixou milhares de mortos e centenas de milhares de deslocados e mergulhou o norte do país em uma profunda crise humanitária.

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