Rebelião mais sangrenta do Equador joga luz sobre expansão de cartéis mexicanos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A rebelião mais sangrenta da história do Equador, que soma até agora 118 mortos, lançou luz sobre um fenômeno que tem ajudado a desestabilizar o país: a presença de organizações criminosas internacionais, que se associam a grupos locais em busca de rotas privilegiadas de exportação de drogas para outros países.

Vizinho do maior produtor de cocaína do mundo, a Colômbia, o Equador se tornou um porto estratégico para escoamento da droga.

O motim de terça-feira (28) na Penitenciária do Litoral de Guayaquil colocou presos ligados à quadrilha dos Choneros, apoiada pelo cartel mexicano de Sinaloa, em confronto com grupos de outras gangues como os Tiguerones, os Lobos e os Lagartos, apoiados pelo CJNGC (Cartel de Jalisco Nueva Generación), também do México.

Resultado: a ferocidade expressa em vídeos de decapitações que circularam em redes sociais --como a do filho de Ermes Duarte, 71, que saiu da zona rural de Salitre, a 50 quilômetros de distância, para se juntar às centenas de pessoas que se aglomeravam na porta do presídio em busca de notícias de parentes.

"Faltavam 15 dias para meu filho deixar a prisão. Vim porque vi um vídeo, que me mandaram pelo celular, em que eu reconheci a cabeça dele", disse à agência de notícias AFP.

Não foi só a rebelião mais violenta do Equador, como também uma das mais cruéis do continente, superando até o massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 presos foram assassinados em São Paulo.

A situação nos presídios do Equador tem piorado a passos largos. O sociólogo Fredy Rivera, especialista em segurança pública, chama a atenção para a velocidade do aumento da violência. Em 2014, segundo ele, houve 3 mortos em conflitos no sistema carcerário do país, número que subiu para 11 em 2016, superou os 50 em 2019 e agora passa de 200 neste ano.

O conflito mais violento até aqui tinha ocorrido em fevereiro, quando rebeliões simultâneas mataram 79 pessoas em penitenciárias equatorianas. Meses depois, em julho, outras rebeliões deixaram mais 22 mortos.

Outro episódio recente evidencia a gravidade do problema, ainda que tenha terminado sem vítimas. Há pouco mais de duas semanas, um drone lançou explosivos no mesmo complexo penitenciário de Guayaquil, o que deixou clara a falta de controle de autoridades para lidar com a situação carcerária, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.

Na ocasião, o Snai, órgão responsável pela administração de presídios, escreveu no Twitter: "É grave, estamos em meio a uma guerra entre CARTÉIS INTERNACIONAIS", em letras maiúsculas, dizendo que o ataque mirava chefes de quadrilhas.

Os cartéis mexicanos se instalaram no Equador por volta do ano 2000, com o aumento da repressão na cadeia de produção da cocaína na Colômbia, diz o coronel Mario Pazmiño, ex-diretor de inteligência do Exército do país.

"Esses grupos são atraídos por fatores como o sistema de segurança deficitário, a corrupção entranhada no país, o baixo controle das fronteiras e a economia muito frágil, dolarizada", diz.

Eles, porém, não agem diretamente, mas se associam a quadrilhas locais para explorar as rotas privilegiadas de exportação da droga, principalmente para a América Central, de onde depois segue para os Estados Unidos e a Europa.

O Equador não produz cocaína, mas por seu território passam 37,5% de toda a produção da Colômbia, o equivalente a 700 toneladas por ano, segundo Pazmiño. A disputa se dá, então, principalmente pelo controle do armazenamento e das rotas de escoamento da droga.

São palcos de confrontos mais violentos as províncias de Manabí, na costa, e Guayas (onde fica o presídio rebelado nesta semana), com seus grandes portos.

No julgamento em 2019 de Joaquín Guzmán, o El Chapo, antigo chefe do cartel de Sinaloa, foi detalhada a importância do Equador como ponto de distribuição internacional de cocaína. Foi depois da prisão dele, aliás, que o CJNG se expandiu aceleradamente mundo afora e começou a fazer acordos com outras quadrilhas no Equador, levando à guerra atual.

Favorece a penetração do crime a corrupção sistêmica do país, segundo os especialistas. Em 2003, o ex-governador de Manabí César Fernández foi preso com mais de 400 quilos de cocaína que seriam destinados ao cartel de Sinaloa, segundo as investigações.

Em julho deste ano, Fausto Cobo, então diretor do sistema penitenciário e hoje chefe do serviço de inteligência do país, foi às redes sociais acusar a presença do crime no poder.

"A crise carcerária é efeito da presença avassaladora no Estado de todas as atividades, diretas e afins, do narcotráfico, com influência e infiltração em todos os seus elementos estruturais: território, governo, poder público, instituições", escreveu.

Além dos mexicanos, chefes do crime colombiano também operam no país, incrementado por dissidências das Farc consolidadas após o acordo de paz de 2016. Há a preocupação também de que quadrilhas brasileiras cheguem ao Equador, já que a inteligência equatoriana tem registro da presença das facções PCC e Comando Vermelho em locais ao sul da Colômbia, próximos da fronteira.

Em meio a essa guerra, as organizações criminosas encontraram nos presídios um bom negócio. "O controle das penitenciárias é defendido ao custo de muito sangue porque é lucrativo. Os presos pagam para os chefes por segurança, droga, armamento. Estima-se que cada pavilhão renda US$ 8.000 por dia", diz o coronel.

A situação não é muito diferente da que é vista no Brasil, segundo Fredy Rivera. "Dos presídios é que se organiza o negócio milionário do crime, no qual se operam assaltos, sequestros, contrabando, contratação de assassinatos. Não importa que estejam presos. Não há organização prisional, é uma desordem", diz.

Para o pesquisador, o problema se dá pela ineficiência do Estado, agravada pela decisão do então presidente Lenín Moreno de extinguir e desmembrar o Ministério da Justiça, em 2018.

"O órgão regulava os presídios no país. Com isso, ele suprimiu os recursos para controle penitenciário, trocou pessoal técnico das prisões, com mudanças em diretorias, e abandonou o tema carcerário como política de segurança. Hoje o Equador praticamente não tem mais inteligência criminal nem penitenciária", diz.

Nesta sexta (1º), o governo federal destacou 3.600 militares para garantir a segurança do sistema penitenciário no país, anunciou a ministra do Interior, Alexandra Vela.

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