Recém-formada em Medicina, Ana Claudia Michels atua na linha de frente na luta contra a Covid-19: 'Nenhuma aula nos prepara para algo do tipo'

Gilberto Júnior
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Ana Claudia Michels chega para a batalha no pior momento da pandemia no Brasil. Formada em Medicina desde o fim de 2019, a catarinense, residente no Hospital Albert Einstein, começou a dar plantão num posto de saúde, da Zona Sul de São Paulo, na última quinta-feira, lidando diretamente com dezenas de casos de Covid-19. “Nenhuma aula nos prepara para algo do tipo. Vou aprender muito com a vida, no dia a dia”, conta a médica, de 39 anos. “Mas tive bons preceptores ao longo dessa jornada, iniciada em 2013. Encontrei muita gente inspiradora pelo meio do caminho. Estou pronta para a luta.”

Mãe de Iolanda, de 4 anos, e Santiago, de 2, Ana Claudia não entrou nessa história sem medo, acreditando ter super poderes. “Claro que tenho meus temores. Essas últimas variantes do coronavírus me assustam. Também fico aflita por causa dos meus filhos, de faltar para os meninos”, diz ela. “Aliás, criei um rito para não contaminar minha família. Tiro a roupa inteira no hall, tomo um banho potente e sigo todos os outros protocolos de segurança. Não saberia ficar longe das crianças. Não sei quem necessita mais de quem.”

Modelo de sucesso desde os 14 — com trabalhos para as marcas Louis Vuitton, Givenchy, Versace e Gucci no currículo, além de capas para as edições italiana, francesa e inglesa da revista Vogue —, a catarinense afirma que seu “sonho” sempre foi ser médica. “Mas minha carreira na moda deu tão certo, que fui adiando essa vontade. Por um instante, imaginei que não teria mais tempo, que estava ‘velha demais’ para tentar uma carreira diferente. Fiz um cursinho para ver se teria condições de encarar uma faculdade; e vi que seria possível, sim.”

A ideia inicial de Ana Claudia, presença cada vez mais rara nas passarelas (“Não estou aposentada. Só que prefiro passar minhas horas livres com meus filhos”, observa), era seguir o caminho da endocrinologia, mas acabou mudando de planos e, hoje, quer concentrar seus esforços na clínica médica ou geriatria. “Não me considero uma versão da Madre Teresa de Calcutá. Estudei Medicina porque existia esse desejo dentro de mim, eu quis isso... Eu me sinto felizarda em estar ocupando esse lugar. Sou completamente apaixonada por meu ofício”, comenta a médica.

Antes do fim da conversa, por telefone, a top traça um panorama da atual situação da profissão. “Há uma corrente que pensa que somos frios, mas somos objetivos, na verdade. No SUS (Sistema Único de Saúde) não conseguiríamos ser eficientes se as consultas fossem intermináveis”, analisa. “Sou paciente e sei que as pessoas que procuram atendimento estão fragilizadas. Porém, acredito que dá para aliar muitas doses de técnica com gotinhas de humanidade e empatia.” A moda e a medicina agradecem.