Recém-nascida morre no Hospital de Saracuruna e família denuncia falta de ambulância para fazer transferência; prefeitura nega

Cíntia Cruz
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Juntos há 15 anos, a auxiliar de produção Josicleide Ferreira, de 32 anos, e o pedreiro Antônio Pontes Gonçalves, de 34, iriam finalmente realizar o sonho de ter um casal de filhos. O mais velho tem 13 anos e a caçula, Laura Vitória, era aguardada para novembro. Mas o sonho virou pesadelo. A menina, que nasceu no último dia 27, morreu três dias depois, no Hospital Adão Pereira Nunes, o Hospital de Saracuruna, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Segundo Antônio, a filha deveria ter sido transferida para outro hospital, mas não havia ambulância para transportar a criança. A Prefeitura de Duque de Caxias nega a informação.

— No dia 27, à noite, a médica disse que ela seria transferida para o Hospital (Universitário) Pedro Ernesto, porque tinha nascido sem oxigênio no cérebro e lá seria mais bem cuidada. Mas não tinha ambulância para fazer a transferência — denunciou Antônio.

Josicleide se sentiu mal na noite de domingo, dia 25 de outubro. Antônio correu com a mulher para o Hospital de Saracuruna, onde ela ficou internada, após ser constatada diabetes. Laura nasceu dia 27.

Antônio também denunciou a falta de profissionais na UTI neonatal e disse que presenciou quando a bebê teve uma convulsão, mas não havia funcionários:

— Quando cheguei na UTI neonatal, não tinha ninguém em volta da bebê. Ela estava tendo convulsão, toda se tremendo, como se estivesse em choque, e não tinha ninguém tratando. Depois de muito tempo, chegaram uma médica e duas enfermeiras.

No dia 28, Laura teve uma pequena melhora, Mas quando Antônio voltou ao hospital, no dia seguinte, soube que o quadro da filha era grave.

— Dia 28, falaram que ela estava bem, coração e pulmão funcionando direitinho e que estava sedada por causa das convulsões. Dia 29, por volta das 10h, a médica disse que ela estava sem fazer xixi e que iam dar remédios para os rins funcionarem. Voltei às 20h e ela ainda não tinha feito xixi. A médica disse que o estado era grave e que ela tinha tido uma parada cardíaca às 18h — contou o pedreiro.

Laura morreu às 6h15 do dia 30. Antônio acredita que o parto normal foi forçado e que isso prejudicou o estado da criança:

— Na segunda-feira, na parte da tarde, deram medicação para que minha mulher voltasse a sentir contrações. A bebê nasceu quase 17h de terça. O parto normal foi forçado. Ela falou que eram quatro ou cinco pessoas em cima dela, forçando. Teve um momento em que ela não aguentava mais.

O berço de Laura ainda está montado, as roupas permanecem intactas. O casal busca forças para superar a dor da perda da filha caçula.

— Planejamos muito essa filha. Desde o primeiro mês de gravidez que a gente trabalha só para ela. Quem tem dado forças para a gente é Deus. Saracuruna é o pior hospital do mundo.

Falta de atenção e de materiais

Antônio disse ainda que a alta médica de Josicleide foi comunicada por telefone à portaria. Isso porque não havia papel para que o procedimento fosse atestado.

— Na sala da portaria, o funcionário perguntou sobre o papel da alta. Voltei no andar onde minha mulher estava internada e a funcionária liberou por telefone porque estavam sem papel — reclamou Antônio, que também fez outra denúncia em relação à UTI neonatal:

— Percebi algo ali dentro da neonatal: as crianças chegam ali e ninguém dá atenção.