Recepção a neta de nazista lembra missão de motoqueiros em 'Bacurau'

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DRESDEN, GERMANY - APRIL 10: Leading member of the right-wing Alternative for Germany (AfD) political party Beatrix von Storch shoots a selfie as she attends the AfD federal party congress on April 10, 2021 in Dresden, Germany. AfD delegates are meeting ahead of German federal elections scheduled for September. The party is launching its political election campaign under the motto
A líder ultradireitista da Alemanhã Beatrix von Storch. Foto: Sean Gallup (via Getty Images)

Em uma cena antológica do filme “Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, dois motoqueiros brasileiros passam a um grupo de supremacistas estrangeiros informações sobre um pequeno povoado no sertão do Nordeste prestes a ser dizimado em uma espécie de safári humano.

Durante o jantar, eles tentam explicar por que se identificam mais com os agressores do que com os conterrâneos nordestinos. Contam que são do Sul, a região mais rica do país, e possuem ascendência europeia. Nada a ver com os moradores de Bacurau.

O destino dos entreguistas não vale o spoiler. Mas dá para adiantar que eles não acabam bem.

Na semana passada, a deputada Beatrix von Storch, líder da ultradireita alemã e neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler, foi recebida sem constrangimentos pelos supostos pares na América do Sul. Posou para fotos ao lado dos deputados Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF) e conseguiu uma brecha na agenda extraoficial do presidente Jair Bolsonaro.

O que eles tinham a conversar não se sabe.

Beatrix von Storch é figura conhecida em seu país. Já afirmou, em uma rede social, que pessoas de religião muçulmana são “hordas de homens bárbaros” e “estupradores”. Ela já defendeu que a polícia alemã atirasse em imigrantes, incluindo mulheres e crianças, que tentassem entrar ilegalmente no país. (O raciocínio, até onde se sabe, não exclui brasileiros).

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Como os chefes do seu avô, Von Storch é uma incansável militante contra direitos da população LGBTQI+, como casamento homoafetivo, e atribuiu parte dos problemas em seu país à presença de milhões de africanos. O avô, uma das estrelas do projeto que levou milhões de judeus, os “imigrantes da época”, para os campos de concentração e trabalhos forçados, não a recriminaria.

Os sorrisos sem cerimônia com os quais foi recebida no Brasil mostram que não tem nada no atual governo que não possa piorar, mesmo quando a expectativa é próxima de zero. 

Não faz muito, um secretário da Cultura precisou ser demitido após dar bandeira demais de suas inclinações ideológicas ao copiar o discurso de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda da Alemanha Nazisista, em um pronunciamento para a nação ao som de Wagner, o compositor favorito do facínora.

Quem intermediou o encontro da neta do ex-ministro de Hitler com o presidente foi o deputado estadual de São Paulo Gil Diniz (sem partido), noticiou a colunista Mônica Bergamo. Segundo ele, a ideia era trocar figurinha sobre o movimento conservador (sic) pelo mundo.

Diniz jura que a líder ultradireitista é gente "boníssima" e não pode ser responsabilizada por ações de seus antepassados. Ok, mas ela ajudaria a se livrar desse passado se não estivesse tão empenhada em atualizá-lo.

Quem entende duas linhas do que foi a experiência nazista na Europa compreende o esforço dos antepassados da deputada em tirar de judeus e outras minorias do país o que todos temos de mais valioso: a humanidade.

Quando esse elemento é sufocado por camadas de discursos e mais discursos de ódio, já não há quem lamente por suas vidas. Não por acaso, os “inimigos” da pátria eram representados como ratos, portanto elimináveis, no processo de "limpeza" e "purificação" pelo qual passou a Alemanha nazista.

A atualização dessa estratégia, seja para falar sobre imigrantes, seja para falar de opositores políticos, minorias, moradores das periferias e grupos sociais marginalizados coloca no mesmo gabinete o que geográfica e historicamente deveriam estar separados por dimensões atlânticas.

Não à toa, a visita foi repudiada pelo Museu do Holocausto e outras entidades judaicas.

Para Diniz, existe preconceito contra a líder ultrapreconceituosa pelo fato de ela ser mulher e alemã. “A xenofobia é dos brasileiros”.

Os motoqueiros entreguistas e traídos de “Bacurau” bateriam palmas orgulhosos.

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