Após recorde de mortes por COVID-19, Brasil amplia tratamento com cloroquina

Por Eugenia LOGIURATTO, com Beatriz LECUMBERRI em Paris
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Médico exibe cartelas com cloroquina e hidroxicloroquina, medicamentos testados para a COVID-19 no Instituto Mediterrâneo de Doenças Infecciosas em Marselha, França, 26 de fevereiro de 2020

O Brasil, que superou pela primeira vez a triste marca de mil mortes diárias pelo novo coronavírus na terça-feira, abriu nesta quarta (20) a porta ao uso da cloroquina para casos leves da COVID-19, que segue avançando em Chile, Peru e outros países da América Latina, mas parece estar cedendo na Europa.

O novo coronavírus matou 320.000 pessoas em todo o mundo, afetando quase cinco milhões de pessoas e continua se expandindo. A Organização Mundial da Saúde anunciou nesta quarta que o maior número de casos de COVID-19 em um único dia foi registrado em particular em Estados Unidos, Brasil, Rússia, Arábia Saudita, Índia, Peru e Catar.

A pandemia paralisou a vida de mais da metade da humanidade, fez naufragar as economias e provocou um medo da vida em sociedade que vai demorar para desaparecer.

Na Europa e na Ásia, a esperança de recuperar pouco a pouco a vida normal convive com o temor de uma segunda onda, mas na América Latina e nos Estados Unidos, o pior pode estar por vir, segundo especialistas.

Entre segunda e terça-feira, o Brasil registrou 1.179 mortes pelo novo coronavírus, a pior cifra diária desde o começo da pandemia.

Nas últimas 24 horas, foram registrados 888 novos óbitos, elevando o total no país a 18.859, e 19.951 novos casos, somando 291.579.

O Brasil é o país mais afetado da América Latina e o terceiro mais castigado do mundo em número de contágios, depois de Estados Unidos e Rússia. No entanto, a realidade pode ser muito pior, já que os especialistas afirmam que os números reais poderiam ser até 15 vezes superiores devido à escassez de testes de diagnósticos.

O pico da pandemia está previsto para o começo de junho no país de 210 milhões de habitantes, que abarca mais da metade dos mais de 30.000 mortos de América Latina e Caribe.

- Aumento de contágios na América Latina -

São Paulo, o estado mais rico e populoso do Brasil, é o epicentro da doença, com 69.859 casos e 5.363 mortos. É seguido do Rio de Janeiro, com 3.237 óbitos e 30.372 contágios.

Em estados do norte e do nordeste, como Ceará, Amazonas e Pernambuco, a propagação da doença provoca situações dramáticas e asfixia os sistemas de saúde.

Apesar desta situação, o presidente Jair Bolsonaro continua se opondo às medidas de quarentena e distanciamento social, implementadas em vários estados e municípios.

Em poucas semanas, Luiz Henrique Mandetta e seu sucessor, Nelson Teich, deixaram o comando do ministério da Saúde por divergências com Bolsonaro sobre a gestão da pandemia. Agora, o ministério é dirigido interinamente pelo general Eduardo Pazuello.

Bolsonaro, que minimiza a COVID-19, e chegou a chamá-la de "gripezinha", considera que uma paralisação da economia no Brasil poderia causar danos maiores que a própria pandemia.

O ministério da Saúde estendeu nesta quarta-feira a recomendação do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina em pacientes com sintomas leves do novo coronavírus, combinadas com o antibiótico azitromicina, atendendo a um apelo de Bolsonaro, apesar de o medicamento dividir a comunidade mundial sobre sua eficácia contra o novo coronavírus.

A prescrição do medicamento, usado para tratar outras doenças, como a malária, só era recomendada até agora para os casos graves de COVID-19.

Segundo um documento divulgado pelo Ministério da Saúde, sua utilização ficará "a critério do médico" e requer também "a vontade declarada do presidente".

Assim como Bolsonaro, o presidente americano, Donald Trump defende a utilização da medicação e revelou que toma diariamente de forma preventiva um comprimido de hidroxicloroquina.

O Peru, o segundo país da América Latina com o maior número de contagiados por COVID-19, superou nesta quarta os 100.000 casos confirmados e superou os 3.000 mortos, informou o Ministério da Saúde.

E no Chile, o número de contágios diários disparou, chegando a 4.038 novos casos, elevando o total de infectados pelo novo coronavírus a 53.617 pessoas desde março, entre elas 544 falecidos.

- Protestos no Chile -

Dezenas de moradores da comuna de classe operária La Pintana, no sul de santiago, protestaram nesta quarta-feira pela falta de trabalho e comida, desafiando a quarentena total, decretada para conter o novo coronavírus, que atingiu com mais força as áreas carentes.

"Se o vírus não nos matar, a fome mata", dizia um dos cartazes.

As autoridades da capital chilena, onde mais de 90% dos leitos de terapia intensiva estão ocupados, optaram por transferir os pacientes a outras províncias do país.

Na vizinha Bolívia, o ministro da Saúde, Marcelo Navajas, foi detido pela compra superfaturada de respiradores de fabricação espanhola para pacientes com coronavírus e foi exonerado pela presidente interina Jeanine Áñez, que enfrenta o maior escândalo de corrupção em seis meses no governo.

Além do custo humano, a pandemia de COVID-19 pode provocar uma contração de 5,2% do PIB este ano na economia sul-americana, segundo o último informe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).

Na Argentina, a atividade econômica caiu 11,5% em março, com relação ao mesmo mês de 2019, apesar de a quarentena obrigatória só ter começado em 20 de março.

Cuba, cuja economia depende em grande medida do turismo, também sofre para manter fechadas suas fronteiras desde 24 de março.

Diante desta crise, o governo quer suspender até 2022 o pagamento de sua dívida com o Clube de Paris, o grupo de 14 países credores de Havana, principalmente europeus (França, Espanha, Reino Unido, Itália), que também inclui Japão, Austrália e Canadá.

O impacto do novo coronavírus pode limitar pela primeira vez em décadas o índice de desenvolvimento humano - que mede conjuntamente a educação, a saúde e a qualidade de vida - , alertou nesta quarta-feira o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

- Ouvir o som das ondas -

Na Europa, onde a pandemia matou 168.000 pessoas, os balanços de mortes diárias diminuem e pouco a pouco as restrições vão sendo suspensas.

Na Espanha, nas praias de Barcelona, que já estavam abertas por algumas horas para a prática de esportes, foi ampliado o horário nesta quarta-feira e também foram autorizados os passeios na areia, embora ainda não seja permitido o banho de mar.

"É como um prêmio, não posso acreditar", diz Adriana Herranz, de 33 anos. "Fazia dois meses que não via o mar (...) Ouvir o som das ondas, passear um pouco pela praia... Tínhamos muita vontade", explica também Helena Prades, psicóloga de 43 anos.

Pouco a pouco, os países do Velho Continente abrem suas fronteiras aos turistas da União Europeia, com o ânimo de reativar este setor-chave de suas economias.

O mesmo acontece na Ásia, o continente onde a pandemia surgiu em dezembro, na cidade chinesa de Wuhan. Nesta quarta-feira, na Coreia do Sul, centenas de milhares de estudantes voltaram às escolas depois de uma paralisação de mais de dois meses.

Já nos Estados Unidos, o país mais afetado pela pandemia, o número de óbitos vai passar de 113.000 em meados de junho, segundo estimativas publicadas na terça-feira pelo Centro de Prognóstico COVID-19 da Universidade de Massachusetts.

Segundo balanço atualizado às 20h30 locais (21h30) desta quarta-feira pela Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, os Estados Unidos registraram 1.561 novas mortes nas últimas 24 horas.

Com esta atualização, o país soma 93.406 mortos por COVID-19 e 1,55 milhão de casos desde o começo da pandemia.

O presidente americano, Donald Trump, voltou a atribuir novamente à "incompetência" da China o "massacre" provocado pela pandemia.

Enquanto os balanços se agravam, laboratórios e cientistas de todo o mundo trabalham na fabricação de uma vacina ou um medicamento que permita às pessoas voltar a sair às ruas sem medo, embora seja preciso aguardar vários meses antes para se obter um remédio seguro.

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