Recuo na vacinação infantil é desafio para o mundo todo

Acendeu o alerta vermelho no prontuário de vacinação infantil. Em meio à pandemia de Covid-19, os índices sofreram o maior retrocesso em 30 anos, revelaram neste mês o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Considerando a cobertura contra 11 doenças, o percentual recuou de 71% em 2019 para 68% no ano passado. O mais preocupante não são apenas os três pontos percentuais, mas ser a primeira vez, em uma geração, que se anda para trás.

A queda se mostra ainda mais acentuada para vacinas específicas. O índice de cobertura da tríplice bacteriana (DTP), que protege contra difteria, tétano e coqueluche, caiu cinco pontos percentuais no período (de 86% para 81%, pior marca desde 2008). No mundo, as crianças que não receberam a primeira dose ou não completaram o esquema da DTP foram de 19 milhões em 2019 para 25 milhões em 2021 — a maioria em países de renda média ou baixa (os piores índices estão na Nigéria, Etiópia, Indonésia e Filipinas).

No Brasil: Baixas taxas de vacinação ameaçam o retorno de doenças erradicadas e controladas

Também chama a atenção a baixíssima cobertura da vacina contra o papilomavírus humano (HPV), que protege de doenças graves como câncer de colo do útero. Apenas 15% das crianças receberam a primeira dose no ano passado. Como a vacina é relativamente nova e não é usada em larga escala, corre-se o risco de perder o esforço de imunização já realizado.

São vários os fatores que contribuíram para o retrocesso. Um deles, a pandemia de Covid-19, que impôs quarentenas, com impacto na logística sanitária. A própria OMS afirma, porém, que isso não pode servir como desculpa, pois alguns índices já estavam estagnados. Não devem ser desprezados o contingente de crianças em áreas de conflito, a atuação de grupos antivacina, as mentiras disseminadas pelas redes sociais e a hesitação daqueles que pensam não haver mais risco de contrair certas doenças, ignorando que elas só estão controladas devido à vacinação. Na semana passada, os Estados Unidos confirmaram o primeiro caso de poliomielite após quase uma década.

Opinião: É urgente vacinar mais crianças contra a Covid

No Brasil, a situação não é muito diferente. Embora em tese não faltem vacinas, os índices de cobertura estão perigosamente baixos. O relaxamento tem se revelado trágico. O sarampo, que era considerado erradicado no Brasil, reapareceu na Região Norte em 2018 e se espalhou por quase todo o país. Não é improvável que o mesmo aconteça com outras doenças hoje controladas, caso da pólio.

Uma das preocupações da OMS e do Unicef é o aumento populacional, principalmente nos países de baixa renda, que geralmente apresentam índices mais baixos de cobertura vacinal. A perspectiva exige esforço maior para elevar os percentuais de vacinação.

No mundo, as vacinas têm operado milagres na erradicação ou no controle de doenças. Esse trabalho não pode ser perdido. Num momento de arrefecimento da Covid-19 — graças à vacinação —, as forças-tarefas arregimentadas em todos os países deveriam ser aproveitadas para ampliar também a vacinação contra outras moléstias. Depois da pandemia devastadora, que matou milhões em todo o planeta, é impensável ressuscitar doenças que a humanidade deixou para trás. Como disse a diretora executiva do Unicef, Catherine Russell, “as consequências serão medidas em vidas”.

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