Recuperação de estação no Caju promete retirar esgoto da Baía

A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Alegria, no Caju, na Zona Portuária, inaugurada há mais de duas décadas como a principal do Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, jamais atingiu a capacidade máxima de operação anunciada pelos governantes. Longe disso. Há anos, a maior ETE do estado opera processando apenas 34% dos prometidos 5 mil litros de esgoto por segundo, que deveriam ser devolvidos tratados à Baía de Guanabara. Um ano após assumir os serviços da Cedae em 124 bairros da capital e mais 27 cidades do estado, a concessionária Águas do Rio promete mais que dobrar a produção da estação até 2026.

O esgoto tem que chegar

Para que essa não seja mais uma promessa a escorrer pelo ralo, a empresa afirma que investirá inicialmente R$ 30 milhões nos próximos anos. O planejamento prevê que a estação aumente de 1.700 para 3.600 litros de esgoto tratados, em média, por segundo, o que elevaria o número de pessoas atendidas dos atuais 510 mil para 1,08 milhão. A meta final, que remete aos números propagados à época da inauguração, em 2001, é atingir a capacidade máxima da estação até 2033, o suficiente para proporcionar para cerca de 1,5 milhão de cidadãos esgoto tratado, no Centro e na Zona Norte da cidade.

— A verdade é que, quando assumimos, a estação parecia um cenário de guerra. Muito mato, muitos equipamentos danificados ou inoperantes. Em um dos decantadores chegou a nascer uma pequena plantação de tomate. Começamos a limpar tudo, a substituir e recuperar peças sem deixar de operar. Em alguns momentos já chegamos a atingir picos de 2 mil litros de esgoto processados por segundo, mas ainda há muito trabalho — diz Alexandre Bianchini, diretor presidente da Águas do Rio, que não descarta, a longo prazo, a ampliação da capacidade original da ETE para até 7 mil litros por segundo. — É possível. Há novas tecnologias disponíveis e corremos atrás de inovação para aumentar a performance. Além disso, temos área ali para expandir e assim acompanhar o crescimento da população e as modificações de perfil do Centro da cidade que certamente demandam adequações da nossa parte.

Para que o aumento da capacidade da ETE Alegria se torne realidade, não basta que sejam feitas obras de recuperação dos equipamentos existentes. É preciso que o esgoto coletado chegue ao local onde deve ser tratado. Uma das grandes falhas do programa de despoluição foi a construção de estações de tratamento sem se preocupar com a implantação de tubulações. Resultado: as ETEs ficaram prontas, mas não havia esgoto para tratar. Atualmente, tubulações com dois metros de diâmetro percorrem caminhos vindos do Centro e da Zona Norte, a profundidades que podem chegar a até 19 metros da superfície, levando os dejetos. O Programa de Saneamento Ambiental (PSAM), sob a coordenação da Secretaria estadual do Ambiente e Sustentabilidade (Seas), trabalha na construção de outros dois troncos coletores: o de Manguinhos, com previsão de entrega no primeiro semestre de 2023, e o Faria Timbó, previsto para até julho de 2024.

— Nos dois casos estamos com quase 60% das obras já realizadas. No caso do Faria Timbó, surgiu uma dificuldade adicional devido ao tipo de rocha encontrado, por isso o prazo maior. Esse é um trabalho de grande porte e necessário para a cidade. Quando esses troncos estiverem ligados à Estação Alegria teremos como aumentar de fato o nível de esgoto tratado na cidade, o que vai ser importantíssimo para diminuir o nível de poluição na Baía de Guanabara — disse José Ricardo Brito, secretário estadual do Ambiente e Sustentabilidade.

De acordo com dados disponibilizados no site do PSAM, o tronco de Manguinhos terá 4,6 quilômetros de extensão e capacidade de captação de 1.293 litros de esgoto por segundo, abarcando 600 mil moradores de bairros como Bonsucesso, Benfica, Engenho Novo e Méier. Já o Faria Timbó terá capacidade de 1.049 litros por segundo num percurso de mais de seis quilômetros a partir de bairros como Piedade, Cascadura, Madureira, e Oswaldo Cruz, beneficiando 456 mil pessoas. Juntas, as duas obras consumirão cerca de R$ 260 milhões.

— Estamos nos preparando para ter capacidade de receber esse volume. Uma coisa depende da outra. Não adianta termos nossa capacidade máxima instalada disponível sem que o esgoto chegue — disse Pedro Ortolano, gerente de operação da ETE Alegria.

O trabalho iniciado pela Águas do Rio na Estação Alegria inclui desde a recuperação das estruturas de gradeamento grosso e fino — responsáveis por reter detritos sólidos que caso entrem no sistema podem causar danos à operação — até o sistema de bombeamento, as caixas de areia, os decantadores primários e todo o tratamento secundário, que inclui os tanques de aeração, onde é finalizado o processo antes que ele seja despejado, já tratado, no Canal do Cunha.

Dos cinco decantadores que compõem a primeira etapa do tratamento do esgoto que chega à estação Alegria, apenas um estava operando. A empresa afirma que há, no momento, 50 pessoas trabalhando na limpeza de resíduos nesses tanques que têm quatro metros e meio de profundidade. O trabalho é considerado chave para ampliar a capacidade de tratamento da estação.

Sem esperar milagres

Da mesma forma, a recuperação ou troca de equipamentos é uma urgência. Para se ter uma ideia de como era temerária a operação da ETE Alegria, dos cinco grupos de bombas encarregadas de alimentar o sistema, apenas um funcionava com toda sua capacidade, o que deixava a estação sob o risco de uma parada completa em caso de defeito.

— O objetivo final é ampliar, mas antes nosso foco estava em garantir a operação atual, não tinha como ser diferente. Hoje contamos com três dos cinco grupos já recuperados e disponíveis. Isso é mais que suficiente para trabalharmos com o volume atual e nos dá uma segurança operacional que não existia antes — disse Ortolano.

Para Paulo Canedo, professor de Recursos Hídricos da Coppe/UFRJ, a prometida ampliação da capacidade da Estação Alegria é uma boa notícia, mas não deve criar falsas expectativas.

— A empresa que assumiu a estação tem um compromisso formal com prazos e certamente está trabalhando nessa direção, mas não é possível esperar milagres. Certamente teremos avanço na qualidade da água na Baía de Guanabara, notadamente na região mais próxima à estação, porém isso não quer dizer que vai ficar bom. A situação acumulada ao longo dos anos é tão ruim que mesmo tendo um avanço extraordinário ainda ficará ruim. A melhoria vai ser visível, muito embora ainda insuficiente — avalia.

Além da estação Alegria, a concessionária Águas do Rio é responsável ainda pela ETE de São Gonçalo, onde também estão sendo realizadas obras de reforma, além de um estudo técnico sobre a viabilidade de ampliação da capacidade. No primeiro ano de operação, a empresa reformou e revitalizou as 26 estações elevatórias existentes na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio. Na Elevatória Hípica, a antiga tubulação foi substituída por uma nova, feita de aço carbono, mais resistente e durável e menos suscetível a vazamentos. A elevatória de São Conrado, responsável por bombear o esgoto do bairro e de parte da Rocinha, também passou por obras e teve sua capacidade aumentada.