Cálculos inéditos revelam como restaurar pastagens evita desmatamento no Brasil

Com a agenda ambiental em alta no governo eleito, o pasto degradado passou de perdição da floresta à salvação da lavoura para aumentar a produção agropecuária sem precisar desmatar. Pasto restaurado é comida no prato do brasileiro, garantem cientistas. As pastagens restauradas poderiam ainda ajudar a sequestrar CO2, o que é bom para a economia e o meio ambiente.

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Cálculos inéditos de cientistas da Universidade Federal de Goiás (UFG), integrantes da rede MapBiomas, estimam aumento de até 7,4% do carbono capturado com a recuperação de pastagens degradadas somente no Cerrado, onde estão um terço das áreas de pasto do país.

— A solução para os problemas ambientais do Brasil passa pelas passagens, seja no Cerrado ou na Amazônia — assegura Laerte Guimarães Ferreira, pesquisador do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (Lapig/UFG), responsável pelo Atlas das Pastagens da rede MapBiomas e autor de trabalhos pioneiros sobre o tema.

A recuperação de pastagens está nas declarações do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, nas discussões da COP27, assim como também consta dos compromissos assumidos pelo Brasil na COP26 e até agora distante de serem cumpridos. Mas, alertam especialistas, são necessárias políticas públicas para pagar a conta da restauração e tornar a terra com floresta em pé mais valiosa do que aquela com capim e solo pobre em cima.

Há até muito mais pasto degradado ou subutilizado do que os 30 milhões de hectares estimados tanto por Lula quanto pelo Plano ABC+ do atual governo, diz Ferreira.

Terra não falta, pois falar de pasto é falar de Brasil. Praticamente tudo o que foi desmatado no país já foi pasto em algum momento, salienta Ferreira. Estima-se que 35% do território brasileiro foram desmatados, desta área aproximadamente 90% foram ou são pastagem.

— Tem até mais que os tão falados 30 milhões de hectares, algo em torno de 45% das áreas de pastagem apresentam algum grau de degradação e parte considerável tem aptidão agrícola — afirma Ferreira.

Os cientistas do Lapig, referência nacional para monitoramento de pastagens, estimam em cerca de R$ 70 bilhões o valor necessário para restaurar as pastagens brasileiras degradadas. Mas o montante destinado pelo governo Bolsonaro no Plano Safra 2022/23 não chega nem perto disso. Dos R$ 340 bilhões totais do plano, apenas R$ 6,19 bilhões — ou 1,7% — são para a restauração de pastagens do ABC+.

Hoje, cerca de 20% do Brasil são pasto, mostra o Atlas das Pastagens. Há 160 milhões de hectares de pastagens no país, mas apenas 73,4 milhões (45,9%) não estão degradados. Isso equivale a dizer que as pastagens ocupam uma área maior do que as regiões Sul e Sudeste somadas. Mas do total de pastos, 23,6 milhões de hectares apresentam degradação severa e 63 milhões, intermediária.

Ferreira explica que o mapeamento de pastagens no Brasil é hoje extremamente preciso, com resolução de um hectare. Já a avaliação da qualidade, isto é, do nível de degradação, é um processo em constante revisão, mais complexo e dependente de dados de campo. A ciência brasileira tem hoje expertise de nível internacional para produzir conhecimento para melhor governança territorial. Mas não recebe recursos para tal.

A dimensão do desperdício é quase um Sudeste inteiro. É só tentar imaginar uma área comparável à dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais somados coberta apenas por terra desmatada e improdutiva. Nada além de capim minguado e solo empobrecido.

As áreas de pastagem parecem estáveis desde o início dos anos 2000, mas os números ocultam a dinâmica espacial, ressalta Claudinei Santos, do Lapig/UFG. Ele diz que 30 milhões de hectares de pasto mudaram de lugar. Algumas áreas que eram pastos se tornaram plantações. De 2000 a 2021, 14 milhões de hectares deixaram de ser pastagens e viraram soja, segundo dados do Lapig/MapBioma.

Mas outros pastos se abriram, sobretudo, na Amazônia e no Matopiba (acrônimo para as áreas de Cerrado do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Assim, o total é semelhante, mas oculta a abertura de novas frentes de desmatamento.

Maior exportador de carne bovina do mundo, o Brasil tem mais cabeças de gado do que de gente. Dados do IBGE mostram que em 2021, eram 224 milhões de cabeças de gado para 215 milhões de habitantes. Mas isso não significa que a pecuária seja eficiente. Ao contrário. O país produz pouco para o tamanho da área que dedica à pastagem. No Brasil, a média fica em torno de 1,3 cabeça de gado por hectare. É uma produtividade muito baixa, dizem cientistas.

O Brasil produz hoje 10 milhões de toneladas por ano de carne bovina. As mesmas dez milhões de toneladas poderiam ser produzidas com 30% da área atual de pastagem, destaca Victor Rezende, da Escola de Veterinária e Zootecnia da UFG, especialista em manutenção de pastagens. O país pode dobrar a produção, mas não teria mercado para tanto.

— Não existe mercado hoje para dobrar essa produção. Mas há terra disponível. E essa terra pode ser usada para a expansão da agricultura, da silvicultura e para a regeneração de vegetação nativa — complementa Ferreira.

Rezende enfatiza que não existe justificativa para a produção pecuária ter desmatado tanto no Brasil:

— O motivo é a terra. A área desmatada vale muito mais do que a florestada. Quando a floresta valer mais em pé do que no chão, não haverá mais desmatamento.

Eduardo Florence, consultor do Instituto Centro de Vida (ICV), diz que um hectare de mata no norte do Mato Grosso, por exemplo, custa entre R$ 5 mil a R$ 10 mil. Já um hectare “limpo”, desmatado, pode chegar até a cerca de R$ 100 mil. Restaurar custa entre R$ 2 mil a R$ 3 mil por hectare, mas pode alcançar R$ 30 mil dependendo do grau de degradação. E a necessidade de manutenção eleva o custo.

— A área de mata não dá benefício direto e ainda dá trabalho ao produtor rural. É difícil convencer alguém a restaurar sem compensação. Linhas de crédito especiais são uma opção promissora. Também é preciso apoio técnico — sublinha Florence.

Ele acrescenta que existem poucos interessados na floresta nativa porque as áreas desmatadas são economicamente mais interessantes na conjuntura atual. A pastagem é uma grande reserva de terra para o gado e para a soja.

— Falar é fácil. Fazer é complexo. Faltam políticas nacionais e internacionais para criar mercados para os serviços ambientais — acrescenta.

Para a vaca não ir para a Floresta Amazônica e para o Cerrado, é preciso virar a chave e tornar restaurar mais rentável do que desmatar, acentua Santos. Ele é o líder de um estudo que quantifica a capacidade de acúmulo de carbono nas pastagens.

A capacidade de estocar carbono está diretamente associada a ganhos de produção (mais alimento e nutrientes, melhor para o gado e a agricultura) e ambientais (sequestro de CO2).

O estudo começou pelo Cerrado porque nele estão cerca de 35% do rebanho e um terço das pastagens do país. E, com a moratória da soja na Amazônia, aumentou muito a pressão sobre o Cerrado. Resta apenas a metade do bioma e cientistas dizem não haver dúvida de que a pressão internacional para reduzir e até zerar o desmatamento só vai aumentar.

— Hoje as barreiras econômicas são ambientais. O trabalho do Claudinei Santos mostra em detalhes que, quando se recupera a pastagem, também se aumenta o estoque de carbono — explica Ferreira.

Segundo ele, 20% das pastagens do Cerrado têm alta aptidão para a soja, o que significa dizer que são áreas planas, com solo e clima favoráveis. É possível intensificar a pecuária e ter, pelo menos, o dobro do gado no mesmo espaço.

— É isso que queremos que ocorra. Não é preciso mais desmatar e o presidente Lula incorporou isso no discurso ainda na campanha, o que é muito bom — afirma Ferreira.

Recuperar áreas degradadas pode ser um grande negócio, mas precisa de linhas de crédito e de políticas públicas. Inclusive para selecionar as áreas que devem ser usadas para agricultura de outras que devem ser deixadas para regenerar o bioma original e, assim, pagar o passivo ambiental.