Recuperar de 30% da vegetação natural do planeta destruídas salvaria 70% das espécies ameaçadas

Rafael Garcia
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Mapa mostra mostra distribuição das áreas prioritárias (vermelho) para restauração de ecossistemas naturais
Mapa mostra mostra distribuição das áreas prioritárias (vermelho) para restauração de ecossistemas naturais

SÃO PAULO - Um novo estudo indica indica que 30% das áreas de vegetação natural convertidas em fazendas no mundo todo poderiam ser restauradas sem afetar a produtividade agropecuária e poderiam salvar da extinção 72% das espécies ameaçadas. Feito a pedido da CBD (Convenção da Diversidade Biológica da ONU), o trabalho definiu as áreas prioritárias para que esses números se concretizem.

O custo-benefício de regeneração dessas áreas, porém, varia conforme a região, e a pesquisa apontou onde estão as terras onde a recuperação de vegetação natural custa menos e traz mais benefícios. Os números mostram que o Brasil, conforme esperado, poderia se tornar uma potência da restauração de ecossistemas.

A meta proposta, além de proteger a natureza e salvar potencialmente quase 400 mil espécies terrestres, ajudaria a capturar cerca de metade de todo o carbono jogado na atmosfera nos últimos dois séculos, a causa do aquecimento global.

Liderado pelo ecólogo brasileiro Bernardo Strassburg, da PUC-Rio, o trabalho que calculou esses números juntou 27 cientistas de 12 países diferentes e deve subsidiar as negociações no encontro da CBD em 2021 para a adoção de metas de médio prazo, para 2030, e de longo prazo, para 2050. Um artigo descrevendo as conclusões do estudo sai na edição desta semana da revista científica "Nature".

Para chegar a essa conclusão, os cientistas cruzaram mapas mundiais da agropecuária com dados de espécies ameaçadas compiladas pela IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza), depois compararam o resultado disso com o custo de restauração em cada bioma. A definição de áreas prioritárias globais foi importante, porque elas se concentram sobretudo em países de clima tropical. A custo-efetividade da solução proposta de restaurar de 30% das áreas perdidas de vegetação natural não seria tão boa caso a proposta fosse que cada país restaurasse 30% de suas áreas naturais perdidas para a agricultura.

Recompor uma área tão grande de vegetação seria uma tarefa hercúlea, mas factível na escala de tempo até 2050. Em números absolutos isso significaria a restauração de 860 milhões de hectares, uma área similar a do território do Brasil, mas distribuída entre vários países do mundo. Para que isso seja possível, será preciso criar mecanismos internacionais de compensação às nações que investirem mais em programas de restauração. Para isso as negociações da CBD de 2021 em Kunming, na China, serão cruciais, bem como as negociações climáticas para redução da emissão de gases do efeito estufa.

Segundo Strassuburg, o Brasil pode aproveitar o peso diplomático que possui na área ambiental para fazer o acordo avançar. O agronegócio nacional, diz o cientista, não só não perderia dinheiro, como poderia ganhar, caso mecanismos de pagamentos por serviços ambientais compense produtores que investirem em restauração de vegetação natural. Área para isso não falta, explica o cientista:

— A pecuária no Brasil tem baixa produtividade, tem em média um boi por hectare enquanto, poderia ter três bois. Isso significa que caberia toda a produção em um terço da área que a gente usa. Como a pecuária é 75% daquilo que se desmatou no país, você pode expandir bastante a agricultura (soja cana etc.) para dentro das áreas de pastagem ao longo das próximas décadas e liberar bastante área para restauração, sem desmatar nenhum hectare.

No país, a maior parte das áreas com vocação para recuperação estão na Mata Atlântica, o bioma mais biodiverso do país e com maior proporção de área devastada. A Amazônia, porém, também tem grandes áreas candidatas a restauração, e pode ajudar muito na captura de carbono. E mesmo o Pantanal, um ecossistema com pouca massa de vegetação tem sua importância, porque ajuda a reter muito carbono no solo, explica Strassburg.

A depender do resultado das negociações na CBD e na cúpula do clima, há oportunidades importantes para o agronegócio do Brasil na restauração de ecossistemas.

— Não haverá conflito se houver um planejamento espacial inteligente. O potencial comércio internacional de serviços ecossistêmicos é um dos mais atraentes possíveis para o Brasil, e isso pode chegar na ponta para o fazendeiro como renda complementar — diz Strasssburg.

— O Brasil não participar do comércio internacional de serviços ecossistêmicos seria igual à Alemanha se retirar do comercio internacional de automóveis.