Rede falha impacta apuração e explica 'viradas' de Dilma em Aécio e de Lula em Bolsonaro; entenda

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A chamada "virada" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra o presidente Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições --assim como a de Dilma Rousseff (PT) contra Aécio Neves (PSDB) em 2014-- foi usada nas redes sociais para incentivar teorias conspiratórias sobre suposta fraude na contagem dos votos.

O próprio Bolsonaro disse, após o primeiro turno, que a análise minuto a minuto da totalização sinalizava uma ação de algoritmos, sugerindo alguma anomalia no resultado final.

"Até o gráfico da evolução que foi feito aqui levando-se em conta cada percentual de voto que era computado criou figura geométrica uniforme bem típica de algoritmo, muito parecido com aquela do segundo turno de 2014 do Aécio Neves", afirmou.

As inversões na liderança das eleições, no entanto, têm relação com a velocidade com que estados enviam os dados para a contagem dos votos, realizada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Segundo o tribunal, a transmissão dos dados não ocorre de forma simultânea por causa do limite de infraestrutura de telecomunicações em locais distantes dos grandes centros.

"Essa é uma situação comum sobretudo em estados das regiões Norte e Nordeste e em partes do Centro-Oeste", disse o TSE, em nota.

"A questão envolve a capacidade de processamento do computador disponível na localidade para a transmissão dos dados, bem como a estabilidade e a velocidade da rede de dados local na conexão com a rede privativa da Justiça Eleitoral", completou.

O TSE afirma ainda que essa dificuldade de infraestrutura, às vezes, só é contornada pelo transporte do mesário até um ponto de transmissão da Justiça Eleitoral ou, como ocorre em aldeias indígenas, pelo uso de telefones via satélite.

No primeiro turno das eleições deste ano, em 2 de outubro, Lula abriu a contagem dos votos na frente, mas apenas por poucos minutos. Ele manteve a liderança até às 17h13, quando foi ultrapassado por Bolsonaro.

O atual presidente, que busca a reeleição, chegou ao seu ápice da apuração às 18h09, quando alcançou 48,98% dos votos válidos.

A segunda "virada", com Lula passando à frente, ocorreu às 20h02, com 70% das urnas apuradas. A partir desse momento, o petista passou a aumentar a diferença do atual presidente até a contagem dos votos se encerrar.

O petista registrou seu melhor índice de votação no Nordeste, região onde a contagem costuma ocorrer depois. No primeiro turno, Lula teve 48,4% dos votos, contra 43,2% de Bolsonaro.

O Distrito Federal foi a primeira unidade da federação a enviar os dados de 100% das urnas para o TSE. Às 20h37, todos os votos dados pelos eleitores da capital federal já estavam no sistema da Justiça Eleitoral e publicados no site do tribunal. No DF, Bolsonaro (51,6%) teve mais votos que Lula (36,8%).

O último estado a enviar todos os dados para o TSE no primeiro turno foi o Amazonas. O atraso se deu por causa de uma urna que precisou ser substituída por cédulas de papel em uma comunidade ribeirinha em Coari, no interior do estado.

A seção eleitoral em que o problema ocorreu fica a 450 km de Manaus, e os votos só foram computados no TSE 41 horas após o horário previsto para o término da votação. No Amazonas, Lula (49,5%) teve mais votos que Bolsonaro (42,8%).

Em 2014 houve movimento parecido. No segundo turno, Aécio permaneceu em primeiro lugar na contagem dos votos até as 19h32, quando Dilma ultrapassou o tucano e venceu a eleição, com 51,6% dos votos válidos.

À época, o TSE desmentiu um boato que corria nas redes sociais sobre a alternância nas colocações de Dilma e Aécio. A virada de Dilma, porém, não teve transmissão ao vivo no país.

A apuração só pode ser divulgada às 20h, horário em que a votação se encerrou no Acre --neste ano, as votações em todo o país irão se encerrar às 17h de Brasília.

Aécio liderou a apuração, considerando os votos totais, das 17h01, quando as primeiras urnas foram apuradas, às 19h31. A virada aconteceu às 19h32. Depois disso, Dilma nunca mais deixou a liderança da disputa.

"O que ocorreu em 2014 foi que, devido aos fusos horários do país, as votações das regiões Sul e Sudeste foram totalizadas antes das regiões Nordeste e Norte. Nestas últimas, houve maior votação para a candidata Dilma Rousseff. Com o andamento da totalização, a vantagem inicial do candidato Aécio Neves foi, desse modo, gradativamente diminuindo, conforme os Boletins de Urna (BUs) das regiões Norte e Nordeste do país foram sendo enviados e processados", disse o tribunal.

"Tivessem os BUs das regiões Norte e Nordeste sido processados antes dos BUs das regiões Sul e Sudeste, não teria havido inversão alguma. Ainda assim, o resultado da eleição estaria correto, pois a ordem de recebimento dos dados parciais não impacta essa somatória", completou.