Reduzir miséria e mal-estar é desafio do próximo governo

Inflação, dívidas e desemprego contribuíram para deteriorar a um ponto crítico a vida dos mais pobres, revela uma pesquisa da UFRJ publicada pelo GLOBO. É preciso enfrentar a questão com a máxima prioridade, mas sem cair na tentação do populismo como faz o governo, com nítidos contornos eleitoreiros. A Emenda Constitucional promulgada nesta semana decretando um estapafúrdio “estado de emergência” serve apenas para atropelar as leis fiscais e eleitorais, sem trazer uma resposta à altura para o mal-estar dos mais pobres.

Ao contrário. O aumento do Auxílio Brasil para R$ 600, o vale para caminhoneiros autônomos e taxistas, o incremento de 100% no vale-gás e as demais benesses concedidas pela operação vergonhosa que aprovou a emenda no Congresso são apenas paliativos de efeito incerto para os mais necessitados — que abrirão um rombo certo no Orçamento, superior a R$ 41 bilhões. Ninguém acredita que o próximo governo, em nome da saúde fiscal, retrocederá nos benefícios concedidos.

Desemprego e pobreza: Mal-estar no Brasil é o maior em dez anos

Há, ainda, cortes de impostos que só vigoram até o final do ano, como a eliminação do PIS e Cofins para a indústria ou de impostos federais sobre os combustíveis. No vale-tudo eleitoral, o governo semeou incertezas para 2023. Como resultado, o próximo presidente receberá de herança o abalo institucional da credibilidade fiscal, uma percepção de risco maior sobre a solvência da dívida pública brasileira, portanto maior dificuldade para conter a pressão inflacionária, causa essencial do mal-estar dos mais pobres.

Sem emprego, sem renda, com dívidas: Veja histórias de quem lida com as perdas diariamente

Liderado pelo economista João Saboia, o estudo da UFRJ detectou uma alta sem paralelo no “índice de miséria” em apenas um ano. Entre 2020 e 2021, o indicador, uma espécie de termômetro da qualidade de vida da população de baixa renda, subiu 60% — de 0,59 para 0,95, numa escala de 0 a 1. Trata-se do patamar mais elevado em uma década. A partir de 2019, início do governo Jair Bolsonaro, a situação da população mais pobre só piorou.

O cálculo do índice leva em conta vários dados cujo impacto é decisivo para a vida dos pobres: nível de subemprego, renda familiar per capita na faixa da população com renda mais baixa, desigualdade em relação à faixa de renda mais alta e inadimplência.

Do universo pesquisado, 27,2% estão com dívidas em atraso, situação melhor apenas que no auge da pandemia. O custo da alimentação subiu 40% desde janeiro de 2020 até junho passado. Não surpreende que a fome tenha se agravado. De acordo como o último relatório das Nações Unidas sobre a fome no mundo, a insegurança alimentar grave no Brasil subiu de 3,9 milhões de pessoas (1,9% da população) entre 2014 e 2016 para 15,4 milhões entre 2019 e 2021 (7,3%), período do governo Bolsonaro. Tal retrocesso é simplesmente inaceitável.

Além de reerguer os programas sociais com foco nas necessidades da população mais pobre — e não em grupos eleitoralmente cobiçados, como caminhoneiros ou taxistas —, o presidente eleito em outubro precisará de um programa econômico minimamente crível, capaz de desarmar as bombas fiscais criadas pelo atual governo e de gerar uma atmosfera que resgate os investimentos e o crescimento. Esse é o único caminho duradouro para reduzir o mal-estar da população.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos