Reencarnação do dalai lama, novo ponto de atrito entre EUA e China

Por Shaun TANDON
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Dalai lama durante em conferência na Universidade de Siracusa em 2012

À medida que os tibetanos começam a tomar consciência do fato de que seu adorado dalai lama um dia inevitavelmente virá a falecer, o governo americano busca estabelecer uma linha vermelha para Pequim, na hora de escolher seu sucessor.

Os Estados Unidos esperam deixar claro de antemão que a China enfrentará a objeção internacional se tentar manejar o processo de reencarnação, como demonstra a advertência de um alto funcionário e um projeto de lei que se estuda no Congresso americano.

Aos seus 84 anos, o 14° dalai lama reduziu sua incessante agenda. Em abril passado, foi hospitalizado por uma infecção respiratória, mas não há indícios de que enfrente problemas de saúde graves.

Tanto os ativistas tibetanos quanto Pequim são conscientes de que a morte do ganhador do Prêmio Nobel, um dos líderes religiosos mais populares do mundo por seus ensinos e por seu humor peculiar, aumentará a pressão por uma maior autonomia para a região do Himalaia.

Há nove anos, a China não trata do tema com os representantes do dalai lama e insinua cada vez mais que pode identificar seu sucessor, que, segundo Pequim, apoiaria seu domínio férreo sobre o Tibete.

Um projeto de lei apresentado recentemente no Congresso americano prevê sanções a qualquer funcionário chinês que interferir na sucessão do budista tibetano.

O principal funcionário do Departamento de Estado para a Ásia Oriental, David Stilwell, prometeu, em declaração no Congresso, que os Estados Unidos continuarão pressionando por uma "autonomia significativa" para os tibetanos.

"De maneira preocupante, e ironicamente, o partido continua reivindicando seu papel no processo de reencarnação do dalai lama, mesmo quando o presidente Xi pediu aos membros do partido para continuarem sendo 'ateus marxistas inflexíveis'", afirmou.

"Acreditamos que os tibetanos, como todas as comunidades religiosas, devem poder praticar sua fé livremente e selecionar seus líderes sem interferência", declarou.

- Questionando a tradição -

Os monges tibetanos tradicionalmente escolhem o dalai lama por meio de um ritual que pode levar anos, com um festejo em busca de sinais que apontem qual menino é a reencarnação do último líder espiritual.

Vivendo no exílio na Índia desde que fugiu de uma frustrada rebelião em 1959, o 14° dalai lama refletiu sobre uma sucessão não tradicional que despistaria a China.

O líder garantiu que poderia escolher seu sucessor enquanto ainda estiver vivo, podendo mesmo apontar uma mulher, ou inclusive decidir que é o último dalai lama.

Matteo Mecacci, presidente da Campanha Internacional pelo Tibete, um grupo de pressão com sede em Washington ligado ao dalai lama, disse que a legislação apresentada no Congresso dos Estados Unidos enviaria uma mensagem clara tanto para a China quanto para os tibetanos.

"Esperamos que o dalai lama viva muito mais, mas acredito que ter uma legislação logo terá um impacto na mentalidade chinesa", advertiu.

"Não digo que isso vá mudar a decisão do governo chinês, mas provavelmente terão que reconsiderar algumas das consequências e suas implicações", completou.

Apresentado na Câmara de Representantes pelo democrata Jim McGovern, o projeto de lei também evitaria que a China tivesse novos consulados nos Estados Unidos até que Washington possa abrir uma missão na capital do Tibete, Lhasa.

- China em ascensão -

Ex-membro do Parlamento da Itália, Mecacci disse que a lei dos Estados Unidos teria um impacto entre os políticos da Europa e da Ásia e advertiu sobre os efeitos internacionais, se a China instalar um dalai lama submisso.

"Se você tem um líder religioso que é o braço de um governo estrangeiro e que tem centros budistas em todo mundo, isso é parte de um plano muito mais ambicioso para controlar o budismo", afirmou.

Eleito primeiro-ministro tibetano no exílio depois que o dalai lama cedeu seu papel político, Lobsang Sangay disse que o objetivo de Pequim é "transformar o Tibete em um território chinês e transformar os tibetanos em chineses".

A China enfrenta críticas internacionais pelo tratamento dado aos uigures, uma minoria turcófona majoritariamente muçulmana, com a detenção de até um milhão pessoas em campos de concentração na região ocidental de Xinjiang.

A China alega que está dando "formação vocacional" e que levou o desenvolvimento tanto para Xinjiang quanto para o Tibete.

Alguns observadores esperam que a China faça o mesmo que já fez em 1995, quando selecionou seu próprio panchen Llama (a segunda autoridade religiosa do país) e prendeu um menino de seis anos por sua influente posição budista. Ele foi classificado como o prisioneiro político mais jovem do mundo.

Em uma recente visita a Washington, Sangay expressou, porém, suas dúvidas sobre o fato de um dalai lama posto pela China gozar de legitimidade.

"Vamos considerar, por caso, que Fidel Castro reconhecesse um papa e dissesse a todos os católicos: 'Oi, este é meu papa, vocês vão segui-los?'", questionou.