Refeitórios populares resistem à alta dos preços dos alimentos na Argentina

Décadas de experiência, uma vasta rede de auxílio estatal e comunitário e muita engenhosidade ajudam os mais pobres na Argentina a resistir ao aumento no preço dos alimentos, um problema que se generalizou no mundo desde a guerra na Ucrânia.

Elena González tem um botijão de gás, mas para economizar cozinha à lenha no rústico pátio de sua casa nos arredores de Buenos Aires. Com três gansos, quatro galinhas e uma horta incipiente, esta mulher, responsável por um restaurante popular, usa a ajuda complementar que obtém do Estado e de doações privadas, reduzidas pela inflação.

"A solução está cada vez mais difícil", disse Elena, ativista da organização social Barrios de Pie, que há oito anos instalou um refeitório popular em Belén de Escobar.

A Argentina têm há muitos anos um dos maiores índices de inflação do mundo, com 50% em 2021. Em 2022, o aumento foi maior. O preço dos alimentos cresceu cerca de 20% apenas no primeiro trimestre.

"Apesar disso, aqui não podemos deixar de cozinhar nenhum dia, se não as crianças batem na porta e pedem um prato", conta Elena González.

Mais de quatro milhões de pessoas dependem de subsídios públicos para comer. Mesmo que o país tenha uma rede de assistência, a luta contra os altos preços é árdua.

O ministério de Desenvolvimento Social deu neste ano um aumento de 50% para os que recebem ajuda alimentar diretamente. O montante oscila entre 9.000 e 18.000 pesos mensais (75 a 150 dólares).

Além disso, o ministério apoia financeiramente os refeitórios de mais de 15.800 escolas e, junto ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mais de 1.600 organizações comunitárias que oferecem refeições e lanches para mais de 300 mil pessoas diariamente.

Essas ajudas se juntam com a assistência dos municípios, que entregam desde a carne de frango até terrenos para cultivos de autossustento, como a horta de Elena González.

- "Sobrevivemos por necessidade" -

A Argentina tem "uma rede de segurança social muito maior que outros países latinoamericanos. Mas se encontra diante de um dilema, porque não pode aumentar seu gasto fiscal por seus compromissos com o Fundo Monetário Internacional", explica o sociólogo Ricardo Rouvier.

Silvia Saravia, coordenadora nacional de Barrios de Pie, destacou: "Temos muitas dificuldades com relação à assistência do Estado aos refeitórios e merendeiros". "A assistência é inconstante", pontuou.

"Sobrevivemos porque há necessidade. Temos tantos refeitórios e merendeiros porque as famílias compreendem que em conjunto se cozinha melhor do que cada um separadamente. Os próprios negócios do bairro colaboram com o que falta. Buscamos doações de empresas...", afirma Saravia.

Há dois anos, esta organização nascida em 2001, em meio à pior crise da história recente da Argentina, promove as hortas comunitárias. Na periferia de Buenos Aires são 90 e no resto do país mais de 900. Na de Elena González tem alface, acelga, beterraba, ervilha e feijão para esta temporada de outono-inverno.

- "Cabeça e coração" -

Ciente dos auxílios estatais, há também uma rede que está envolvida com grupos religiosos e organizações da sociedade civil, como a ONG Banco de Alimentos, criada em 2000 e que conta com 25 entidades por todo o país.

O maior Banco de Alimentos se encontra em Munro, na grande Buenos Aires, e com ajuda de supermercados, empresas da agroindústria e outros doadores que entregam para 1.200 organizações, com alcance de mais de 240 mil pessoas diariamente. Em 2021, distribuiu mais de cinco milhões de quilos em alimentos, segundo sua porta-voz Virgínia Ronco.

Sua limitação consiste na distribuição do que recebe e não necessariamente na necessidade dos refeitórios. "As organizações sempre nos informam da necessidade de leite", um alimento que sempre chega em pouca quantidade e que as vezes compram com recursos doados, explica Ronco.

"As organizações são verdadeiras heroínas nesta história. Estão diariamente cozinhando com os poucos recursos que têm. Por mais que estejam em uma situação de grande vulnerabilidade, se jogam de cabeça e coração em uma tarefa que os surpreende", afirma.

A ajuda estatal aos setores mais pobres começou durante o governo de Raúl Alfonsín (1983-89), no retorno da democracia, com a distribuição do que ficou conhecido como 'a caixa PAN' (Programa Nacional de Alimentação). Com a crise de 2001 ela se aprofundou e atualmente vive um de seus ápices, aponta o analista político Carlos Fara.

"Estamos em uma situação em que a economia está crescendo, mas com a inflação muito alta. Isso tem um impacto social, porque a pobreza (37%) se deve à renda", alerta.

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