Referência brasileira na obra do autor irlandês James Joyce, Bernardina da Silveira Pinheiro morre aos 99 anos

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Professora emérita da UFRJ especializada em literatura inglesa e tradutora, Bernardina da Silveira Pinheiro conseguiu em 2005 algo que a maioria dos leitores brasileiros de James Joyce considerava uma façanha: verter o romance “Ulisses” para o português de forma distante da pecha de hermética que a obra carregou desde sua publicação, em 1922.

Num trabalho que consumiu oito anos de dedicação, Bernardina debelou o jogo de palavras do autor irlandês de forma mais fluida do que a primeira tradução, assinada por Antônio Houaiss em 1966, equilibrando criatividade e fidelidade ao original para trazer para o português as gírias e ironias daquele que é considerado um dos maiores romances de todos os tempos.

Bernardina também traduziu outra das obras mais famosas do irlandês, “Um retrato do artista quando jovem” (1916), em edição publicada pela Editora Siciliano, em 1992. A relação profunda com o autor teve início antes mesmo das versões para o português dos livros, quando Bernardina começou a ministrar aulas sobre “Ulisses”, na época em que começou a lecionar na pós-graduação, na década de 1980. A tradutora tornou-se uma autoridade brasileira na obra de Joyce, sempre presente nos eventos nacionais do Bloomsday, o feriado irlandês de 16 de junho, no qual os fãs do autor homenageiam mundialmente o personagem Leopold Bloom, protagonista de “Ulisses”.

Também tradutora de Joyce, Dirce Waltrick do Amarante se recorda de Bernardina quando ainda estava debruçada sobre o romance:

— Eu a conheci pessoalmente, num congresso. Ela estava terminando a tradução de “Ulisses”, que, na minha opinião, não teve todo o reconhecimento devido, ainda que não haja dúvida de que ela tenha sido uma grande joycista, uma grande tradutora e intelectual.

Além das obras de Joyce, Bernardina assinou ainda a tradução de “Uma viagem sentimental através da França e da Itália” (1768), do irlandês Laurence Sterne (1713 – 1768). Segundo um de seus filhos, o jornalista e ex-diretor do Instituto Moreira Salles Flávio Pinheiro, um de seus projetos não realizados era a tradução do quarto livro de “As viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667 — 1745).

— Minha recordação mais constante era vê-la trabalhando em casa. Foi uma grande professora, era o que mais gostava de fazer. Permaneceu em sala de aula o quanto pôde — recorda Pinheiro.

Bernardina da Silveira Pinheiro morreu nesta quinta-feira (7/10), aos 99 anos, em sua casa, em Copacabana, no Rio, após uma pneumonia que a debilitou. Ela deixa quatro filhos, seis netos e 11 bisnetos.

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