Referência da arte urbana gaúcha, Xadalu mostra no Rio obras inspiradas em suas raízes guaranis

·4 minuto de leitura

A estética desenvolvida por Xadalu, nome central da arte urbana de Porto Alegre, tem como raízes a vivência nas ruas do Centro, quando se mudou com a família de Alegrete para a capital, aos 10 anos de idade, e a referência de sua origens indígenas. O nome artístico adotado por Dione Martins vem do personagem criado por ele em 2004, o rosto de um indiozinho estilizado que era visto por muros e paredes da cidade em stickers e lambe-lambes. Nos anos seguintes, suas criações passaram a ser vistas também em galerias e instituições, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), a Fundação Iberê Camargo (RS) e o Museu Arte Rio — no MAR, sua bandeira "Atenção Área Indígena" ficou hasteada entre março de 2020 e maio deste ano.

Entre junho e agosto de 2021, Xadalu permaneceu no Rio, quando participou da residência artística do Instituto Inclusartiz. O gaúcho foi o primeiro artista a desenvolver seus trabalhos no espaço do centro cultural que a instituição inaugura na Rua Sacadura Cabral, próximo à Praça da Harmonia, na Gamboa. Por ocasião da 11ª ArtRio, Xadalu voltou à cidade para participar neste sábado (11), às 15h, de um ateliê aberto no local, ao lado do carioca Lucas Lugarinho.

Algumas das obras feitas por Xadalu na residência poderão ser vistas em exposições programadas para a Fundação Iberê Camargo, em março, e o Museu Nacional de Belas Artes, em setembro. O artista conta que muito dos processos são debatidos com os sábios da comunidade guarani-mbyá da região metropolitana de Porto Alegre, que frequenta desde 2004. Em 2019, o gaúcho passou por um ritual de revelação de nome, com o qual passou a ser chamado, Xadalu Tupã Jekupé.

— Troco muito com os sábios e as pessoas da comunidade, teve um dia que um deles me mandou um áudio de oito minutos para falar da sugestão para o nome de uma exposição — conta Xadalu. — Gosto de consultá-los porque o meu conhecimento é uma mistura de tudo que eles me contam.

A busca pela identidade originária de Xadalu se integra a sua produção, que vai da arte de rua à fotografia, pintura e serigrafia. Na infância em Alegrete, ouvia histórias da trisavó contadas por sua avó, e imaginava a qual etnia a matriarca pertencera. Um dos trabalhos desenvolvidos na residência é inspirado nesta indagação, "Antes que se apague", que será também o título da individual no Iberê Camargo.

— A sociedade cria mecanismos para ir te apagando até o momento que não exista mais. Essa dúvida sobre a minha origem é o que me move. Sigo uma coisa que sempre me falavam na roda de fogueira: "Tu só vai conseguir entender o seu presente e partir para o seu futuro se conhecer o seu passado" — lembra Xadalu.

A conexão com as raízes indígenas foi ampliada com a mudança de Xadalu com a avó, a mãe e a irmã mais nova para Porto Alegre em 1995. Foi um recomeço difícil para a família, que teve de sobreviver da coleta de material reciclado no Centro, onde Xadalu teve contato com alguns membros da comunidade.

— Para a criança, tudo vira uma aventura. Catar latinha, pedir comida na casa das pessoas, você não entende a situação direito e não tem medo. Isso acabou sendo um ponto de virada, me trouxe o lado sagaz do artista urbano — comenta. — Aliado a minha evolução espiritual com os guarani-mbyá, essa experiência me constituiu como artista.

Antes da participar na residência do Instituto Inclusartiz, Xadalu foi descoberto na cidade por nomes como o crítico e curador Paulo Herkenhoff e Carlos Vergara — após o término da estadia pelo projeto, ele permaneceu mais alguns dias hospedado com o pintor. As obras do gaúcho também podem ser vistas no estande do Inclusartiz na ArtRio, que vai até este domingo. Em alguns dos processos, Xadalu chegou a contar com a participação de costureiras da região da Gamboa, um intercâmbio que está na proposta original do novo centro cultural.

— A ideia é que seja em espaço aberto para a vizinhança, queremos organizar cursos de fotografia e outras atividades para os jovens da região. Para os participantes da residência, será uma possibilidade única este contato — prevê Frances Reynolds, fundadora do Instituto. — A fachada do sobrado é tombada, e o projeto mantém as marcas do tempo evidentes. O espaço se abre para a calçada, é como se fosse uma extensão da praça. Onde: Centro Cultural Inclusartiz — Rua Sacadura Cabral, 333, Gamboa. Quando: Sáb, às 15h. Quanto: Grátis. Classificação: Livre.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos