Referendo de anexação da Rússia na Ucrânia começa sob ataques

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Autoridades de ocupação russa iniciaram nesta sexta (23) a votação que visa dar um verniz legalista à anexação de cerca de 15% da Ucrânia, invadida por Vladimir Putin em 24 de fevereiro. O processo vai até segunda (27).

Ele ocorre enquanto Kiev aumenta a pressão militar sobre a cidade de Liman, entreposto estratégico na província de Donetsk, que desde 2014 é parcialmente dominada por separatistas pró-Rússia. Houve também ataques pontuais a postos de votação, depósitos de cédulas e à capital regional, que registrou seis mortos segundo o governo local.

A mídia estatal russa, por sua vez, enfatizou as longas filas em diversos pontos das quatro regiões afetadas. São elas Donetsk e Lugansk, que compõem o leste russófono da Ucrânia, chamado Donbass (bacia do rio Don) e cujo reconhecimento como repúblicas autônomas por Putin marcou o prelúdio da guerra, e as áreas sulistas de Kherson e Zaporíjia.

Olhando o mapa, o território do tamanho de Portugal forma o que os nacionalistas russos chamam de Nova Rússia, uma ligação terrestre entre o sul do seu país e a península da Crimeia, anexada sem um tiro pelo Kremlin em 2014.

A anexação, seguida por uma mobilização parcial de 300 mil reservistas que espalhou contrariedade e pânico na classe média russa, foi uma cartada dada pela Rússia no seu pior momento da guerra. Putin perdeu uma fatia de quase 5% do território que ocupava na contraofensiva surpresa de Kiev na província de Kharkiv, no começo deste mês, a primeira vitória do governo de Volodimir Zelenski no conflito.

De quebra, o russo ameaçou empregar armas nucleares segundo a doutrina que ele aprovou em 2020: se houver ameaça existencial ao Estado russo. Com as áreas anexadas sendo vistas por Moscou como suas, o recado fica evidente, embora seja amplamente visto como o blefe que Putin jurou não estar fazendo.

De lá para cá, as ações ucranianas perderam fôlego, provavelmente por exaustão de material e tropa -o segundo problema é visível na ofensiva russa desde seu começo, e a mobilização longamente protelada para evitar danos à popularidade de 80% de Putin acabou sendo feita.

Na Rússia, se multiplicam os relatos sugerindo que a mobilização segue padrões diferentes. Nas regiões menos desenvolvidas e distantes, vídeos emergiram com alunos de faculdades sendo levados à força para recrutamento.

Nos centros urbanos principais, o que se vê é pânico na classe média, embora haja exagero acerca de um suposto grande êxodo do país. De todo modo, o Ministério da Defesa listou uma série de profissões que isentam o cidadão da eventual convocação, que a pasta diz focar em pessoas com experiência militar: trabalhadores de TI e jornalistas estão entre os poupados.

Os ataques de Kiev não parecem ser capazes de impedir o processo decidido pela Rússia, que está sendo amplamente criticado na Assembleia-Geral da ONU, que ocorre em Nova York, como uma grande farsa. O assessor de Zelenski Mikhailo Podoliak disse nesta sexta que o processo todo não passa de propaganda.

O mesmo foi dito em 2014, quando Putin reagiu à derrubada de seu aliado Viktor Ianukovitch do poder em Kiev. A diferença é que agora a Ucrânia tem militares com experiência de combate, equipados com uma variedade de armamentos ocidentais e motivados pela invasão.

Custos da anexação serão proibitivos Enquanto a ONU nunca reconheceu a anexação de 2014, o Ocidente a tratou como fato consumado. Isso não irá ocorrer agora, mas um problema talvez tão grande quanto obuses americanos nas mãos da Ucrânia se colocará: o custo financeiro do processo, ignorado no discurso oficial de Putin.

A Crimeia, que equivale a 7% do total do território ucraniano pré-2014, se provou um dreno de dinheiro para Moscou. Em 2021, o Kremlin destinou o equivalente a R$ 7,7 bilhões em subsídios para o governo dos dois entes criados lá: a República da Crimeia, com 1,9 milhão de habitantes, e a cidade federal de Sebastopol, com 510 mil moradores. O valor sustenta 70% do orçamento local.

Segundo um estudo detalhado de 2019, feito pelo economista moscovita Serguei Aleksatchenko, naqueles cinco primeiros anos a fatura total ficou em R$ 120 bilhões para o Kremlin, ou um décimo do PIB anual russo médio daquele período. Isso inclui mais de R$ 25 bilhões em projetos de infraestrutura, como a mastodôntica ponte da Crimeia, que liga a região à Rússia continental.

São valores expressivos, e é preciso considerar que a Crimeia não passou por oito anos de guerra civil destrutiva e sete meses de conflito entre Estados, como a junção Donbass-sul, de resto uma área mais de duas vezes maior e com mais habitantes: antes da violência, havia estimadas 7 milhões de pessoas nas regiões.

O número é impreciso porque a ocupação russa é variável. É de 60% de Donetsk, e talvez 95% das outras quatro regiões, mas serve para dar uma ordem do tamanho do desafio de integrar essa população aos 146 milhões de russos.

Além disso, apesar de ter sofrido sanções ocidentais desde 2014, a economia russa se recuperou relativamente bem, além de não estar sujeita a um conjunto muito mais restritivo de punições como agora, obrigando a olhar para parceiros como a aliada China e a ambígua Índia para fechar suas contas exportando hidrocarbonetos com desconto.

O processo de absorção da Crimeia em 2014 foi aprovado pelo Kremlin dois dias depois da votação. A península é uma região histórica russa, composta basicamente de russos étnicos, então a votação com 95,5% de aprovação da anexação pode ter sido fraudulenta e certamente fere a lei internacional, mas não era diferente muito do sentimento nacional

O mesmo poderia ser dito das áreas que passaram oito anos nas mãos separatistas no Donbass, embora ali o Kremlin nunca tinha desejado uma anexação efetiva até este 2022, justamente por conta da heterogeneidade étnica e custos.

A realidade é outra agora, com grandes áreas misturadas etnicamente e uma agressão militar explícita envolvida, o que faz crer que os ataques pontuais de sabotadores em Donetsk possam ser os primeiros de muitos.