Reflorestamento: como é a rotina nos viveiros de mudas da Mata Atlântica

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Rio — Coletar os frutos, extrair as sementes e cultivá-las. Este é o ciclo básico de atividades realizadas nos três viveiros de mudas da Mata Atlântica mantidos pela prefeitura na região, localizados na Barra, em Grumari e em Guaratiba, no manejo de espécies típicas da região. Entre elas estão algumas ameaçadas de extinção, como guapuruvu, pau-brasil e jequitibá-açu. Os três hortos produzem juntos mais de 15 mil mudas por mês e acumulam décadas de trabalho na preservação da fauna e da flora do bioma, dedicação alinhada com os objetivos da Década da Restauração de Ecossistemas, lançada pela ONU para os anos de 2021-2030.

As unidades fazem parte do programa municipal Refloresta Rio, que conta com mais três viveiros na cidade, em Campo Grande, em Vila Isabel e no Parque Royal. Os mutirões de reflorestamento foram implementados na década de 1980 e já envolveram mais de 15 mil moradores de comunidades. Segundo dados do portal da prefeitura, eles recebem uma bolsa-auxílio que é a única fonte de renda para 60% das famílias participantes do projeto.

Em cada viveiro, trabalham 11 ou 12 pessoas. Na Fazenda Modelo, em Guaratiba, é pelas mãos —e pelos pés — de Edilberto Rosendo, responsável pela equipe de coletores e beneficiadores de sementes, que se inicia a produção das mais de oito mil mudas produzidas mensalmente, para abastecer outros hortos. Trabalhando no reflorestamento da Mata Atlântica desde os 19 anos, Rosendo, hoje com 48, continua a subir em árvores para coletar sementes.

— Faço isso desde que comecei aqui. É um privilégio, porque hoje faço coleta em plantas que estavam entre as mudas que ajudei a produzir. Elas já são árvores adultas, com frutos prontos para a coleta — comenta.

Ele destaca a importância do reflorestamento para o equilíbrio ambiental no meio urbano:

—Antes do programa a gente ouvia falar muito de deslizamentos em encostas. Os moradores da região perdiam casas e móveis. Houve uma diminuição grande à medida em que ele avançou.

Rosendo trabalha com 300 espécies de plantas. A produção das mudas é sazonal: depende do clima e da espécie. Com tal rotina, hoje são poucas as árvores que não consegue identificar.

— A gente sai a campo para pegar frutos e sementes, e outra equipe faz a extração. Essas coletas são realizadas no Rio e na Região Metropolitana, em cidades como Niterói, Maricá e Itaguaí. Depois, as sementes são cadastradas, georreferenciadas e selecionadas no sistema de controle da prefeitura — explica.

Amor pela terra como pré-requisito

O Horto Rizzini, no Bosque da Barra, é um dos locais que recebem as mudas da Fazenda Modelo. O cultivo acontece sob o olhar atento do biólogo Carlos Alberto Soares, de 38 anos, encarregado florestal responsável por supervisionar a plantação e a distribuição das mudas para o plantio em encostas e faixas de praias.

A paixão pelas plantas aflorou bem antes da faculdade: Soares conta que sempre teve curiosidade de saber, em suas palavras, como funcionava “a evolução do vegetal na terra”.

— Eu gosto de olhar para a planta e descobrir se ela precisa de um nutriente. Gosto de trabalhar com tudo aquilo que eu possa proporcionar para o melhor desenvolvimento das plantas, fazer mudanças de substrato, observar a sazonalidade e entender melhorar a sua interação com o solo. Um novo sistema de irrigação foi instalado recentemente, o que tornou o trabalho ficou mais fácil, pois é possível trabalhar a saturação do solo automaticamente — conta.

Já Márcio Pestana, responsável pelo Viveiro Municipal de Produção de Mudas de Grumari, tomou gosto pelo trabalho com a natureza após uma temporada trabalhando em atividades opostas ao reflorestamento.

—Conheci o projeto através da associação de moradores da região e passei a ter uma visão de preservação ambiental e a achar que eu poderia fazer algo para o desenvolvimento do verde no Rio. Antes, trabalhava abrindo mata para plantação de bananas, para levar o sustento para minha família, mas entendi que isso prejudicava o solo. Hoje sou apaixonado pelo meu trabalho e não me vejo fazendo outra coisa — afirma Pestana, que tem 49 anos e atua no viveiro há 18.

Pestana coordena dez funcionários que fazem a manutenção e a preparação de terras, o semeio de sementes e a repicagem das mudas (transplantio de um local para outro no mesmo viveiro) até que elas estejam prontas para serem encaminhadas para áreas onde o reflorestamento está em curso. Metade das mudas são originárias da Fazenda Modelo; as outras são de produção própria. Ele conta que mesmo nos fins de semana visita o horto para verificar se tudo corre bem.

—Como eu moro muito perto, essa é minha rotina. Eu me sinto mais morador do viveiro do que da minha e minha própria casa — brinca.

Atualmente, sua fixação é uma espécie que ele luta para fazer se adaptar ao solo:

—A rabo-de-arara está ameaçada de extinção. Estamos tentando produzi-la em escala maior e enfrentando dificuldades. Mas devagarzinho, com paciência e dedicação, vamos descobrir a melhor forma.

Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, no momento 50 mil mudas estão prontas para serem levadas para projetos de recuperação ambiental. O programa de reflorestamento já plantou mais de dez milhões de mudas em 3,4 mil hectares de área de morros e encostas em 92 bairros do município.

*Estagiária, sob a supervisão de Lilian Fernandes

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