'Reformas sempre implicam pisar nos calos do privilégio', afirma Petro

A menos de duas semanas do segundo turno das eleições colombianas, o candidato Gustavo Petro afirmou que, se for eleito presidente, irá “relegitimar as instituições, aplicar a Constituição e construir um país que possa viver em paz”. Isso, argumentou o político de esquerda, que enfrenta o empresário populista Rodolfo Hernández, “implica reformas e pisar nos calos do privilégio”.

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As declarações de Petro foram feitas durante uma conversa com a diretora do El País, Pepa Bueno, e o jornalista Alberto Casas durante o Festival de Pensamento do Prisa, promovido pelo grande conglomerado de mídia espanhol, em Cartagena. Hernández, de 77 anos, também fora chamado, mas recusou o convite de última hora:

— Ele não quis vir e lamentamos, porque teríamos gostado de debater suas propostas e ideias — disse Bueno, no início da conversa.

Ao lado, Petro ergueu as sobrancelhas. Os assessores de Hernández, ex-prefeito de Bucaramanga que chegou ao segundo turno com o discurso de outsider político, lhe recomendarem evitar o corpo a corpo com o oponente de esquerda, mas experiente no debate político.

Há uma semana, o empresário populista tinha uma vantagem de sete pontos percentuais, margem que desapareceu nos últimos dias. Hoje, as pesquisas mostram um empate técnico.

A conversa com Petro começou tratando das mudanças climáticas, assunto que faz parte de sua plataforma desde que se exilou na Bélgica há 20 anos. Ex-guerrilheiro, ele depôs as armas em 1990, após a desmobilização do M-19, grupo rebelde nacionalista do qual foi integrante por 12 anos e lançou-se na política com alguns dos seus antigos companheiros. Uma parte da sociedade não apenas os rejeitou, mas os perseguiu.

Foi na Europa que ele se tornou um ambientalista. A crise climática, disse o candidato, é “um problema da Humanidade”:

— Se você olha, os Estados Unidos são o grande emissor mundial de carbono, que é o que produz a crise climática — disse ele sobre os americanos, maiores poluidores históricos e vice-líderes de emissões atuais, atrás apenas da China. — Nós, com a Amazônia, temos a esponja. É necessário que se chegue a um acordo porque precisamos cuidar da esponja.

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Petro foi perguntado sobre como diminuir a dependência colombiana do petróleo e do carvão, seus dois principais produtos de exportação. Respondeu que seu plano não é apenas governar o país, mas transformá-lo. Deseja acabar com a economia extrativista que predominou na América Latina nos últimos séculos. A seu ver, a Colômbia imitou a economia venezuelana, que consistia em vender petróleo e importar o resto, às custas da produção doméstica.

— Isso nos fez crer que éramos ricos, mas não eram. Quebrou toda a economia local, abrimos mão do conhecimento, das universidades, destruímos toda a qualidade do sistema educativo. A classe política foi corrompida pelo dinheiro fácil, via impostos e regalias — afirmou.

Por isso, disse ainda, a Colômbia deve fazer uma transição em curto prazo para implementar a paz firmada pelo acordo de 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Com isso, pretende também que o país receba mais turistas, passando de 5 milhões para 15 milhões por ano.

— Isso substituiria pela metade as divisas do petróleo, mas precisamos de paz. Em um país onde as pessoas se matam não há turismo — disse ele.

O candidato tem sido contundente durante a campanha na hora de explicar que o país deve fazer a transição para energias verdes, o que acendeu o alerta nos setores de mineração e na indústria do petróleo. Ele insiste que é necessário acelerar o abandono dos hidrocarbonetos para salvar o planeta.

Petro também foi perguntado sobre a mensagem que lança ao mercado internacional e aos empresários colombianos que manifestaram sua inquietação e incerteza com a possibilidade de sua vitória. Respondeu que um dos fundos de investimento mais respeitados do mundo, o Fundo Soberano Norueguês, comprou um grande volume de títulos colombianos enquanto ele liderava as pesquisas:

— Apostaram que seu eu governasse esse país, ele seria melhor — afirmou. — Se você analisar a lógica interna, encontra paradoxos. Há empresários industriais votando em proprietários de terra. Empresários do turismo votando contra a paz. É estranho.

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Em seguida, comentou uma das plataformas fundamentais de sua campanha: a necessidade de uma reforma tributária que ajude a equilibrar as contas do Estado.

— Não há mentira nem demagogia, uma reforma tributária faz falta — disse, e lembrou que seu oponente promete baixar impostos, mas não explica como irá custear os programas sociais. — Uma reforma não se faz com mais impostos sobre os alimentos, deve afetar a camada mais rica do país.

Sua teoria é que as classes mais altas da sociedade colombiana não pagam impostos como deveriam. Não se refere aos ricos, mas aos milionários. Assim, acredita que poderia arrecadar mais 50 bilhões de pesos. Medidas deste tipo, garante, permitiriam ao governo financiar os gastos para que todos os jovens tenham acesso ao ensino superior e todas as mães possam receber uma renda mínima:

— Isso não é populismo.

A diretora do El País, logo depois, fez várias perguntas que deveriam ser respondidas rapidamente:

— Teria ido à Cúpula das Américas? — indagou Bueno.

— Sim, teria, para falar com Biden pessoalmente. Quero que haja dois elementos iniciais de discussões: mudança climática e política antidrogas — respondeu o candidato.

— E as relações com a Venezuela? — perguntou a diretora do El País.

— A fronteira será aberta e as relações diplomáticas serão restabelecidas. Se os gringos agora deixam os venezuelanos exportarem petróleo, esse dinheiro que a Venezuela está recebendo pode virar dinheiro da Colômbia com a exportação — afirmou Petro.

— Se você ganhar e Lula vencer no Brasil, será criado, junto com Gabriel Boric [presidente do Chile], um novo movimento latino-americano?

— Indubitavelmente. Uma América Latina que valoriza o conhecimento, a cultura e a agricultura.

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Na semana passada, Petro ofereceu um pacto institucional a Hernández, o que culminou em uma pergunta sobre a razão de fazer isso com alguém acusado de corrupção. Sua resposta recorreu a uma visão global da institucionalidade:

— O acordo é da sociedade. Essas forças que não vão votar em mim precisam ser escutadas mesmo que eu seja eleito presidente. Não vou continuar com essa lógica de perseguir a oposição. Quero paz. Os opositores devem ser tratados como seres humanos. Têm um papel construtivo na sociedade democrática.

Indiretamente, Petro buscou passar durante a conversa a ideia de que Hernández é um demagogo sem propostas concretas e que baseou sua campanha no sentimentalismo:

— As emoções, ouvidas sem a razão, podem nos levar ao abismo.

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