Refugiada ucraniana volta a pintar no Brasil e expõe quadros no interior de SP

PIRACICABA, SP (FOLHAPRESS) - Valeria Okorokova, 21, nasceu em Dobropillia, na província de Donetsk, no leste da Ucrânia. O lugar, na região do chamado Donbass, foi o primeiro e um dos principais focos da guerra iniciada há 202 dias. Entre os milhões de pessoas que deixaram o país fugindo do conflito estavam a jovem, a mãe e a irmã -seu pai precisou ficar e se juntar ao serviço militar, obrigatório para homens de 18 a 60 anos desde o início da invasão russa.

Como refugiadas, elas se mudaram para o Brasil em maio. Acolhidas por uma igreja, como muitos dos ucranianos que acabaram no país, elas se instalaram em Sorocaba (a 104 km de São Paulo).

Foi no interior de São Paulo que, há cerca de três meses, a jovem ucraniana conseguiu restabelecer sua relação com a pintura, que por óbvio a guerra havia interrompido. Ela conta que desde a infância foi influenciada pela família a se aproximar da arte. Estudou violino e piano por quatro anos e foi se achar entre os pincéis. "Eu gostava de tocar, mas sentia necessidade de expressar melhor meus pensamentos."

Em 2019, formada na escola, Valeria passou a estudar artes na Universidade Nacional Oles Honchar Dnipro, mas não conseguiu concluir o curso porque precisou se afastar das aulas, primeiro para tratar de saúde mental, depois devido à guerra.

"Voltei a pintar apenas no Brasil, como uma forma de me reconectar comigo. É algo que me mantém calma, pois preciso focar. Quando não pinto, volto a ficar nervosa porque penso no meu pai e em quem mais está lá em meio aos bombardeios", conta.

Parte dos quadros que ela produziu desde então, com memórias da terra natal e impressões sobre o novo país, integram uma exposição em cartaz no Pátio Cianê Shopping até a próxima segunda-feira (19). São 35 desenhos, em tela e papel canson, com técnicas diversas -a óleo, aquarela, carvão e lápis.

O acervo foi nomeado por Valeria como "O Mundo de Afelion", pseudônimo inspirado em Ofélia, personagem da tragédia "Hamlet", de William Shakespeare, que se encontra entre a alegria e a depressão.

Na exposição, seu país se faz presente em telas com retratos --de figuras como o poeta Taras Shevchenko (o Kobzar) e o presidente Volodimir Zelenski-- e expressões da cultura ucraniana, com mulheres em vestimentas tradicionais. Outras expõem sentimentos de angústia e de esperança sobre a guerra. Valeria espera vender os quadros posteriormente.

Agora, sua ideia é começar a pintar paisagens brasileiras. Alguns aspectos da cultura do país onde foi acolhida já chamam sua atenção. "No Brasil existe a tradição de tocar o sino das igrejas sempre às 18h, e isso pode ser visto pelas pessoas. É algo muito inusitado para mim, mas lindo. Só as grandes cidades do meu país têm esse costume."

A ucraniana diz que sua principal dificuldade tem sido com a adaptação à língua. Ela faz aulas de português e tem buscado praticar a conversação, mesmo porque domina pouco o inglês também.

O tempo é tomado também com as aulas de pintura, com a artista plástica autodidata Cecília Rodrigues -- que também começou a pintar aos 12 anos, incentivada pela mãe. "Valeria é muito focada, vejo muito talento nela. A técnica dela se insere no expressionismo, com pinceladas livres mas carregadas de sentimento", diz a professora.

Ainda que o ateliê de Cecilia seja uma espécie de novo lar, a ucraniana diz sentir saudades de casa. "O Brasil tem me proporcionado qualidade de vida, as pessoas são muito receptivas, há oportunidades para se desenvolver. Na Ucrânia, deixei para trás muitas coisas, a minha vida, todos os meus quadros. Mas agora tenho as telas que fiz aqui."

EXPOSIÇÃO DE VALERIA OKOKOROVA

Quando Até 19.set. De seg. a sáb., das 10h às 22h; dom., das 12h às 20h

Onde Pátio Cianê Shopping: av. Doutor Afonso Vergueiro, 823, Centro. Sorocaba (SP)

Preço Grátis